Dezembro Vermelho: Arte e cinema são ferramentas essenciais para prevenir o HIV/aids e combater o estigma e a desinformação, defendem especialistas

Ouça esta postagemCarregando...
1.0x

Neste Dezembro Vermelho, mês dedicado à prevenção e à reflexão sobre o HIV/aids, o Cinesesc, em São Paulo, foi palco de um importante debate sobre a relação entre a arte, o cinema e a luta contra o estigma e a desinformação relacionados ao HIV. O evento reuniu especialistas, artistas e comunicadores para discutir os desafios da epidemia e as vivências das pessoas que vivem com o vírus.

O encontro, que fez parte do Projeto Contato, contou com a participação de Roseli Tardelli, jornalista e diretora da Agência de Notícias da Aids; Marina Vergueiro, jornalista, poeta e cineasta; e André Canto, diretor do documentário “Cartas Para Além dos Muros”. A mediação ficou por conta da jornalista Talita Martins.

A interseccionalidade e a narrativa através da arte

Marina Vergueiro destacou que, apesar dos avanços, o HIV/aids ainda carece de atenção social e deve ser analisado através de um olhar interseccional, que leve em consideração gênero, raça e classe. Marina, que vive com HIV, compartilhou sua experiência pessoal como artista e ressaltou a importância de criar narrativas de superação.

“Acredito que o cinema e a arte são ferramentas muito potentes para a gente criar novas narrativas de vida e superação”, afirmou Marina. Ela também apresentou seu livro “Exposta”, dedicado às mulheres e suas histórias com o HIV, destacando a urgência de visibilizar essas experiências por meio da literatura e da poesia.

Marina chamou atenção para o papel do Brasil como país pioneiro no combate à epidemia, mas reforçou que os desafios persistem, especialmente para mulheres e pessoas negras. Para ela, campanhas criativas e educativas são essenciais para combater estigmas e desinformação.

A comunicação como aliada na luta contra o estigma

Roseli Tardelli reforçou a necessidade de educação continuada e lamentou que as iniciativas de conscientização se concentrem apenas no Dezembro Vermelho.

“Falta informação e a gente pode fazer mais e melhor”, afirmou a jornalista. Ela relembrou a fundação da Agência Aids, uma iniciativa pessoal que surgiu após a perda de seu irmão há três décadas. Roseli destacou que o cinema e o audiovisual têm o poder de sensibilizar e educar a sociedade.

“Foi assim que encontrei no documentário a possibilidade de contar as histórias”, disse ela. Um exemplo disso é a websérie “HIV 40 anos: Aids e Suas Histórias”, produção dirigida por Roseli que aborda o impacto da epidemia e os avanços no tratamento e prevenção.

Roseli também enfatizou a importância da mandala de prevenção combinada como estratégia eficaz e ressaltou que o acolhimento e a educação são fundamentais para a luta contra o estigma.

Documentário e impacto social

Carta para Além dos Muros - Centro de Crítica Da Mídia

André Canto, diretor do documentário “Cartas Para Além dos Muros”, contou como a escolha pelo formato documental foi natural em sua trajetória profissional.

“O documentário tem um impacto profundo. Ele permite contar histórias reais com sensibilidade”, afirmou. André defendeu que o cinema brasileiro precisa acompanhar as demandas contemporâneas e produzir narrativas que educam, documentam perdas, mas também celebram a vida e a luta pela cura.

Linguagem acessível e educação contínua

Marina Vergueiro destacou a necessidade de simplificar a linguagem utilizada para falar sobre o HIV. Em seu trabalho mais recente, ela produziu um curta-metragem divulgado nas redes sociais, com o objetivo de desmistificar o conceito de indetectável e intransmissível. No vídeo, ela aparece com o corpo carimbado com palavras como “não pega”, “não passa” e “não transmite”.

“Ainda precisamos dizer que o HIV não é transmitido por beijo nem por contato físico. Que uma pessoa indetectável não transmite o vírus no sexo, mesmo sem proteção”, explicou Marina.

Desafios e perspectivas futuras

O debate encerrou com a mensagem de que a aids não é uma questão resolvida e exige ações criativas, educativas e contínuas. Roseli Tardelli alertou que o silêncio e a falta de informação ainda reforçam o estigma. “O desafio é muito grande. A aids não acabou, o HIV não acabou, e as pessoas vão continuar se infectando”, concluiu Roseli.

André Canto finalizou afirmando que o cinema deve combinar histórias da epidemia com esforços para educar e inspirar novas narrativas de superação e cura.

Kéren Morais (keren@agenciaaids.com.br)

Dica de entrevista

Cinesesc

Telefone: (11) 3087-0500

Instagram @cinesescsp

Apoios