
Vista geral da favela Morro Azul, na zona sul do Rio de Janeiro.
As desigualdades sociais estão reduzindo drasticamente a expectativa de vida ao redor do mundo — em alguns casos, em até três décadas. A conclusão é do novo Relatório Mundial sobre Determinantes Sociais da Equidade em Saúde, publicado nesta terça-feira (6) pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
De acordo com o estudo, fatores como acesso à moradia digna, educação de qualidade e oportunidades de emprego têm impacto direto sobre os resultados em saúde, muitas vezes mais determinante do que o acesso a serviços de saúde ou mesmo influências genéticas.
“Nosso mundo é desigual. O local onde nascemos, crescemos, vivemos, trabalhamos e envelhecemos influencia significativamente nossa saúde e bem-estar”, afirmou o diretor-geral da OMS, Dr. Tedros Adhanom Ghebreyesus. “Mas mudanças para melhor são possíveis. Este relatório mundial ilustra a importância de abordar os determinantes sociais interligados e fornece estratégias e recomendações de políticas baseadas em evidências para ajudar os países a melhorar os resultados de saúde para todos.”
O relatório aponta que a expectativa de vida saudável pode variar em até 33 anos entre países com os melhores e piores indicadores. Essa diferença também se reproduz dentro de um mesmo país, especialmente entre populações que enfrentam pobreza, discriminação ou marginalização. O gradiente social é claro: quanto mais baixa a renda e o nível educacional de uma população, pior é seu estado de saúde e menor o tempo de vida saudável.
Um exemplo citado é o das populações indígenas, que apresentam expectativa de vida inferior à das populações não indígenas, tanto em países ricos quanto em países em desenvolvimento.
Injustiça social e discriminação estrutural
Este é o primeiro relatório global da OMS sobre o tema desde 2008, quando a organização estabeleceu metas para reduzir as desigualdades em saúde até 2040. No entanto, o documento de 2025 indica que essas metas dificilmente serão atingidas.
Dados da OMS mostram que crianças nascidas em países pobres têm 13 vezes mais chances de morrer antes dos 5 anos de idade do que aquelas nascidas em países ricos. A modelagem realizada aponta que seria possível salvar 1,8 milhão de vidas infantis por ano com políticas que reduzam as desigualdades e aumentem a equidade em países de baixa e média renda.
Mesmo com a redução global de 40% na mortalidade materna entre 2000 e 2023, 94% dessas mortes ainda ocorrem em países de baixa e média renda. Mulheres de grupos marginalizados, inclusive em nações ricas, têm maior risco de morte durante a gravidez e o parto. Em algumas regiões, mulheres indígenas chegam a ter três vezes mais chance de morrer no parto do que outras mulheres. O relatório também associa desigualdade de gênero, incluindo práticas como o casamento infantil, a taxas elevadas de mortalidade materna.
Pobreza, crise climática e falta de proteção social
Outro dado alarmante é que cerca de 3,8 bilhões de pessoas no mundo não têm acesso à proteção social adequada, como licença médica remunerada ou auxílio-doença. Segundo a OMS, esse fator tem impacto direto e duradouro sobre os resultados de saúde. O alto nível de endividamento também afeta a capacidade dos governos de investir em políticas públicas: os 75 países mais pobres do mundo viram seus pagamentos de juros quadruplicarem na última década.
As mudanças climáticas também foram citadas como um fator agravante das desigualdades. A estimativa da OMS é que, nos próximos cinco anos, entre 68 e 135 milhões de pessoas serão empurradas para a pobreza extrema devido a eventos climáticos extremos.
Chamado à ação coletiva
Para enfrentar esse cenário, a OMS faz um apelo à ação conjunta de governos, academia, sociedade civil e setor privado. Entre as principais recomendações, estão:
* Investir em infraestrutura social e serviços públicos universais para combater a desigualdade econômica;
* Superar a discriminação estrutural e os impactos dos conflitos, emergências e deslocamentos forçados;
* Enfrentar os desafios e aproveitar as oportunidades da ação climática e da transformação digital para promover a equidade em saúde;
* Estabelecer mecanismos de governança que priorizem os determinantes sociais da saúde, garantindo recursos e poder de decisão às comunidades locais.
A OMS reforça que romper com o ciclo de desigualdades em saúde exige vontade política, alocação de recursos e engajamento comunitário. O relatório oferece, segundo a organização, uma base sólida de evidências para orientar políticas públicas mais justas e eficazes.
Redação da Agência de Notícias da Aids



