
Mesmo na quinta década da epidemia de aids no mundo, a infecção pelo HIV permanece coberta por preconceitos e estereótipos. O estigma da aids geralmente está relacionado a promiscuidade sexual, sexo sem proteção e uso de drogas injetáveis. Fatores que, no imaginário da população em geral, não combinam com senhores e senhoras com mais de 60 anos.
Neste 1ª de outubro, Dia Nacional do Idoso e Dia Internacional da Terceira Idade, a Agência Aids ouviu especialistas no assunto para trazer um panorama da aids entres as pessoas com 60 anos ou mais.
Eles acreditam que assim como tudo o que envolve os idosos, o aumento da detecção de HIV não tem uma explicação única. Um dos fatores está relacionado ao baixo uso de preservativos nessa faixa etária.
De acordo com a médica infectologista Gisele Cristina Gosuen, responsável há 15 anos pelo Ambulatório HIV e Envelhecer, da Disciplina de Infectologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), estamos falando de uma geração que não têm a cultura do preservativo. “Muitos idosos acreditam que não estão em risco ao HIV/aids e expostos às outras Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs).”
Justamente por não haver mais grupos de risco quando se fala em HIV e, sim, em comportamento de risco, a aids tem chegado com frequência aos lares dos idosos.
‘‘Para as mulheres, por exemplo, geralmente a maior preocupação é a gravidez, mas quando entram na menopausa, não se percebem mais em risco para engravidar e, por isso, acham que estão liberadas para fazer sexo sem preservativo’’, pontua.
A médica complementa trazendo um contraponto; segundo ela, a falta de propagandas que estimulam as pessoas a se testarem regularmente, o desconhecimento sobre as novas e complementares tecnologias de prevenção ao HIV/aids, como é o caso da PrEP (Profilaxia Pré-Exposição ao HIV) – disponível na rede pública –, bem como a publicização deste tipo de estratégia, não chega até a população idosa.
“O fato também de ter que tomar mais um medicamento torna-se um empecilho para muitos, principalmente porque a medicação que temos disponível no país atualmente pode comprometer a função renal, a saúde óssea… e muitas vezes essas pessoas por serem idosas, já são acometidas por outras doenças próprias do envelhecimento’’, destaca citando a Doença Renal Crônica e a Osteoporose, que dificultam ou contra-indicam o uso de PrEP.
‘‘Há muitos anos a gente não vê propaganda na televisão alertando não só os idosos, mas toda a população acerca do HIV. O HIV ainda existe, pessoas ainda morrem por aids, e é muito importante que se tenha conhecimento e se faça o tratamento correto. Tudo isso interfere!’’.
Outro motivo que tem vulnerabilizado a população 60+, segundo a doutora, está relacionado a popularização de remédios contra a disfunção erétil.
Graças a esses fármacos, os homens mais velhos — que costumam apresentar mais problemas para iniciar ou manter uma ereção — encontraram uma saída para prolongar a vida sexual.
Há ainda os aplicativos de relacionamento — alguns deles criados especificamente para quem tem mais de 60 anos, que facilitaram os contatos e as novas experiências.
‘‘O número de diagnósticos nessa população específica vem aumentando, e eu acredito que políticas públicas [de HIV/aids] deveriam ser pensadas para este público’’, opina.
O geriatra Caio Alvarenga, segue a mesma linha de raciocínio, e acrescenta: “Hoje, com os avanços da ciência, é possível uma pessoa HIV positivo viver bem e com qualidade de vida. Achar que o idoso não transa é um preconceito”, destaca.
O que dizem os números
Dados do Ministério da Saúde (MS) corroboram o que os especialistas dizem. O último Boletim Epidemiológico de HIV/Aids, divulgado em dezembro de 2022, reforça a tendência de subida nos casos de HIV entre idosos — apesar da queda geral nos diagnósticos em 2020 e 2021, por causa da pandemia de covid-19.
Para se ter ideia, 360 brasileiros com mais de 60 anos testaram positivo para o HIV em 2011. Essa taxa subiu ano após ano e chegou a 1.738 em 2019.
Mesmo com toda a crise pandêmica dos últimos anos, foram 1.517 diagnósticos de HIV entre os brasileiros mais velhos em 2021. Isso representa um salto de quatro vezes em uma década.
A participação relativa dos idosos na porcentagem total de novos casos também cresceu. Em 2011, 2,6% de todos os diagnósticos ocorreram no grupo com mais de 60 anos. Atualmente, eles representam 3,7% dos testes positivos para esse vírus.
É na faixa acima dos 60 anos que se concentra a maior proporção de diagnóstico fora do tempo oportuno.
Já existe uma recomendação do Conselho Federal de Medicina (CFM) para que essas sorologias sejam incluídas nos pedidos de sangue de praxe, a exemplo do que acontece nos Estados Unidos e Europa.
Envelhecimento

A aids tem efeitos mais complicados no organismo do idoso. Essa população, assim como os bebês, já é imunossuprimida por causa da idade. ‘‘O envelhecimento natural é um declínio das reservas do nosso sistema imune. Isso é fisiológico. Então, os idosos naturalmente têm uma propensão maior a quadros infecciosos, em especial a quadros gripais, quadros de pneumonia e infecção de urina. O HIV tem ainda uma particularidade maior, por ser uma doença que as reservas imunológicas decaem, em especial em um tratamento que não está sendo feito corretamente, esse processo de queda imunológica é acentuado e caracterizado pela redução de Linfócitos CD4, pela alta carga viral que o paciente possa vir a ter”, explica a dra. Gisele.
Ambos os especialistas compreendem que hoje, o principal desafio é administrar as comorbidades próprias do envelhecimento natural e as demandas de saúde mental.
‘‘Para os idosos em geral, assim como para os idosos vivendo com HIV/aids, o maior desafio é administrar as comorbidades próprias do envelhecer; então, é fundamental prevenir, diagnosticar e tratar adequadamente, por exemplo, hipertensão, diabetes… lembrar dos exames de rotina. Para as pessoas que têm relação sexual anal, lembrar da importância de fazer a citologia anal para descartar possíveis cânceres; e a questão da saúde mental, com certeza, é um desafio não só para os idosos, mas para todos. Uma coisa que nos preocupa bastante é o aumento de casos de neoplasias de câncer, isso tem chamado muito a atenção da comunidade científica, pois temos visto nos últimos anos um aumento exponencial de casos novos”, sinaliza Dr. Gisele Gosuen.
“Os desafios do HIV/aids na terceira idade envolvem ainda aspectos sociais. Já existe a questão do etarismo, da participação no mercado de trabalho, inserção social… Falando do idoso HIV+ então, há um desafio ainda maior [por conta da sorofobia]; e ainda hoje não há muitos grandes centros de assistência à saúde especializados na população idosa vivendo com HIV/aids”, afirma dr. Caio, destacando que “é muito importante frisar a importância do acompanhamento médico junto do suporte psicológico, porque [o diagnóstico de HIV] é uma mudança que vai acontecer na vida do idoso. No entanto, isto não é mais uma sentença de morte, pois com os medicamentos antirretrovirais é possível sim o idoso vivendo com HIV ter uma qualidade de vida, com inserção social normalmente.”
Os entrevistados encerram elencando algumas dicas de prevenção e cuidados que ajudam a aumentar a imunidade do paciente, autoestima e, consequentemente, na promoção de maior qualidade de vida. O geriatra Dr. Caio orienta:
- Procure um profissional médico que trabalhe em conjunto com o geriatra.
- Construa vínculos sociais, participando, por exemplo, de atividades de sua comunidade.
- Participe de rodas de conversa sobre sexo, que ainda é tabu nessa faixa-etária [60+].
Já a infectologista Dr. Gisele destaca:
- Use preservativo, camisinhas interna ou externa estão disponíveis gratuitamente nas unidades de saúde;
- Teste regularmente, principalmente se você tem múltiplas parcerias sexuais;
- Lembre-se das outras ISTs, porque temos a PrEP para o HIV, mas para as outras ISTs não temos prevenção, se não através do preservativo;
- Tome cuidado com o risco de quedas;
- Tenha uma alimentação saudável comendo de tudo um pouco: frutas, verduras, legumes, carne, peixe, frango, arroz, feijão, macarrão…
- Faça algum tipo de atividade física, pode ser uma caminhada de 30 minutos por dia, isso já é suficiente para manter o coração e a mente saudáveis.
Kéren Morais (keren@agenciaaids.com.br)
Dicas de entrevista
Dra. Gisele Gosuen
E-mail: gcgosuen@gmail.com
Dr. Caio Alvarenga
E-mail: drcaioalvarengageriatra@gmail.com



