Dia das Crianças: Após 34 anos, Projeto Criança Aids renasce como Criança Amar e inicia nova fase contra o estigma

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O Dia das Crianças vai marcar um novo começo para uma das instituições mais antigas e queridas do país no acolhimento de famílias que vivem e convivem com HIV. Fundado em 1991, o Projeto Criança Aids agora se chama Projeto Criança Amar (PCAmar), uma mudança que vai além do nome: traduz uma nova fase, um novo olhar e o mesmo compromisso com o amor, a dignidade e o direito à infância plena.

O projeto nasceu no auge da epidemia de HIV/Aids no Brasil, quando o medo e a desinformação tomavam conta do país e crianças órfãs ou em tratamento eram acolhidas por poucas instituições.

“A gente entende que HIV é uma coisa, e aids é outra. Nenhuma das nossas crianças tem aids. Todas são indetectáveis”, explica Adriana Galvão, presidente da instituição.

“Mas, mesmo com todo o avanço da ciência, o preconceito e o estigma continuam os mesmos. Então, decidimos criar uma nova identidade, para que o acolhimento seja ainda maior, inclusive das famílias que às vezes tinham medo de estar aqui por causa do nome”, reforça.

O novo logo, colorido e lúdico, será lançado oficialmente no dia 12 de outubro. A cor vermelha, símbolo do laço da solidariedade, foi incorporada em homenagem ao 1º de dezembro, Dia Mundial de Luta contra a Aids. Junto com a mudança, a ONG também amplia sua presença digital: agora, além do Instagram, blog e site, o projeto passa a ter canal no YouTube, LinkedIn e TikTok.

“O nome ‘Amar’ reflete o que sempre foi nossa essência: acolher com afeto e sem julgamentos”, resume Adriana.

Cuidar é mais do que tratar

O Projeto Criança Amar atende hoje 24 famílias e cerca de 60 crianças encaminhadas por unidades de saúde como a Santa Casa, o Instituto da Criança e o Centro de Referência e Treinamento em DST/Aids de São Paulo (CRT). A maioria delas vive em situação de vulnerabilidade social.

A equipe é interdisciplinar: conta com assistente social, psicólogos, psicopedagogas, farmacêutica e voluntários que acompanham cada família de perto. O trabalho vai desde a adesão ao tratamento até o acompanhamento escolar, psicológico e social.

“Tomar o remédio é essencial, mas não é tudo”, diz Adriana. “A criança precisa estar alimentada, vestida, amada. Precisa se sentir feliz, segura, pertencente.”

Todos os meses, a instituição entrega cestas completas, com alimentos, itens de higiene e limpeza. Além disso, cada criança recebe uma “sacolinha do amor”, com roupas, calçados e brinquedos — usados e novos em datas especiais como aniversário, Natal e Dia das Crianças.

Um brechó que sustenta o amor

A casa sobrevive exclusivamente de doações da sociedade civil. O Brechó PCA – Propósito de Consciência Ambiental é o coração financeiro do projeto e mantém até metade das despesas mensais.

“A gente vive 100% de doações. Não temos verba governamental. As roupas, calçados e utensílios que recebemos são doados pela comunidade, e o que não vai direto para as famílias, colocamos à venda no brechó.”

Mais que uma ONG, uma casa de acolhimento

O primeiro passo do trabalho é acolher sem julgar. O projeto se tornou um espaço de escuta e pertencimento para famílias inteiras que enfrentam o peso do estigma e da vulnerabilidade.

“As famílias que chegam aqui se sentem acolhidas, porque encontram seus pares. Elas percebem que não estão sozinhas”, conta Adriana.

“Muitas mães chegam com um sentimento de culpa enorme por terem transmitido o vírus aos filhos. Nosso papel é mostrar que elas também são vítimas, não culpadas.”

Para os casos em que a mãe já não está presente, o projeto apoia avós, pais solos ou cuidadores. O amor, diz Adriana, é o primeiro passo da cura emocional.

“O amor e o acolhimento são parte do tratamento. A adesão começa pelo afeto.”

Além do cuidado físico e social, a instituição dá especial atenção à saúde mental. Dados citados pela presidente apontam que 70% das pessoas que vivem com HIV têm risco aumentado de depressão e cerca de 30% já tiveram ideação suicida.

“O HIV é uma doença social. Enquanto a gente não curar o estigma e o preconceito, não vai haver cura completa.”, diz Adriana.

Prevenção e o desafio da transmissão vertical

Adriana defende a ampliação do acesso à PrEP (profilaxia pré-exposição) para gestantes e lactantes, um direito ainda pouco divulgado.

“A PrEP pode ser usada com segurança por mulheres grávidas ou amamentando. É uma forma de proteção, tanto para elas quanto para seus bebês. Precisamos falar disso. Prevenção é poder.”

A presidente também ressalta a necessidade de falar sobre HIV o ano todo, e não apenas no dezembro vermelho.

“A gente tem que falar no Dia das Crianças, pra proteger as crianças. No Dia da Mulher, pra proteger as mulheres, e por aí vai. Informação é o que salva.”

O preconceito ainda é o maior inimigo

Em meio a histórias de resistência e esperança, Adriana faz um desabafo: o estigma ainda é a maior barreira.

“O preconceito mata mais do que a doença. Tem gente que para de tomar o remédio por vergonha, por medo de ser vista com o comprimido. Tem pessoas que viajam quilômetros para buscar o medicamento em outra cidade, só pra ninguém descobrir.”

Ela propõe um novo objetivo: incluir uma meta de “eliminação do estigma”.

“A parte da ciência está sendo feita. E a nossa, como sociedade?”, indaga.

O sonho: empatia e respeito

Ao falar sobre o futuro, Adriana se emociona.

“Existe uma pesquisa que diz que, até os 60 anos, cada pessoa vai conhecer sete pessoas que vivem com HIV, mesmo sem saber. Elas podem ser nossos amigos, nossos vizinhos, nossos filhos.”

O recado dela é simples e potente:

“Não é pra ter dó, é pra ter empatia. Ninguém precisa gostar de ninguém, mas todo mundo precisa respeitar.”

Por fim, ela pede que as pessoas olhem para as crianças com mais humanidade e sem rótulos.

“As novas crianças existem, e seria tão bom que crescessem sem preconceito. Que as pessoas olhassem pra elas com carinho, sem estigma, sem julgamento. Que a gente se acolhesse mais, pra que o mundo ficasse mais leve.”

Vinícius Monteiro (vinicius@agenciaaids.com.br)

Estagiário em Jornalismo na Agência Aids

Edição: Talita Martins

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