Dia da Visibilidade Trans: Contra exclusão no mercado de trabalho, transexual Daniela Andrade cria site com vagas específicas para esta população

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29/01/2014 – 10h30

Eventos por todo o país marcam nesta quarta-feira, 29 de janeiro, o Dia Nacional da Visibilidade Trans. Pode parecer apenas mais uma efeméride, mas tem grande significado. Faz dez anos que a data foi instituída. Nesse dia, em 2004, o Ministério da Saúde lançou, em Brasília, a campanha Travesti e Respeito. O objetivo era sensibilizar educadores e profissionais de saúde, além de motivar travestis e transexuais para o exercício da cidadania e da autoestima. A Agência de Notícias da Aids conversou com a transexual Daniela Andrade, que está lutando para fazer valer os objetivos dessa data.

Se na vida pessoal e social, travestis e transexuais sofrem preconceitos e discriminação, no mercado de trabalho essa questão fica ainda mais evidente. Que o diga a analista de sistemas Daniela Andrade, 30 anos, que nasceu homem, está desempregada há seis meses e tem dificuldades de se candidatar a vagas de emprego formal.

Daniela não é inexperiente. Ela já concluiu dois cursos superiores (análise de sistemas e letras) e uma pós-graduação. Antes de assumir sua identidade de gênero, ela trabalhava em bancos, usando seu nome masculino. “Não era difícil arrumar colocação.”

Daniela está certa de que, ao se assumir como mulher transexual, as portas foram se fechando para ela. "A qualificação não basta, a sociedade segue o senso comum e associa transexuais e travestis à criminalidade e à prostituição. E os profissionais que contratam são parte desta sociedade", diz.

Ela conta que a primeira barreira para conseguir o emprego formal é o registro civil. "Por exemplo, uma trans envia o currículo com o nome de Maria e é chamada para a entrevista. Quando chega na empresa, a primeira coisa que eles pedem é um documento original com foto e, neste documento, consta que seu nome é João. É um constrangimento enorme. Você precisa explicar que nasceu homem, mas você se identifica como mulher".

Daniela diz que as dificuldades a motivaram a lutar pelos direitos das trans de forma organizada. Ela faz parte de movimentos sociais e, pensando em colaborar para a colocação das trans e travestis no mercado de trabalho, criou, junto com o designer de produtos Paulo Bevilacqua e a advogada Márcia Rocha, o portal Transempregos, que divulga, desde novembro, oportunidades específicas para esse público.

O site publica vagas divididas entre emprego fixo, estágio e freelance em empresas comprometidas com a diversidade sexual. As ofertas variam entre as posições de auxiliar administrativo, recepcionista, acompanhante terapêutico, programador web, telemarketing e profissional de salão de beleza. Há vagas em diversas cidades do país.

Para concorrer às vagas, travestis e transexuais só precisam se cadastrar no portal Transempregos. Daniela explica que exige mais das empresas do que um emprego. “Não basta contratar. É preciso estimular o respeito à diversidade no ambiente profissional. A empresa precisa conscientizar a equipe de que aquele funcionário está ali porque é competente para aquela função e precisa ser respeitado do jeito que se identifica. Eu sou trans, me identifico como mulher, tenho de ser tratada como mulher, inclusive vou usar o banheiro feminino".

Eduardo Barbosa, ex-diretor adjunto do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde e hoje coordenador do Centro de Referência da Diversidade da cidade de São Paulo, elogia a iniciativa do Transempregos. "É um projeto louvável, pois focaliza tanto para as travestis e transexuais como para os que oferecem vagas", ressalta.

Ele também reforça a grande dificuldade da população trans em conseguir um emprego. "O preconceito ainda é enorme, porém, temos muitas travestis e transexuais formadas e capacitadas para atuação em áreas diversas. O importante agora e contar com a parceria de pessoas e empresas que possam manter o site abastecido com as oportunidades. Todos nos temos o dever de ampliar a divulgação e buscar parceiros", comentou.

O futuro

O Transempregos é um trabalho independente e o próximo passo, segundo Daniela, é buscar parcerias com grandes organizações, como o Instituto Ethos, a Federação do Comércio e outros, para que as empresas filiadas a estas instituições disponibilizem vagas no site também.

Projeto de lei

A analista de sistemas acredita que uma das maneiras de melhorar a situação no mercado de trabalho para trans e travestis é por meio da lei. “Nós lutamos pela aprovação da lei João W. Nery (5002/2013), apresentada em janeiro de 2013 pelo deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ) e Érika Kokay (PT-DF)."

O projeto de lei a que Daniela se refere garante a qualquer pessoa ser reconhecida e tratada pela sua identidade de gênero. Travestis, transexuais e transgêneros poderão, com a aprovação do projeto, solicitar a retificação dos seus dados em documentos. Poderão, por exemplo, pedir a emissão de uma nova carteira de identidade no cartório, sem maiores burocracias. "Se o nosso documento diz que somos mulher, nossos direitos serão reconhecidos como de mulheres. Significará, por exemplo, que as trans femininas, como eu, não poderão mais passar pela humilhação de serem expulsas de banheiros femininos".

Talita Martins

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