Delegação brasileira emociona e inspira participantes com experiências de base, homenagens simbólicas e críticas potentes ao proibicionismo

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Com forte presença e protagonismo em diferentes espaços de fala, o Brasil marcou sua participação na 28ª Conferência Internacional de Redução de Danos (HR25), realizada em Bogotá, na Colômbia. Desde o final de semana anterior ao evento, representantes da sociedade civil brasileira vêm somando na construção de um diálogo internacional em torno de saúde pública, direitos humanos, justiça social e políticas de drogas com foco na redução de danos.

A cerimônia oficial de abertura ocorreu no dia 27 de abril e contou com falas de Lucy O’Hare e Maddie O’Hare, da Harm Reduction International (Reino Unido), além de autoridades do governo colombiano. Um momento especial foi a participação em vídeo de Volker Türk, Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos.

Em uma das falas mais emocionantes da noite, o médico brasileiro Dr. Fábio Mesquita — único brasileiro na mesa de abertura — relembrou o marco histórico da Conferência de São Paulo de 1998, destacando o papel pioneiro do Brasil na construção global das políticas de redução de danos. Fábio foi um dos primeiros defensores da política de distribuição de seringas para pessoas que usam drogas, tendo sido, inclusive, processado por tráfico por sua atuação humanitária na época. Sua intervenção reforçou o legado brasileiro ao colocar o cuidado e a dignidade humana no centro do debate sobre drogas.

“É profundamente emocionante estar na mesa de abertura da 28ª Conferência Internacional de Redução de Danos — a primeira realizada na América Latina desde aquela que organizamos no Brasil, em 1998. É também um reconhecimento do papel pioneiro que o Brasil desempenhou neste movimento na região. A conferência reafirma que a chamada guerra às drogas fracassou. O que precisamos é de uma política nova, centrada no cuidado, que reconheça a dignidade de todas as pessoas e coloque a vida humana no centro. Essa guerra se traduz em uma prática sistemática de extermínio de pessoas pobres, negras, indígenas, imigrantes e de todos os corpos dissidentes. Precisamos romper com essa lógica e construir coletivamente caminhos de justiça, saúde e liberdade”, disse o Dr. Fábio Mesquita.

O tributo ao epidemiologista norte-americano Ernest Drucker, conduzido por Pat O’Hare e Alex Wodak (Reino Unido e Austrália), também emocionou o público, reafirmando o valor histórico das vozes que abriram caminhos para práticas mais éticas e eficazes no campo da saúde pública.

Painel brasileiro destaca experiências de base e pesquisa

No dia 28, a delegação brasileira teve participação expressiva em diversas sessões, com destaque para o painel “Brazilian Perspectives on Drug Policy Reform and Harm Reduction”, organizado pela REDUC (Rede Brasileira de Redução de Danos e Direitos Humanos).

O painel reuniu Priscila Gadelha (Recife, Escola Livre de Redução de Danos), Vanda Canuto (Rio de Janeiro, Espaço Normal) e Ana Luiza (São Paulo, É de Lei), que apresentaram experiências territoriais frente ao proibicionismo. Julita Lemgruber (CESeC) trouxe dados sobre os impactos sociais e econômicos da proibição das drogas, enquanto Ana Paula Guljor (Fiocruz) e Thiago Calil (UNESP) abordaram políticas públicas e comparações entre as cenas de uso em São Paulo e Bogotá.

Em outro momento marcante, a mesa “Unpacking Power: Challenging Racism, Patriarchy, and Colonial Control” promoveu reflexões profundas sobre as interseções entre racismo, colonialismo e políticas de drogas. Silvie Ojeda, representante do projeto Metzineres (Brasil/Colômbia), protagonizou um dos momentos mais comoventes do dia ao subir ao palco com um boné do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), homenagear a memória de Marielle Franco e provocar aplausos de pé da plateia.

Espiritualidade, consentimento e financiamento em pauta

Outras sessões também chamaram atenção do público brasileiro, como “On Control, Consent and Community”, que explorou a relação entre uso de substâncias, sexualidade e consentimento, e “Securing the Future”, dedicada à construção de alternativas sustentáveis de financiamento para ações comunitárias de redução de danos.

A mesa “Ancestral Wisdom Meets Modern Care” promoveu um diálogo potente entre saberes indígenas e práticas contemporâneas de cuidado, reforçando a importância do reconhecimento de territórios, espiritualidade e autonomia no cuidado em saúde. A ponte entre medicinas sagradas e políticas públicas foi reforçada por participantes brasileiros, que denunciaram o uso distorcido dessas práticas e os riscos da apropriação cultural em contextos proibicionistas.

Encontro com povos originários emociona delegação

Ainda no dia 28, o “Lunch for Delegates and Indigenous Communities from Around the World” reuniu participantes e representantes indígenas para um momento de escuta, troca espiritual e reafirmação de saberes ancestrais. Durante a atividade, membros da delegação brasileira apresentaram as preocupações dos povos originários com a crescente ameaça do proibicionismo sobre culturas tradicionais.

Brasil segue como referência global

A participação brasileira na HR25 mostra, mais uma vez, a força e a legitimidade de suas práticas comunitárias, seu engajamento político e sua capacidade de inovar mesmo em contextos adversos. A conferência continua até o final da semana, e a delegação do Brasil segue presente, ativa e pronta para contribuir ainda mais com o fortalecimento da redução de danos no cenário internacional.

Fabi Mesquita Guarani, de Bogotá, especial para a Agência Aids

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