Dia das Mães/ “Acolhimento é amor”: o elo inquebrantável entre Dona Vânia Martiniano e seu filho, o artista e ativista Flip Couto

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Neste Dia das Mães, a Agência de Notícias da Aids traz uma história que transcende laços de sangue e desafia os limites do afeto tradicional. É a história de Dona Vânia Martiniano e de seu filho, Flip Couto – artista interdisciplinar, ativista negro, LGBTQIAP+ e vivendo com HIV. Um relato potente de amor incondicional, que nos lembra do papel essencial da família como espaço de proteção, sobretudo quando se trata de filhos pretos e vulnerabilizados pelo preconceito estrutural.

Mulher preta, dona Vânia é mãe de três filhos e avó. Sua fala é mansa, mas cheia de firmeza. Quando conta sobre a infância de Flip – ou Filipe, como o chama nos momentos mais afetivos – seus olhos se iluminam. “Sempre fui muito próxima dos meus filhos, mas o Filipe era mais introspectivo. Desde pequeno, muito calado, tímido. Hoje entendo que havia ali um medo. Um medo de ser descoberto antes mesmo de entender quem ele era.”

Em 2002, Flip escolheu contar por e-mail que era gay. Ele estava no Brasil; Dona Vânia, na Bélgica. “Na hora, eu me perguntei: ‘Onde eu errei?’. Mas foi só um susto. Logo entendi que não havia erro. Começamos a trocar mensagens, conversar. Nunca deixei de amá-lo por isso, jamais.” O reencontro entre mãe e filho aconteceu em 2010, quando Flip foi morar na Alemanha.

A aceitação foi rápida, mas não sem reflexão. Dona Vânia lembra que, desde jovem, conviveu com pessoas LGBT e de diferentes origens sociais e raciais. “Sempre foi natural pra mim. Se essas pessoas existem, é porque fazem parte da criação divina ou do universo. Isso é normal.”

O momento mais difícil, conta ela, veio anos depois, em 2015, quando descobriu, também de forma indireta, que Flip vivia com HIV. Foi por meio da performance “Sangue” que ele trouxe à tona sua sorologia, no palco, com o corpo, com a arte. “Foi um choque. Eu esperava que ele viesse me contar, explicar… mas ele usou a arte para dizer. E eu respeitei. Fiquei preocupada, claro. Mas ele me explicou tudo, disse que fazia tratamento, que estava bem.”

A história de Vânia e Flip é atravessada pela coragem de se manter ao lado, mesmo diante de revelações difíceis. E é movida por um amor que não julga, não impõe condições. “O amor me empoderou”, ela diz. “E me entristece ver mães rejeitando seus filhos por serem quem são. A família devia ser o primeiro abrigo, não o primeiro lugar de expulsão.”

Flip construiu, com sua arte e ativismo, uma trajetória impressionante. Criador do Coletivo AMEM, fundador da Agência Voadoras e idealizador de balls como o Pajuball e o Vera Verão, ele tem levado pautas como HIV, racismo, sexualidade e identidade de gênero para os palcos e espaços públicos. “Eu fico muito orgulhosa. Ele é um guerreiro. Usa o corpo, a arte, a dança, a performance para transformar realidades e curar feridas. Sempre fazendo com beleza e coletividade.”

Dona Vânia fala com carinho também sobre o relacionamento do filho com Gil, seu companheiro. “Eles se encontraram num momento difícil, mas se fortaleceram juntos. Um completa o outro. É bonito de ver. Mudaram a vida um do outro – e a minha também.”

Ao falar sobre a maternidade de seus três filhos – Tiago, Flip e Daniel – ela reflete sobre o que significa amar com profundidade. “Não tivemos uma educação formal sobre sexualidade ou saúde, principalmente depois que me separei. Mas sempre tentei acolher. E acho que isso fez toda a diferença.”

Para outras mães, neste Dia das Mães, Dona Vânia deixa uma mensagem clara e urgente: “Escutem seus filhos. Não tenham medo de quem eles são. Amar um filho é amar inteiro, com tudo. O amor verdadeiro não exclui. Acolher é construir junto. Toda mãe deveria lutar para que seus filhos possam ser quem são com dignidade, saúde, liberdade e respeito.”

A história de Dona Vânia Martiniano é uma resposta afetuosa à crueldade do mundo. Em um país onde jovens negros e LGBTQIA+ ainda são expulsos de casa, silenciados ou marginalizados, seu gesto de amor e acolhimento é mais do que exemplo: é resistência. Que neste Dia das Mães, mais do que flores, celebremos as mães que acolhem, curam e libertam. Porque o amor, quando é verdadeiro, não pergunta – ele abraça.

Redação da Agência de Notícias da Aids

Dica de entrevista

Dona Vânia Martiniano

E-mail: vmartiniano@yahoo.com.br

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