
Na última quarta-feira (4), o Sesc 14 Bis, em São Paulo, sediou o bate-papo “HIV 43 anos: temos conquistas, mas os desafios continuam presentes!”. O evento, que fez parte do Projeto Contato – em alusão ao Dezembro Vermelho, contou com a participação de nomes de peso, como a ativista e artista plástica Micaela Cyrino, o influenciador digital Lucas Raniel e Adriano Queiroz, gerente de prevenção da Coordenadoria de IST/Aids de São Paulo. A conversa foi mediada pela jornalista Roseli Tardelli, diretora da Agência de Notícias da Aids, e trouxe reflexões sobre os avanços e os entraves que ainda dificultam o enfrentamento ao HIV.
Roseli abriu o debate com um relato pessoal sobre como a epidemia de aids impactou sua vida. “Eu perdi um irmão para a aids e, desde então, dediquei 30 anos à luta contra o HIV. Naquela época, os convênios não atendiam, e minha família acabou protagonizando uma discussão pública nesse setor. Essa experiência me mostrou o poder da informação e da mobilização social”, relembrou.
A mídia, o HIV e a estigmatização
A jornalista também criticou a atuação histórica da mídia na epidemia. “No início, a cobertura jornalística contribuiu para estigmatizar e desumanizar as pessoas vivendo com HIV. Mesmo com avanços científicos, ainda há desafios para desconstruir essas narrativas”, apontou.
Micaela Cyrino reforçou a importância de responsabilizar a comunicação ao tratar temas sensíveis. “A mídia tanto criou o caos quanto tentou resolvê-lo. Precisamos dialogar sobre HIV o ano inteiro, não só em dezembro. A gente vive com HIV todos os dias, mas o tema ainda é tratado com pouca leveza. Apesar dos avanços científicos, estamos estagnados socialmente”, afirmou a ativista.
Ela também destacou o papel da juventude na transformação do cenário. “Precisamos criar espaços onde os jovens se sintam representados e conectados à causa. Os números de novos casos entre jovens ainda são alarmantes. Educação sexual deveria ser um tema permanente, desde a infância até a universidade”, pontuou.
Barreiras na comunicação e o papel da prevenção
Lucas Raniel criticou a falta de visibilidade para as inovações no tratamento e na prevenção. “Já temos medicamentos de longa duração, mas por que isso não é discutido em horário nobre? É essencial que a população conheça essas tecnologias para reivindicar direitos e ampliar o acesso”, afirmou.
Adriano Queiroz trouxe a perspectiva do setor público, destacando iniciativas para ampliar o alcance da prevenção combinada. “A prevenção combinada é sobre dar autonomia às pessoas, mas isso exige informação acessível. Aumentamos as ações de prevenção nas ruas de 400 para 1.200 em São Paulo, porque entendemos que muitos evitam os serviços de saúde formais por medo de julgamento”, explicou.
Populações vulneráveis e barreiras sociais

Os desafios enfrentados pelas populações vulnerabilizadas também foram abordados. Adriano destacou que, embora São Paulo seja líder na oferta de PrEP na América Latina, mulheres trans e travestis enfrentam barreiras que levam ao abandono do tratamento. “Não é porque elas não gostam da PrEP, mas porque existem barreiras estruturais e sociais. É por isso que precisamos de estratégias específicas para cada realidade”, afirmou.
Ele também ressaltou o impacto positivo de iniciativas como testagens em festas de rua e fluxos de funk, que criam ambientes mais acolhedores. “Mais de 40% das pessoas que usam PrEP em São Paulo são negras, mas a população negra ainda enfrenta barreiras sociais graves, como desigualdade de acesso à saúde e violência. Precisamos continuar diversificando os espaços de acesso.”
Para concluir, Adriano citou as iniciativas inovadoras implementadas na cidade, como a estação de prevenção no metrô República e as máquinas automáticas de distribuição de PrEP. “Nosso objetivo é garantir que as pessoas tenham acesso à prevenção e ao tratamento 24 horas por dia, todos os dias”, finalizou.
O debate no Sesc 14 Bis reforçou que, apesar dos avanços científicos, racismo, sorofobia e o silêncio em torno do HIV ainda dificultam o fim da epidemia de aids. Para os especialistas, a chave está em expandir o diálogo, ampliar o acesso às tecnologias de prevenção e construir narrativas que promovam a inclusão e a dignidade de todas as pessoas.
O teaser da websérie 20 Anos do Global Village co-produção SescTV e Agência Aids, foi exibido ao público.


Redação da Agência de Notícias da Aids


