
Neste 11 de abril, Dia do Infectologista, a Agência Aids celebra e homenageia a atuação daqueles que dedicam suas vidas a diagnosticar, tratar e prevenir doenças infecciosas, causadas por microrganismos como bactérias, vírus, fungos e parasitas.
A infectologia é uma especialidade reconhecida pelo Conselho Federal de Medicina e pela Associação Médica Brasileira. Sua amplitude de atuação é imensa, e cresce a cada ano.
Como esperado, deu origem a subespecialidades, voltadas a temas como aids, hepatites crônicas, infecções hospitalares, vacinas, medicina dos viajantes e pacientes imunossuprimidos, entre outros.
Como peculiaridade, o infectologista não restringe sua atuação a um órgão ou sistema do corpo humano. Trabalha com a complexa interação entre humanos, ambiente e microrganismos, que a qualquer momento pode resultar em catástrofes individuais ou coletivas.
Mas você sabe, de fato, qual o papel do infectologista na luta contra o HIV?Estes médicos são responsáveis por diagnosticar o HIV, monitorar a progressão da infecção e prescrever o tratamento antirretroviral, que transformou o prognóstico do HIV/aids de uma sentença de morte para uma condição crônica totalmente gerenciável.
A importância do infectologista vai além do consultório. Além do que, mais que acompanhar no tratamento direto, os infectologistas também têm um papel bastante importante na luta contra a aids, atuando ativamente na prevenção, acolhimento, disseminação correta de informações, aconselhamento e educação sobre práticas seguras, no incentivo ao acesso a testagem, diagnóstico precoce, acesso e adesão imediata ao tratamento, etc, contribuindo para a redução das taxas de transmissão, mortalidade por aids e melhora da qualidade de vida das pessoas vivendo com HIV.
Em homenagem a esses profissionais, a Agência Aids perguntou aos médicos o que significa ser infectologista e poder cuidar, todos os dias, de pessoas vivendo com HIV? Confira as respostas a seguir:
Dra. Maria Felipe – médica infectologista do Centro de Referência DST/Aids de SP

Cuidar da saúde de pessoas vivendo com HIV/aids, para mim, é pensar que não sou responsável apenas por tratar um vírus, e sim entender a pessoa que vivencia a realidade com HIV/aids dentro de um contexto social e biomédico. Entendo que sou responsável não só pela prescrição de receita e indicação de exames a cada frequência específica, mas também por me comunicar em todas as consultas sobre a sorofobia, direitos das pessoas vivendo com HIV/aids, sexualidade e prevenção de outras ISTs, etc. Tento sempre criar um ambiente livre de julgamentos e preconceitos, onde cada paciente que passa por ali se sinta acolhido e escutado nas suas demandas em saúde e sexualidade, não somente na infectologia, mas na medicina como um todo.
Dra Rosana Del Bianco – médica infectologista, trabalhou no Instituto de Infectologia Emílio Ribas; atualmente diretora da Internação do CRT DST/Aids de SP: Atendi os primeiros casos de HIV, no momento que não havia nem mesmo teste […]. Tenho mais de 40 anos na aids e vários pacientes com mais de 30 anos aqui comigo, vivos. Um deles tem aproximadamente 35 anos vivendo com HIV. Isso é para mostrar que quando o paciente é bem cuidado e aderente [ao tratamento], tem uma sobrevida completamente normal; e olha que estes pacientes passaram por todos os desafios, desde o AZT. Outro paciente chegou a ter CD4 de 1, e hoje tem de 800. Até brinco falando que o CD4 de 1 dele foi um exercito inteiro que o manteve vivo até hoje. Então, ideia é: não pode desistir. A infectologia é uma profissão de desafios. Desafio da aids, foi desafio com a covid, agora com a dengue… essa é a missão do infectologista. O médico infectologista muitos anos atrás era um profissional marginalizado, mas hoje a gente tem um papel importante, principalmente com o HIV. O infectologista levou um porre por conta do estigma tão grande em cima da doença, veja, a covid todo mundo colocou a mão, mas com a aids não foi assim! Porém, o infectologista sempre esteve lá, presente. Viva o infectologista!
Dra. Bruna Gazoni – Médica infectologista na Clínica Afetive Infectologia, em Pelotas (RS)

Cuidar da saúde de pessoas vivendo com HIV é a minha escolha diária. Oferecer um cuidado humanizado, respeitoso, acolhedor sem julgamentos para que essas pessoas que enfrentam tantos preconceitos e discriminação, faz com que eu sinta que faço a minha pequena parte nessa jornada. A nossa luta contra o HIV é o que me move, é o que torna o meu trabalho gratificante e, apesar de todos os desafios, poder cuidar destas pessoas é como um sopro de vida para os meus dias.
Dr. Álvaro Furtado – médico infectologista do Centro de Referência e Treinamento em IST/Aids de São Paulo e do Hospital das Clínicas da FMUSP
Cuidar de pessoas com HIV é algo que me motivou na realização da residência em infectologia. Se tornou a minha principal atividade como infectologista: encarar isso com muita responsabilidade, cuidado e estudo. Ensinar outras pessoas também faz parte do serviço do Hospital das Clínicas (FMUSP), onde ensino outros médicos e residentes. Para mim é um aprendizado diário poder cuidar das pessoas. Aprendo muito com os pacientes através de suas histórias de vida, e ao entender que este seguimento de pessoas com HIV mudou muito se comparado com o que era 20, 30 anos atrás. Então, cuidar de pessoas vivendo com HIV/aids se transformou na minha essência profissional. Por isso, levo muito a sério estudar e me aperfeiçoar. Toda a linha do cuidado hoje faz parte do meu aperfeiçoamento profissional, inclusive o meu doutorado [é nesse sentido]. Encaro sempre com muito cuidado, amor, respeito aos pacientes… entra um pouco também do sentir das dores que os pacientes tem no dia a dia, os preconceitos que sofrem, estigmas, e tentar lutar para que isso diminua. Acredito que o médico hoje precisa ser um comunicador para falar com a sociedade, levantar essas bandeiras de redução de estigma, estar perto do paciente, fazendo com que se sinta seguro em saber que o médico está fazendo o melhor por ele, mas para isso precisa ser um profissional atualizado e antenado com o que está acontecendo no mundo. Além disso, ouvir a sociedade civil, participando do processo de escuta das reinvindicações, sempre atento ao alcance das tecnologias às pessoas vulneráveis.
Dr. José Eduardo Mainart Panini – Médico infectologista, titular da Sociedade Brasileira de Infectologia Residência Médica

Acredito que, em 2024, a melhor parte de ser infectologista, sem dúvida alguma é poder acompanhar todas as conquistas da vida dos pacientes que vivem com HIV. Vê-los trabalhando, namorando, casando, tendo filhos, viajando, enfim, vivendo uma vida absolutamente normal depois do susto do diagnóstico, é o que me motiva diariamente.
Dra. Ana Elisa – médica infectologista da Comissão de Controle de Infecção Hospital (CCIH) do Hospital Central da Polícia Militar (HCPM)

Que pergunta reflexiva! Para mim, cuidar de pessoas vivendo com HIV/aids é aprender diariamente sobre empatia. Não aquele clichê de empatia, mas sim que através do contato de pessoas com HIV ou com outras infecções que têm um certo estigma social, essa empatia se mostra no sentido de desapegar. Desapegar de crenças preconceituosas, de visões estereotipadas e entender que a minha visão e concepção de mundo pode ser totalmente diferente da de outras pessoas e que está tudo bem. Não quer dizer que há algo errado. Eu resumiria em empatia e na aceitação da diversidade.
Kéren Morais (keren@agenciaaids.com.br)
Dica de entrevista
Dra Maria Felipe
@mafeinfectologista
Dr José Eduardo Panini
@infectologista.joseeduardo
Dra Rosana Del Bianco
rosanaelbianco@gmail.com
Dra Bruna Gazoni
@brunagazoni
@afetiveinfectologia
Dr Álvaro Furtado Costa
@dr.alvarocosta
Dra Ana Elisa
@papoinfectado


