Dia das Crianças: o HIV, a amamentação e o direito de escolher 

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Brasil mantém contraindicação ao aleitamento para mulheres vivendo com HIV, mas o avanço do tratamento com os  antirretrovirais,  as novas evidências e mudanças em protocolos internacionais colocam autonomia, segurança da criança e acolhimento materno no centro da discussão.

A amamentação  é apresentada, muitas vezes, como uma extensão natural da maternidade. Para mulheres vivendo com HIV, porém, esse gesto aparentemente simples carrega uma decisão  que envolve a ciência, o medo, o desejo, a culpa, o estigma e, sobretudo, a necessidade de proteger a criança. A discussão mobilizou ativistas e profissionais de saúde e  esteve presente durante  a International Aids Society ,26ª Conferência Internacional sobre a AIDS),  realizada no  Riocentro, Rio de Janeiro,  entre 26 e 31 de julho deste ano de  2026.  Para contribuir com o tema  e marcar a passagem do Dia das Crianças, ouvimos quem tem o que dizer e está no centro das discussões.

No Brasil, a orientação  indica que  pessoas vivendo com HIV não devem amamentar, devido ao risco de transmissão do vírus pelo leite materno. Para os bebês expostos, o Sistema Único de Saúde (SUS) garante fórmula láctea e acompanhamento específico.  A discussão  foi ampliada.

O tratamento antirretroviral transformou a história do HIV e de como lidar com os desafios que ele nos apresenta As pessoas em tratamento adequado podem alcançar e manter carga viral indetectável. Paralelamente, pesquisas passaram a medir com maior precisão o risco de transmissão durante a amamentação nessas circunstâncias. Alguns países, como a Argentina, modificaram seus protocolos e abriram espaço, em situações específicas, para uma decisão compartilhada entre a mulher e a equipe de saúde. O Brasil ainda não fez esse movimento.

A Agência Aids ouviu Ariana Wruck, ativista vivendo com HIV e agente de prevenção do Instituto Vida Nova; Renata Souza, assistente social, integrante do Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas (MNCP) e representante das mulheres vivendo com HIV e aids no Conselho Nacional de Saúde; Dra. Marinella Della Negra, infectologista e fundadora da Associação de Auxílio à Criança Portadora de HIV; e Dra. Daniela Vinhas Bertolini, pediatra e infecto-pediatra, coordenadora técnica da equipe de Pediatria do Centro de Referência e Treinamento em DST/Aids do Programa Estadual DST/Aids de São Paulo.

As quatro reconhecem os avanços da ciência e a complexidade da experiência das mulheres. As diferenças surgem justamente na pergunta que hoje mobiliza especialistas, ativistas e mulheres vivendo com HIV: diante de um risco drasticamente reduzido, mas que não chegou a zero, até onde deve ir a possibilidade de escolha?

No Brasil, a recomendação continua sendo não amamentar

Segundo Dra. Daniela, as condutas brasileiras para pessoas vivendo com HIV seguem o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) do Ministério da Saúde, que mantém a contraindicação ao aleitamento.

“A recomendação atual se mantém pela contraindicação total do aleitamento materno ou do aleitamento humano em pessoas que vivem com HIV, por conta do risco de transmissão vertical”, explica.

A médica chama atenção para uma distinção fundamental. A mensagem Indetectável=Intransmissível, o I=I, consolidada para a transmissão sexual do HIV quando a pessoa mantém carga viral indetectável, não pode ser automaticamente transferida para a amamentação.

“Nós sabemos, e isso já está estabelecido do ponto de vista científico, que o I igual a zero, ou seja, indetectável, igual a zero transmissão, não é válido para o aleitamento”, afirma.

Sem tratamento e com carga viral detectável, o risco de transmissão pelo leite materno pode chegar a 30% ou 40%. Com uso de antirretrovirais, carga viral indetectável sustentada e boa adesão, essa possibilidade cai para uma faixa estimada entre 0,3% e 0,9%. Dra. Daniela cita o estudo PROMISE, que acompanhou quase 3 mil pares de mães e bebês, entre as pesquisas utilizadas para estimar esse risco.

A redução é expressiva. Mas, segundo ela, não permite concluir que a transmissão seja impossível. “Quando a gente sai do ambiente de estudo e vai para a vida real, nem sempre o risco fica sendo só esse”, diz.

Em uma população numerosa, acrescenta, mesmo percentuais baixos podem significar crianças concretamente infectadas. E, no HIV pediátrico, as consequências exigem atenção: diagnóstico pode ocorrer mais tarde, existem dificuldades adicionais de adesão e a disponibilidade de medicamentos para crianças ainda é menor do que para adultos. É por isso que, para a infecto-pediatra, o debate não pode ser reduzido a uma porcentagem.

O mundo começou a rever suas recomendações

A contraindicação da amamentação para mulheres vivendo com HIV foi construída quando o cenário terapêutico era profundamente diferente. Com o desenvolvimento de medicamentos mais potentes e capazes de manter o vírus suprimido por longos períodos, a discussão internacional começou a mudar. O contexto social e econômico sempre teve peso nessa decisão.

Em alguns países africanos, por exemplo, a amamentação por mulheres vivendo com HIV foi mantida porque interrompê-la poderia expor bebês a outros perigos — como água contaminada, insegurança alimentar, desnutrição e até morte.

Em países onde existem alternativas alimentares seguras, o dilema passou a ser outro: como equilibrar os benefícios reconhecidos do aleitamento com um risco residual de transmissão do HIV?

Algumas nações passaram, então, a permitir que o tema seja discutido individualmente entre a mulher e os profissionais que a acompanham, sem transformar a amamentação em recomendação geral.

Dra. Daniela lembra também a mudança da Academia Americana de Pediatria, que desde 2023 admite uma abordagem mais aberta para determinadas situações. “Mas, continuo reafirmando aqui no Brasil, nenhuma mudança ainda aconteceu”, destaca.

Flexibilizar exige muito mais que uma carga viral indetectável

Nos locais onde a possibilidade de amamentar passou a ser discutida, não basta uma mulher dizer que deseja fazê-lo. Os protocolos costumam estabelecer condições rigorosas: carga viral indetectável sustentada, adesão consistente ao tratamento, exames frequentes, monitoramento materno e, em alguns casos, acompanhamento intensivo da criança.

Também podem ser necessários profissionais preparados para agir diante de situações que aumentam o risco de transmissão, como fissuras no mamilo e mastite, além de assistência multidisciplinar e apoio à saúde mental.

“É bem elaborado esse protocolo e tudo isso é colocado como condição para ser considerada antes de haver essa flexibilização da mulher poder amamentar”, explica Dra. Daniela.

O Brasil não dispõe hoje dessa estrutura organizada em um protocolo nacional porque a recomendação permanece sendo não amamentar.

Segundo a médica, tampouco existe um protocolo específico para acompanhar uma criança caso uma mulher vivendo com HIV decida amamentar: faltam definições nacionais sobre frequência de exames, monitoramento e medicamentos indicados para cada circunstância.

É um dos pontos que, em sua avaliação, tornam uma eventual flexibilização muito mais complexa do que uma decisão individual entre médica e paciente.

“Eu não arriscaria”

Para Ariana Wruck, que vive com HIV e atua há anos na prevenção, existe um elemento decisivo: no Brasil, há uma alternativa disponível pelo SUS.

“Um grande risco para o bebê, pois os estudos ainda são conturbados. Não arriscaria, daria o leite ofertado pelo SUS”, afirmou.

Mesmo diante dos avanços do tratamento, sua posição permanece cautelosa. “Risco de transmissão do vírus sabemos o quão ele é mutante e eu não arriscaria”, declarou.

Ariana diz que encontra percepção semelhante entre outras mulheres vivendo com HIV. Mas a decisão de não amamentar, ressalta, não encerra a questão.

Há uma experiência emocional que muitas vezes desaparece quando o assunto é tratado apenas do ponto de vista clínico.

Ela própria relata ter enfrentado um período difícil quando precisou usar medicamento para interromper a produção do leite. Para Ariana, mulheres nessa situação precisam ter acesso também a acompanhamento psicológico.

Porque impedir a transmissão é fundamental. Mas isso não elimina a experiência da mulher que acabou de se tornar mãe.

“Não é simplesmente uma questão de poder ou não amamentar”

Renata Souza conhece de perto esse outro lado da discussão. Assistente social, integrante do Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas e representante das mulheres vivendo com HIV e aids no Conselho Nacional de Saúde, ela afirma que maternidade e amamentação ainda carregam expectativas sociais profundas. “Não é simplesmente uma questão de poder ou não amamentar”, afirma.

Para muitas mulheres, receber a orientação para não amamentar significa confrontar não apenas uma recomendação médica, mas uma imagem de maternidade construída ao longo de toda a vida. Medo, insegurança, vergonha, dúvida e culpa podem surgir nesse processo.

E, com a disseminação do conceito de carga viral indetectável, apareceu também uma pergunta difícil de responder para muitas delas.

“Se a carga viral está indetectável, se ela está em tratamento. E muitas perguntam: se o meu tratamento funciona, por que eu não posso amamentar?”, relata.

Há ainda uma camada de sofrimento que ultrapassa a relação com o bebê: o estigma. Em ambientes familiares nos quais o diagnóstico não foi revelado, não amamentar pode despertar perguntas. Algumas mulheres passam, então, a inventar explicações para esconder que vivem com HIV.

Renata relata que, entre as mulheres acompanhadas pelo movimento, aparecem sentimentos de tristeza, frustração, culpa e perda. Algumas chegam a questionar a própria capacidade de exercer a maternidade.

“Dizer para ela que ela não pode amamentar não é o suficiente. Preciso cuidar da mulher que está por trás dessa orientação”, afirma.

O cuidado, para ela, também passa por desconstruir a ideia de que amamentar define uma boa mãe.

“A maternidade não resume somente a amamentação. O vínculo entre a mãe e o filho é construído cotidianamente pelo cuidado, pelo afeto, pelo amor, pela presença”, diz.

Renata defende ainda que as próprias mulheres vivendo com HIV participem da construção das políticas públicas que interferem diretamente sobre seus corpos e suas vidas. Para o MNCP, qualquer discussão precisa incorporar não somente evidências médicas, mas também a experiência das mulheres.

“O risco é muito pequeno, mas ele existe”

Dra. Marinella Della Negra acompanha crianças vivendo com HIV desde os primeiros anos da epidemia e testemunhou uma transformação radical no cenário da transmissão vertical.

Para ela, as novas terapias modificaram profundamente o tamanho do risco. “Hoje, felizmente, com as medicações potentes que fazem com que essa mãe não tenha uma carga viral detectável, a chance de passar para o seu filho é muito pequena”, afirma.

Pequena, contudo, não significa inexistente. “O que você não pode dizer é que não tem risco nenhum”, afirma.

Na avaliação da infectologista, uma mulher precisa conhecer claramente essa possibilidade antes de tomar qualquer decisão. E, caso a amamentação ocorra, seria indispensável um controle rigoroso da carga viral.

Interrupção do tratamento, elevação da carga viral, mastite ou lesões no mamilo são algumas das situações capazes de alterar o cenário.

Para Dra. Marinella, é nesse ponto que a atuação médica precisa estar centrada na informação. “Não compete ao médico recomendar amamentar ou não, compete ao médico explicar os riscos”, afirma.

Ela também ressalta uma realidade incontornável: a única forma de eliminar completamente o risco de transmissão do HIV pelo leite é não amamentar. Para mulheres que não se sentem seguras diante de uma possibilidade residual, a fórmula permanece como alternativa.

Segurança da criança, autonomia da mulher

É justamente nesse encontro entre dois direitos que está uma das discussões mais delicadas do debate contemporâneo: de um lado, a busca pela maior proteção possível da criança; de outro, a autonomia de uma mulher que conhece sua condição, faz tratamento e deseja participar das decisões sobre sua própria maternidade.

As entrevistadas partem de experiências diferentes e chegam a posições distintas.

Ariana escolhe a cautela: se existe fórmula disponível pelo SUS, não considera justificável assumir um risco evitável.

Dra. Marinella reconhece que esse risco se tornou muito pequeno com a carga viral indetectável, mas insiste que ele precisa ser explicado com clareza e nunca apresentado como zero.

Renata coloca no centro da discussão aquilo que números e protocolos não conseguem medir: culpa, perda, frustração, estigma e o medo de uma mulher ter seu diagnóstico revelado simplesmente porque não está amamentando.

Dra. Daniela reconhece essas dimensões, mas chama atenção para outro ponto: qualquer mudança de orientação precisa vir acompanhada de protocolo, estrutura, monitoramento e garantia de segurança para a criança.

O avanço científico, portanto, abriu uma porta para o debate. Ainda não produziu uma resposta única. Por enquanto, a recomendação oficial brasileira continua sendo que pessoas vivendo com HIV não amamentem. Bebês expostos devem receber fórmula láctea disponibilizada pelo SUS e seguir o acompanhamento previsto nos protocolos nacionais.

Mas as transformações na ciência fizeram emergir perguntas que dificilmente desaparecerão.

Até onde um risco muito pequeno pode ser considerado aceitável? Quem participa dessa decisão? Quais garantias precisam existir antes de qualquer mudança? Como proteger a criança sem apagar a autonomia da mulher? E como comunicar uma contraindicação sem transformar a experiência da maternidade em culpa?

Em um ponto, as quatro entrevistadas se encontram: nenhuma mulher deveria atravessar esse momento sem informação, cuidado e acolhimento.

Porque, para além da discussão sobre amamentar ou não, existe uma mulher vivendo com HIV diante de uma experiência profundamente humana: tornar-se mãe e querer fazer o melhor por seu filho.

Glaucia Magalhães (glaucia@agenciaaids.com.br)

Estagiária em Jornalismo na Agência Aids

Edição: Talita Martins

Dica de entrevista:

Ariana Wruck

Instagram: @arianawruck

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