Dia das mães: “Com respeito e amor se constrói tudo”. Conheça dona Maria Adalgiza, mãe de Carolina Iara, fundamental na autoafirmação e entrada da filha na política

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Maria Adalgiza Ramos de Oliveira, 56 anos, é enfermeira aposentada e trabalhou toda a vida no SUS. Mãe da co-deputada da Bancada feminista do Psol, Carolina Iara, conversou com a agência Aids sobre os desafios de maternar uma mulher intersexo, travesti, negra e vivendo com HIV/aids. Gisa, como é conhecida, conta que foi mãe solo da ativista até os 10 anos de idade, quando casou-se e teve mais dois filhos, Camila e Gabriel, que é autista.

Carolina Iara é uma importante voz no cenário político brasileiro, especialmente pelas mulheres, pessoas negras, trans, intersexo e vivendo com HIV/aids. Tornou-se a primeira mulher trans intersexo eleita na América Latina, sendo vereadora da cidade de São Paulo pelo partido PSOL nas eleições municipais de 2020 e posteriormente deputada estadual pelo mesmo partido. Sua atuação política é marcada pelo compromisso com a diversidade e minorias historicamente marginalizadas. Carolina é conhecida por seu trabalho contra a discriminação e em prol dos direitos humanos, engajando-se em temas como moradia, saúde, educação, cultura e renda, buscando dar voz às demandas da população mais vulnerável e fiscalizar as ações do poder público.

Mas para, lá atrás, se colocar no mundo com tanta força e hoje poder executar tantos papéis, o apoio de sua mãe foi indispensável. Dona Adalziga acredita que a filha se inspirou nela para seguir os passos na política, pois devido ao preconceito e discriminação que sofreu desde a infância, sempre teve que brigar na escola com professor, criança e mãe de aluno em defesa de Carol, como a chama.

Gisa conta sobre sua experiência como mãe de uma pessoa intersexo e travesti e dá conselhos a outras mães que tenham desafios semelhantes.

Confira a entrevista

Agência Aids: Quais foram os maiores desafios que vocês enfrentaram ao longo dos anos?

Maria Adalgiza Ramos de Oliveira: Sempre foram os preconceitos e o bullying. Sempre tive que, na escola, brigar com professor, criança e mãe de aluno em defesa da Carolina. No ensino médio teve uma professora que a perseguia, uma mulher evangélica cheia de preconceitos. Eu reclamei, fui até a secretaria de ensino. A Carol aprendeu a ser política comigo. Tem um pessoal que não aprende respeito nas suas casas quando é pequeno e acha que tem que sair propagando preconceito. Ela era uma professora, então ela não poderia fazer isso.

Como a senhora se sentiu quando a Carol revelou o diagnóstico de HIV?

Como eu sou da saúde, sou muito prática para a vida. E para tudo. Para você ter uma ideia, a Carol me falou pelo telefone, porque ela já estava muito doente e estava fazendo alguns exames. Acho que ela fez uns quatro exames de HIV até dar positivo, por causa da janela imunológica. Quando confirmou, ela me ligou chorando e eu disse “Calma. Vem para casa e amanhã vamos ao médico e vamos tratar”. Para mim, o mais difícil em todas as doenças é não ter diagnóstico. Independente do diagnóstico que seja, você tem que ter um diagnóstico. Para você ter um norte e começar a pensar como vai tratar e procurar um caminho.

E como a senhora lidou com os desafios da Carol na infância sendo uma pessoa intersexo?

A gente não tinha muita noção do que é ser intersexo. Eu sempre cuidei muito bem da Carol, porque ela já passou por muitas cirurgias, tinha uma ferida aberta e eu tinha que cuidar para que não infeccionasse. Eu fiz enfermagem para poder cuidar da Carol. Hoje em dia, você abre o Google e tem todas as informações. Na minha época, não. A gente tinha que acreditar nos médicos e eles falavam que é uma anomalia, uma deficiência congênita e que tem que arrumar porque senão vai ter problema no futuro. E até hoje falam isso.

Como foi o processo da Carol de se assumir como uma mulher travesti?

Foi eu que falei para ela fazer. Eu acompanhei minha filha a vida inteira, nunca fui boba. Ela era gay e eu sempre falei que ela precisava trabalhar e estudar, para ter dinheiro. Que ela podia ser o que quisesse, mas que fosse uma pessoa decente.
Mas para conseguir emprego, ela teve que voltar a se vestir de menino e começou a ficar muito depressiva. Um dia eu perguntei o que estava acontecendo com ela e ela me disse que queria ser menina. Ela ficou me olhando e eu disse, “você vai ser menina. Pronto, acabou. Eu prefiro que você seja menina do que morra de depressão e fique jogada nessa cama”. E fomos comprar roupas para que ela fosse uma mulher bonita e elegante.

A partir desse momento, ela ficou mais em paz?

Ela renovou. Ressurgiu da cinza. Fênix, como eu brinco com ela. Daí fomos arrumar as unhas, o cabelo. Porque não tem coisa pior no mundo do que você estar num papel que não é seu. E ela foi melhorando. Eu fui ajudando, ensinando alguns macetes de mulher que a gente tem que ter. Na minha relação com a Carol, a gente sempre foi muito mais amiga do que mãe e filha. É claro que nas horas H a gente sempre vira mais mãe que amiga, mas ela sempre teve meu apoio pra tudo que ela quisesse fazer.

Que conselho você daria pra outras mães que têm membros da família também, da comunidade LGBT, que enfrentam discriminação?

Que ame seus filhos, independente de qualquer situação, ame seus filhos. Porque quando você ama o que você deu a vida, já é meio caminho andado. E olha com amor, não importa o que as pessoas digam, o que as pessoas achem. Algumas mães ficam tão ligadas no que a sociedade e o mundo vão dizer, o que a vizinha do lado vai falar, que elas esquecem do principal, que é o amor ao seu filho. Dedique-se ao seu filho. Dedique-se ao amor. Dedique-se a entender. Vai estudar e procurar por que as coisas são assim, por que ele quer fazer isso? E converse! Não é fácil, mas também não é o fim do mundo, sabe? Olhe os seus filhos do jeito que são, afinal todos nós temos as nossas imperfeições. Com respeito e amor se constrói tudo.

Como recebeu a notícia do envolvimento da Carolina com a política?

Ela sempre foi envolvida, desde muito novinha, em movimentos sociais, ONGs, e o movimentos negro e LGBTQIAP+. Quando ela falou para mim que tinha a convidado para se candidatar, eu disse “vai, você já faz isso faz tanto tempo”. Ela já tinha 10 anos de movimento quando entrou na política.

E como você enxerga o papel dela na luta pelos direitos LGBTQIAP+, das pessoas negras e pelo acesso à saúde pública?

Eu me sinto muito orgulhosa. Fico muito, muito, muito feliz. Acho que ela pode ajudar muita gente, ela dá voz a muita gente. No nosso país, é muito difícil a gente ser unido e representado de maneira justa. Entendi.

Quais são as expectativas que a senhora tem para os próximos passos da carona política?

A Carol vai sair nas próximas eleições como vereadora, pois acha que pode ajudar muito mais as pessoas estando na prefeitura. Então, a gente está muito ansiosa para que tudo dê certo.

Marina Vergueiro (marina@agenciaaids.com.br)

 

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