Dia das Crianças: 1,3 milhão ainda vivem com HIV no mundo e mais de 570 mil estão sem tratamento

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Novas infecções por transmissão vertical caíram 69% desde 2010, mas crianças continuam desproporcionalmente afetadas pelas mortes relacionadas à aids; no Brasil, eliminação da transmissão vertical como problema de saúde pública é um marco, mas dados revelam que o cuidado ainda tem brechas

Há uma contradição difícil de ignorar quando se olha para a epidemia de HIV na infância. Nunca houve tantos recursos científicos para impedir que uma criança adquira o vírus durante a gestação, o parto ou a amamentação. O tratamento antirretroviral protege a saúde de quem vive com HIV e, quando garante supressão da carga viral, é uma das ferramentas centrais para prevenir a transmissão vertical. Ainda assim, milhares de crianças continuam adquirindo HIV todos os anos — e centenas de milhares permanecem fora do tratamento.

Às vésperas do Dia das Crianças, celebrado em 12 de outubro, os dados mais recentes do Unaids mostram a dimensão desse desafio. Em 2025, cerca de 1,3 milhão de crianças de zero a 14 anos viviam com HIV no mundo. Apenas 55% recebiam terapia antirretroviral, deixando mais de 570 mil sem tratamento.

A desigualdade fica ainda mais evidente quando as crianças são comparadas ao restante da população vivendo com HIV. Embora representassem apenas cerca de 3% de todas as pessoas vivendo com o vírus, responderam por aproximadamente 11% das mortes relacionadas à aids em 2025.

É um retrato que revela que o avanço da resposta global não ocorreu com a mesma velocidade para todas as idades. Enquanto a cobertura global de tratamento antirretroviral chegou a 78% em 2025, pouco mais da metade das crianças estava em terapia. O próprio Unaids reconhece que persistem lacunas importantes no diagnóstico, na vinculação ao cuidado e na continuidade do tratamento pediátrico.

93 mil novas infecções que poderiam ser evitadas

Os números também mostram que houve uma transformação profunda nas últimas décadas. Em 2010, cerca de 2,6 milhões de crianças viviam com HIV no mundo. Em 2025, esse número caiu para 1,3 milhão. No mesmo período, a cobertura de tratamento entre crianças passou de apenas 17% para 55%.

O avanço mais expressivo ocorreu na prevenção da transmissão vertical. Em 2025, aproximadamente 93 mil crianças adquiriram HIV por essa via, uma redução de 69% em relação a 2010. Entre 2000 e 2025, programas de prevenção evitaram quase 4,8 milhões de infecções pelo HIV em crianças.

Pela primeira vez em décadas, o número estimado de novas infecções pediátricas ficou abaixo da marca de 100 mil por ano.

Mas o dado que poderia ser apenas motivo de comemoração carrega também outra leitura: em um cenário no qual a transmissão vertical pode ser largamente evitada com diagnóstico, tratamento e acompanhamento adequados, 93 mil novas infecções continuam representando 93 mil falhas de acesso, cuidado ou continuidade da assistência.

O desafio começa antes da gravidez. O Unaids chama atenção para a importância de mulheres vivendo com HIV conhecerem seu diagnóstico e terem acesso ao tratamento antes mesmo da gestação. Quando a carga viral está suprimida e o acompanhamento é adequado, o risco de transmissão do HIV pode ser reduzido drasticamente.

O cuidado precisa continuar durante o pré-natal, parto, pós-parto e acompanhamento da criança. Quando uma dessas etapas falha, abre-se uma possibilidade para a transmissão.

A infância ficou para trás na expansão do tratamento

A maior desigualdade, no entanto, talvez apareça depois do diagnóstico. A expansão do tratamento antirretroviral mudou radicalmente a história natural da infecção pelo HIV. Pessoas diagnosticadas e tratadas adequadamente podem viver por décadas com boa qualidade de vida. Crianças que iniciam o tratamento precocemente também podem crescer, estudar, brincar, construir vínculos e chegar à vida adulta.

Mas esse direito ainda não é universal. Em 2025, mais de 570 mil crianças vivendo com HIV estavam sem tratamento antirretroviral. Isso ajuda a explicar por que a participação das crianças nas mortes relacionadas à aids é muito maior do que sua participação entre as pessoas que vivem com o vírus.

Segundo o Unaids, o problema não é a ausência de tecnologia médica. É a dificuldade de fazer essa tecnologia chegar a todas as crianças que precisam dela. Diagnóstico tardio, perda de acompanhamento, pobreza, conflitos, deslocamentos populacionais, sistemas de saúde frágeis e dificuldades no acesso a formulações pediátricas contribuem para manter essa distância.

Ao mesmo tempo, a resposta internacional ao HIV entrou em uma fase de maior instabilidade financeira. Em 2025, o financiamento externo destinado à resposta ao HIV em países de baixa e média renda caiu 18% em relação ao ano anterior, afetando programas de prevenção, testagem e serviços comunitários.

Para crianças e gestantes, qualquer interrupção pode ter consequências que atravessam gerações.

Crianças vivendo com HIV precisam ser vistas para além do diagnóstico

Os números também escondem uma dimensão que as estatísticas dificilmente alcançam. Crianças que vivem com HIV não são apenas indicadores epidemiológicos. Elas crescem, frequentam escolas, convivem com outras crianças, passam pela adolescência e precisam aprender, em algum momento, a compreender o próprio diagnóstico.

Além do acesso aos medicamentos, existe o desafio do sigilo, do estigma e da discriminação. O próprio Unaids ainda mede atitudes discriminatórias relacionadas à presença de crianças vivendo com HIV nas escolas, sinal de que preconceitos construídos nas primeiras décadas da epidemia não desapareceram completamente.

A resposta ao HIV na infância, portanto, não termina com a entrega de um frasco de antirretroviral. Envolve acompanhamento clínico, apoio às famílias, saúde mental, direito à educação, proteção contra discriminação e preparação para a transição do cuidado pediátrico para os serviços destinados a adolescentes e adultos. É também uma discussão sobre direitos.

Eliminação da transmissão vertical – Brasil certificado

No Brasil, o cenário é muito diferente daquele observado nas regiões mais afetadas pela epidemia. Em dezembro de 2025, o país recebeu da Organização Mundial da Saúde a certificação pela eliminação da transmissão vertical do HIV como problema de saúde pública, tornando-se referência internacional pelo alcance da resposta em um país de dimensão continental.

A conquista é resultado de décadas de construção do Sistema Único de Saúde, da testagem no pré-natal, da oferta gratuita de antirretrovirais, do acompanhamento das gestantes vivendo com HIV e da profilaxia e monitoramento dos bebês expostos.

Mas a palavra “eliminação” exige cuidado. Ela não significa que nenhuma criança adquira HIV no Brasil por transmissão vertical. Trata-se de uma certificação baseada na redução da transmissão a níveis definidos internacionalmente e na manutenção de altas coberturas de diagnóstico, tratamento e cuidado.

Os dados brasileiros ajudam a entender essa diferença. Em 2024, foram notificadas 6.819 crianças expostas ao HIV no país. A maior parte dos registros ocorreu no Sudeste, com 2.235 casos, seguido pelo Nordeste, com 1.702, Sul, com 1.475, Norte, com 888, e Centro-Oeste, com 514.

Ser uma criança exposta não significa viver com HIV. O termo identifica, principalmente, bebês nascidos de mulheres vivendo com o vírus e que precisam ser acompanhados até a definição diagnóstica. É justamente esse acompanhamento que permite identificar rapidamente uma eventual infecção ou confirmar que a transmissão não ocorreu.

Profilaxia exige atenção desde as primeiras horas de vida

O Boletim Epidemiológico HIV e Aids 2025 mostra que a maior parte dos recém-nascidos expostos ao HIV recebeu a profilaxia no período recomendado, embora ainda existam situações que demandam atenção.

A medida preventiva deve ser iniciada o mais precocemente possível, preferencialmente nas primeiras horas de vida. Em 2024, 64 recém-nascidos começaram a profilaxia depois das primeiras 24 horas e, em 172 notificações, ela não foi realizada. Em 35,8% dos registros, a informação sobre o momento de início da profilaxia estava ignorada ou não preenchida.

O cenário, no entanto, apresentou melhora. O número de registros de início tardio caiu 53,6% entre 2023 e 2024, passando de 138 para 64. Os dados reforçam a importância da continuidade do acompanhamento da linha de cuidado, desde o pré-natal até o seguimento da criança exposta.

Aids em crianças pequenas caiu 62% em uma década

Outro indicador evidencia o avanço brasileiro. Entre 2014 e 2024, o número de casos de aids entre crianças menores de 5 anos caiu 62,2%. A taxa de detecção também recuou 59,1%, passando de 2,2 para 0,9 caso por 100 mil crianças.

A ocorrência de aids nessa faixa etária é utilizada pelo Ministério da Saúde como um dos indicadores de acompanhamento da transmissão vertical e da assistência prestada às crianças vivendo com HIV.

Segundo o boletim, os casos podem estar relacionados a diferentes situações, como diagnóstico tardio, interrupção do acompanhamento clínico, ausência de tratamento ou dificuldades de adesão aos antirretrovirais. Por isso, o monitoramento desses episódios continua sendo importante mesmo em um cenário de forte redução da transmissão vertical.

Indicadores variam entre estados e capitais

Os dados nacionais também apresentam diferenças entre estados e municípios. Em 2024, as maiores taxas estaduais de detecção de aids entre crianças menores de 5 anos foram observadas em Roraima, com 2,8 casos por 100 mil crianças; Rio de Janeiro, com 2,6; e Amazonas, com 2,5.

Entre as capitais, Vitória apresentou taxa de 10,9 casos por 100 mil menores de 5 anos, seguida por Porto Alegre, com 6,1; Aracaju, com 5,8; Manaus, com 5,6; São Luís, com 4,9; Belém, com 4,3; e Salvador, com 4,1.

As diferenças reforçam a importância de acompanhar os indicadores localmente e de sustentar as estratégias que permitiram ao país alcançar a eliminação da transmissão vertical do HIV como problema de saúde pública.

Transmissão vertical permanece presente entre diagnósticos de aids na infância

Entre as crianças menores de 13 anos diagnosticadas com aids em 2024 e cuja categoria de exposição era conhecida, 134 casos, ou 68,7%, estavam relacionados à transmissão vertical. Outros 58 casos, correspondentes a 29,7%, apresentavam a categoria de exposição como ignorada.

Esse dado não significa que 134 crianças tenham adquirido HIV em 2024. Trata-se de diagnósticos de aids registrados naquele ano, e a transmissão do vírus pode ter ocorrido anteriormente.

O indicador mostra, porém, que a transmissão vertical ainda aparece na trajetória de parte das crianças diagnosticadas com aids no país. O Ministério da Saúde também destaca a importância de qualificar os registros em que a forma de exposição não foi informada, contribuindo para uma melhor compreensão do cenário epidemiológico e para o aprimoramento das estratégias de prevenção.

Notificação das crianças expostas também requer acompanhamento

O boletim chama atenção ainda para diferenças entre o número de gestantes, parturientes e puérperas vivendo com HIV notificadas e o de crianças expostas registradas nos sistemas de vigilância.

Em 2024, Roraima notificou 43 crianças expostas para 73 gestantes, parturientes ou puérperas vivendo com HIV. No Amazonas, foram 185 crianças para 293 mulheres; e, na Bahia, 340 crianças para 436 mulheres.

Segundo o Ministério da Saúde, essas diferenças podem estar relacionadas a fatores como subnotificação, atrasos no registro ou dificuldades na vinculação das informações da mãe e da criança.

A qualificação desses dados é importante porque o acompanhamento da criança exposta envolve uma sequência de cuidados — profilaxia, testagem e definição diagnóstica — que permite confirmar, ao final do seguimento, se houve ou não transmissão do HIV.

Nesse sentido, manter a qualidade da vigilância e do acompanhamento é parte essencial da própria sustentação da conquista brasileira: a eliminação da transmissão vertical como problema de saúde pública não encerra o trabalho, mas mostra o quanto uma rede contínua de prevenção, diagnóstico e cuidado pode transformar a epidemia.

Uma conquista que precisa ser defendida todos os dias

A história do HIV na infância mudou profundamente. Há quatro décadas, receber um diagnóstico de HIV ainda criança estava associado a incerteza, adoecimento precoce e enorme discriminação. Hoje, a ciência permite impedir a maioria das transmissões verticais e garantir tratamento eficaz para quem vive com o vírus.

O mundo conseguiu reduzir em 69% as novas infecções pediátricas desde 2010. O Brasil conseguiu chegar ao ponto de eliminar a transmissão vertical como problema de saúde pública. Mas nenhum desses resultados permite declarar a tarefa concluída.

Enquanto 93 mil crianças ainda adquirirem HIV em um único ano, enquanto mais de 570 mil crescerem sem acesso ao tratamento, enquanto crianças pequenas desenvolverem aids por diagnóstico tardio ou perda de seguimento, haverá uma distância entre aquilo que a ciência tornou possível e aquilo que os sistemas de saúde conseguem entregar.

No Brasil, sustentar a eliminação significa continuar testando gestantes, garantir tratamento, acompanhar cada criança exposta, investigar cada transmissão e não permitir que crianças já vivendo com HIV desapareçam entre os números.

No Dia das Crianças, falar de HIV é também falar do direito de crescer. Crescer com saúde, com tratamento quando necessário, protegido do preconceito e com a possibilidade de viver a infância como qualquer outra criança: brincar, estudar, construir afetos e imaginar o futuro.

Redação da Agência de Notícias da Aids

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