Em entrevista à Agência Aids, a médica revisitou a linha do tempo da epidemia no país

Mesmo depois de 40 anos, muitas pessoas ainda morrem em decorrência da aids no mundo. Só o Brasil registrou em 2023, segundo dados do Ministério da Saúde, 30 mortes por dia. No Dia do Infectologista, a Agência Aids conversou com a dra. Rosana Del Bianco, uma das médicas que atendeu os primeiros casos de aids do país, no Instituto de Infectologia Emílio Ribas. Ela revisitou a sua própria história, trajetória profissional e os anos mais difíceis da epidemia que enfrentou e que, de certa forma, revolucionou não apenas a medicina, mas também a sua vida.
A médica lembra que naquele momento não existiam testes capazes para detectar o vírus, e os pesquisadores ainda não tinham ideia de qual era o agente inicial que desencadeava a síndrome da imunodeficiência adquirida. Nesta época, os pacientes já apareciam adoecidos [de aids]. “Tínhamos pouco conhecimento sobre essa doença, foi no decorrer do desenvolvimento científico que a gente aprendeu a cuidar das pessoas.”
“O que a gente fazia era correr atrás de formas de tratar ou evitar as infecções que poderiam levar a um desfecho fatal”, conta a vanguardista.
Mas em meio ao cansaço, tanta mortalidade e desconhecimento, a médica destaca que havia um lado humano: a solidariedade e garra entre os profissionais de saúde, que mesmo diante de tantas dificuldades, trabalhavam incansavelmente para oferecer o melhor cuidado possível. “O avanço foi um conforto para os pacientes e para nós no momento que chegaram no país as drogas antirretrovirais. A primeira droga importante foi o AZT. Temos no país uma porcentagem de pessoas que utilizaram o AZT como monoterapia e estão vivas até hoje.”

“A partir daí vieram novos remédios, remédios que apresentaram uma eficácia muito boa, e isso teve um impacto muito grande e positivo. Era muito difícil para nós, infectologistas, lidar com pessoas tão jovens e detectar que elas iriam morrer em breve, porque não tínhamos muito o que dar aos pacientes. A entrada destes medicamentos e saber que agora eles poderiam sobreviver foi um alívio muito grande, e o nosso olhar passou a ser para a questão da aderência ao medicamento”, recorda.
Hoje, o HIV é considerado uma doença crônica. Ou seja, são aquelas doenças que não têm cura, mas requerem tratamento e cuidados contínuos.
No entanto, existe o preconceito e o estigma, alguns dos principais fatores que influenciam na dificuldade de manter o paciente em tratamento, sobretudo aqueles mais pobres e em outros contextos de maior vulnerabilidade.
“Atualmente, temos à nossa disposição um arsenal terapêutico, conseguimos dar vários passos em relação aos medicamentos, passamos por várias fases da terapia, antigamente esperávamos o CD4, hoje nem esperamos o CD4, temos um acesso muito grande… Porém, ainda enfrentamos desafios, e temos muito o que avançar em relação à adesão ao tratamento antirretroviral […]. Após 40 anos de aids, não podemos aceitar que alguém tenha abandonado o tratamento. Com o HIV, tomar ou não tomar o medicamento é [determinante]. Parar de tomar é algo que pode causar resistência ao medicamento”, esclarece a especialista.
Prevenção
Dra. Rosana elegeu os avanços na prevenção como mais um ganho expressivo na luta contra a aids, especialmente com a chegada da PrEP (Profilaxia Pré-Exposição) e a PEP (Profilaxia Pós-Exposição). “Se continuarmos na linha de avançar o conhecimento, vamos ter um desfecho final do HIV; não acho que ele vai desaparecer completamente, mas assim como a covid veio, se mantém, mas não mata mais, com o HIV o cenário também vai ser cada vez melhor.”
Testemunha ocular das mais variadas etapas da história da epidemia de HIV, a especialista destaca que a nova geração de infectologistas precisa entender que a aids faz parte das doenças determinadas socialmente. “A questão social acaba também dificultando a vida do médico, pois o desfecho não é bacana […]. É muito mais difícil dar o medicamento a uma pessoa em situação de rua, por exemplo.”
Políticas públicas

As políticas públicas brasileiras em relação a resposta de enfrentamento, contenção, tratamento e prevenção do HIV/aids são reconhecidas pela Dra. Rosana Del Bianco: “Políticas a gente até tem. Por exemplo, temos os médicos de rua que vão lá dar medicação. Esta é uma boa política, mas ainda não é uma política que contempla todo mundo e eu acho que isso também traz um pouco de frustração ao novo médico”, classifica.
Sobre os desafios da luta contra a aids, dra. Rosana destacou a coinfecção TB/HIV como um obstáculo que persiste no caminho pelo fim da aids. “A tuberculose, ‘a doença do pobre’, mata mais a população com HIV. Além disso, não há mais aquela aura dos grandes artistas que levantavam a bandeira do HIV/aids.”
Por outro lado, celebra a democratização do acesso à PrEP, mesmo que a passos lentos.

A médica aproveitou a entrevista e mandou um recado para os novos infectologistas: “Existem reclamações de que os médicos não examinam mais fisicamente os pacientes, ficam muito atrás do computador… Assim não há diálogo, perde-se a conversa, o vínculo. O médico tem que examinar, se aproximar.”
“Quando o médico é muito jovem, pode ter um conhecimento muito mais voltado para a tecnologia. Vamos também examinar, colocar o paciente na maca… O paciente quer ser acolhido, não é só o papel. Muitas vezes, ele precisa de um toque, de um olhar, de um gesto, ele quer falar com o médico. A figura do médico ainda é uma figura extremamente importante. Não é sobre tirar a importância dos demais profissionais, como da enfermagem, mas é bom para ele saber que o médico também sempre estará lá a qualquer momento.”
Kéren Morais (keren@agenciaaids.com.br)
Dica de entrevista
Dra. Rosana Del Bianco
E-mail: rosanadelbianco@gmail.com



