Um relatório elaborado por economistas, especialistas em saúde pública e líderes políticos de renome mundial, divulgado nesta segunda-feira (3) antes das reuniões do G20, mostra que a desigualdade está tornando o mundo mais vulnerável a pandemias.
Intitulado “Quebrando o ciclo desigualdade-pandemia: construindo verdadeira segurança sanitária em uma era global”, o documento revela como altos níveis de desigualdade transformam surtos em pandemias, minam respostas nacionais e globais e tornam as crises mais prolongadas, mortais e dispendiosas. O relatório também mostra que as pandemias, por sua vez, ampliam as desigualdades — alimentando um ciclo que se repete em crises como a covid-19, a aids, o ebola, a gripe e a varíola.
Desigualdade como motor de pandemias
Com base em dois anos de pesquisa e consultas em diversos países, o relatório aponta que “as respostas a pandemias informadas sobre a desigualdade”, combinadas com ações de combate às desigualdades antes do surgimento das crises, podem proteger o mundo de futuras emergências sanitárias de forma mais eficaz do que os atuais esforços de preparação.
O documento descreve os determinantes sociais das pandemias, propõe ações concretas para enfrentá-los e traz recomendações para políticas econômicas globais e acesso a medicamentos. As medidas, segundo os autores, também poderiam ajudar a encerrar crises de saúde ainda em curso, como HIV, tuberculose e varíola.
Copresidido pelo laureado com o Prêmio Nobel Joseph E. Stiglitz, pela ex-primeira-dama da Namíbia Monica Geingos e pelo epidemiologista Sir Michael Marmot, o relatório foi convocado pelo Unaids e produzido pelo Conselho Global sobre Desigualdade, Aids e Pandemias.
As descobertas chegam em um momento de alerta: os ministros da Saúde do G20 se reúnem diante do aumento de surtos de gripe aviária e varíola aviária, enquanto novos medicamentos para prevenção do HIV são aprovados por agências regulatórias internacionais.
“A desigualdade não é inevitável. É uma escolha política”
Monica Geingos, Presidente Executiva da One Economy Foundation e ex-primeira-dama da Namíbia, afirmou: “A desigualdade não é inevitável. É uma escolha política, e uma escolha perigosa que ameaça a saúde de todos. Qualquer pessoa preocupada com pandemias e seus impactos deve se preocupar com a desigualdade. Os líderes podem quebrar o ciclo desigualdade-pandemia aplicando as soluções políticas comprovadas nas recomendações do Conselho.”
O professor Sir Michael Marmot, diretor do Instituto de Equidade em Saúde da UCL, reforçou: “As evidências são inequívocas. Se reduzirmos as desigualdades — inclusive por meio de moradia digna, trabalho justo, educação de qualidade e proteção social — reduziremos o risco de pandemias em sua origem. Ações para combater a desigualdade não são um ‘desejável’; são essenciais para o preparo e a resposta a pandemias.”
Já o economista Joseph E. Stiglitz destacou o impacto econômico das crises sanitárias: “Pandemias não são apenas crises de saúde; são crises econômicas que podem aprofundar a desigualdade se os líderes fizerem escolhas políticas equivocadas. Quando os esforços para estabilizar economias afetadas por pandemias são financiados por meio de juros altos sobre dívidas e medidas de austeridade, eles prejudicam os sistemas de saúde, educação e proteção social. As sociedades, então, tornam-se menos resilientes e mais vulneráveis a surtos de doenças. Quebrar esse ciclo exige que todos os países tenham espaço fiscal para investir em segurança sanitária.”
A diretora executiva do Unaids e subsecretária-geral das Nações Unidas, Winnie Byanyima, completou:
“Este relatório demonstra por que os líderes precisam urgentemente combater as desigualdades que impulsionam as pandemias e mostra como podem fazê-lo. Reduzir as desigualdades dentro e entre os países possibilitará uma vida melhor, mais justa e mais segura para todos.”
Ciclo de desigualdade e pandemia

O relatório surge no momento em que a presidência sul-africana do G20 chega ao seu clímax, centrando as discussões no tema “Solidariedade, Igualdade e Sustentabilidade”.
As pesquisas conduzidas pelo Conselho Global revelaram que a desigualdade alimenta as pandemias e que estas, por sua vez, aprofundam as desigualdades, tornando as crises futuras mais prováveis e mais letais.
Entre os principais achados, o relatório destaca que países com maiores desigualdades tiveram taxas significativamente mais altas de mortalidade por covid-19 e HIV. Populações vivendo em favelas apresentaram maior prevalência de infecções, refletindo desigualdades de moradia, emprego, renda e educação.
No Brasil, “pessoas sem educação básica tinham várias vezes mais probabilidade de morrer de covid-19 do que aquelas que concluíram o ensino fundamental”, enquanto na Inglaterra, “viver em moradias superlotadas foi associado a taxas de mortalidade mais elevadas”.
Além disso, o estudo aponta que países ricos conseguiram investir quatro vezes mais do que países de baixa renda na resposta à covid-19, ampliando o abismo global. O acesso desigual a vacinas e medicamentos permitiu infecções evitáveis e o surgimento de novas variantes.
A pesquisa também mostra que a pandemia da aids elevou a desigualdade de renda a níveis alarmantes, enquanto a covid-19 empurrou 165 milhões de pessoas para a pobreza e aumentou a riqueza dos mais ricos em mais de 25%.
Mulheres, trabalhadores informais e minorias étnicas foram os mais afetados. E, apesar dos avanços na resposta ao HIV — com infecções no menor nível desde 1980 — a rápida retirada de doadores em 2025 ameaça comprometer esses progressos.
As quatro recomendações do Conselho
Para romper o ciclo de desigualdade e pandemia, o relatório propõe quatro medidas principais:
1. Eliminar barreiras financeiras globais.
O Conselho propõe uma *moratória urgente no pagamento da dívida* dos países em dificuldades até 2030 e a criação de linhas de financiamento de contingência com emissão automática de Direitos Especiais de Saque (DES) do FMI.
2. Investir nos determinantes sociais da saúde.
É preciso reforçar a proteção social, moradia e nutrição durante crises sanitárias, com atenção especial aos grupos mais vulneráveis.
3. Garantir produção local e compartilhamento de tecnologias.
Os especialistas pedem *isenção imediata de direitos de propriedade intelectual* sobre produtos relacionados a pandemias e um novo modelo de pesquisa e desenvolvimento baseado em bens públicos globais.
4. Construir respostas multissetoriais e lideradas por comunidades.
Governos devem incluir organizações comunitárias e grupos de direitos humanos na preparação e resposta às pandemias, fortalecendo a confiança e a eficiência das ações.
“É hora de agir”
O Conselho Global sobre Desigualdade, Aids e Pandemias afirma que utilizará as conclusões do relatório para orientar o diálogo com o G20, instituições financeiras internacionais e líderes de saúde.
“O mundo precisa de uma abordagem de prevenção, preparação e resposta a pandemias capaz de interromper o ciclo de desigualdade e pandemia. Não fazer isso levaria a consequências devastadoras”, conclui o documento.
As ações concretas propostas, reforçam os autores, podem proteger o mundo da próxima crise global de saúde e ajudar a pôr fim, de forma decisiva, às pandemias atuais.
Redação da Agência de Notícias da Aids com informações



