Deslocamento e HIV: mulheres enfrentam dupla vulnerabilidade na guerra na Ucrânia, informa Unaids

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Quando a guerra chegou à porta de casa, Kateryna estava grávida e cuidava de dois filhos pequenos. “Vivíamos sob bombardeios constantes em Pokrovsk. Pelo bem dos meus filhos, tive que fugir para dar à luz”, lembra. Natural da região de Donetsk — palco de intensos combates desde 2024 —, ela viu sua cidade natal ser reduzida a ruínas.

Agora, com três filhos e sem um lar para onde voltar, Kateryna tenta reconstruir a vida em Dnipro, onde encontrou abrigo em uma casa administrada pela ONG 100% Vida. O espaço, criado com apoio do Unaids e de doadores internacionais, oferece segurança e assistência a mulheres vivendo com HIV, incluindo aquelas com crianças. É um dos quatro abrigos da região de Dnipropetrovsk que fornecem acolhimento, ajuda humanitária e conexão com o tratamento do HIV para pessoas que perderam tudo.

Desde o início da invasão em grande escala, em 2022, a guerra já deslocou internamente quase 3,7 milhões de pessoas na Ucrânia. Muitas vivem em áreas sob ocupação ou em zonas de combate ativo, o que dificulta qualquer avaliação confiável sobre a taxa de HIV entre a população deslocada.

Ainda assim, o sistema de saúde ucraniano, apoiado por organizações humanitárias e doadores, tem atuado para manter o acesso ao tratamento. Logo nos primeiros dias da guerra, o Centro de Saúde Pública enviou medicamentos antirretrovirais para as regiões central e ocidental — destino da maioria dos deslocados internos. Estoques emergenciais foram reunidos em unidades de saúde estratégicas e, com apoio de ONGs, voluntários e parceiros, a cadeia de suprimentos foi restabelecida.

“Nos primeiros dias da guerra, os hospitais em Lviv estavam superlotados, mas não houve interrupções na terapia antirretroviral”, afirma Olenka Pavlyshyn, especialista em doenças infecciosas do Centro de Serviços Médicos e Sociais Integrados. Segundo ela, pacientes recebiam medicamentos para três ou seis meses, independentemente de documentos ou local de residência.

A rede de apoio também se estendeu para quem fugiu do país. Dos 6,4 milhões de ucranianos que buscaram refúgio no exterior, muitos enfrentam dificuldades para acessar cuidados médicos. “Em alguns países, nossos cidadãos ainda não conseguem obter seguro de saúde, então não têm acesso a tratamento”, explica Olenka. “Outros não querem revelar seu status para o HIV e voltam à Ucrânia a cada seis meses, onde fornecemos os medicamentos para continuidade do tratamento.”

A pressão sobre o sistema de saúde aumenta à medida que a população deslocada cresce. Antes da guerra, a Ucrânia era referência na transição do financiamento internacional para recursos nacionais no setor da saúde. Hoje, depende fortemente da ajuda externa para manter serviços essenciais, incluindo o tratamento do HIV. Apesar de a terapia antirretroviral estar garantida, cortes no financiamento dos Estados Unidos ameaçam a continuidade de outras áreas da resposta à epidemia.

Especialistas alertam: novas infecções por HIV e mortes relacionadas à aids podem aumentar globalmente se esses recursos não forem restabelecidos. “O apoio internacional contínuo é vital para garantir que pessoas presas em conflitos, como Kateryna, não sejam deixadas para trás”, reforça o Unaids.

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