
As direções futuras para o tratamento do HIV na América Latina, o impacto do início da terapia antirretroviral precoce, manejo clínico e cuidados diferenciados para pessoas vivendo com HIV/aids foram debatidos nesta semana no simpósio “Integrando Ciência e Ação para Acelerar a resposta ao HIV na América Latina”.
A médica infectologista Brenda Crabtree, do México, falou sobre as atuais abordagens no enfrentamento do vírus nos países da América Latina, trazendo as atualizações científicas apresentadas durante a 12ª Conferência Internacional de Aids (AIDS 2023), da International AIDS Society (IAS), que aconteceu em Brisbane, especialmente as perspectivas conjuntas latino-americanas. 
Segundo a dra. Brenda, em 2015, a Organização Mundial da Saúde (OMS) atualizou seus guias e recomendou que a TARV (Terapia Antirretroviral) precoce fosse ofertada desde o primeiro dia de diagnóstico do paciente, independente do nível de CD4 do indivíduo, mas chamou atenção para, até então, não haver dados suficientes para tal recomendação.
Dois anos depois, em 2017, a OMS alterou novamente suas recomendações indicando início da terapia antirretroviral até os primeiros 7 dias de diagnóstico. Com o passar do tempo, a comunidade médica e científica começou a falar sobre início de tratamento no primeiro dia de diagnóstico, independentemente dos níveis de CD4.
A infectologista ainda mencionou que nos EUA, o início da TARV até então se dá nas primeiras duas semanas e com forte recomendação; o principal argumento dos estadunidenses seria que a estratégia possibilita o alcance rápido à níveis indetectáveis do vírus, tornando então o sujeito intransmissível. Já as contestações desta prerrogativa se baseiam no fato que o mais positivo seria começar o tratamento no mesmo dia da descoberta do diagnóstico, assim “o paciente se sente vinculado ao serviço de saúde, a pessoa entende a importância da sua infecção”. Além disso, segundo a médica, seria uma forma viável de evitar a evasão do serviço.
“Não há razões específicas claras para se atrasar esse tratamento, exceto em situações circunstâncias onde isto afeta o sistema nervoso central [do paciente de HIV]”, falou a palestrante.
“De modo mais recente, neste ano, foi publicado pelos haitianos um estudo que contou com mais de 600 voluntários, que mostra que há uma melhoria na retenção de pacientes sintomáticos de HIV com TB ao começarem rapidamente a terapia antirretroviral.
“Independente de onde estejamos e quando vamos começar a TARV, desafios sempre vão existir, inclusive na nossa região […] temos então que entender os desafios e adequar as diferentes recomendações para as necessidades específicas de cada indivíduo [e país]”, finalizou.
Diretrizes do Brasil
Complementando a primeira palestrante, o moderador brasileiro da mesa, Ronaldo Hallal, destacou que recentemente foi atualizado pelo Ministério da Saúde do Brasil o Protocolo Clínico de Diretrizes Terapêuticas de HIV/aids, o guia de tratamento e cuidados, recomendando o início da terapia antirretroviral em até 7 dias. “Mas como foi apresentado, ainda há a necessidade de se fazer ajustes importantes na rede de serviços, já que muitos serviços de saúde do Brasil agendam a primeira consulta depois da realização de exames de carga viral e de CD4, o que isso por si já impossibilita o início rápido da TARV”, falou.
Dando sequência às discussões, o mediador passou a palavra para Giovanni Ravasi, consultor brasileiro em HIV/aids, para falar sobre os cuidados diferenciados que devem ser ofertados para pessoas vivendo com HIV/aids.
Giovanni Ravasi enfatizou que a atenção diferenciada para pessoas vivendo com HIV precisa pensar serviços que sejam centrados na pessoa, “entendendo que não existe uma solução única para todos, mas que precisamos de serviços e ações que se adequem às necessidades, preferências e objetivos de saúde de cada um”.
“A OMS já recomenda desde 2016 o tema da atenção diferenciada”, destacou.
Ele falou sobre o tema com recorte especial de envelhecimento. Para as pessoas envelhecendo com HIV/aids, afirmou que a cascata de atenção e tratamento deve contemplá-las.
“Atualmente há lacunas nas diferentes etapas desta cascata”, afirmou considerando características, aspectos e marcadores de sexo, raça, faixa-etária, entre outros.
“Não precisamos apenas de esquemas terapêuticos eficazes e novas terapias, mas também de uma prestação de serviços centrada na pessoa, que garanta uma enorme oportunidade de melhoria da qualidade do serviços em termos de efetividade, aceitação, segurança, zero discriminação… consequentemente, isto irá levar a um melhor desempenho dos programas e um melhor resultado. No entanto, gostaria de apresentar também um outro modelo: uma cascata cíclica de cuidados linear, que ao passo que as diferentes etapas progridem, parte das pessoas se desvinculam, mas retornam em algum momento; e o serviço centrado na pessoa pode nos ajudar a entender quais são os fatores que acarretam esse desligamento do paciente”.
“Os serviços poderiam desenvolver então estratégias com a comunidade [do entorno] para interromper esse abandono e trazer as pessoas de volta ao tratamento”, sugeriu.
No entanto, o especialista reforçou determinados elementos que devem ser levados em consideração: as características clínicas e necessidades de atenção para a pessoa; contexto epidemiológico do sistema de saúde da comunidade ao redor; as necessidades, preferências e necessidades específicas de cada população em seus diferentes contextos de vulnerabilidade social, e inclusive a perspectiva intercultural quando estamos falando de povos tradicionais, respeitando os hábitos e ritos culturais e/ou religiosos.
“Temos que adaptar os modelos para os povos originários, por exemplo.”
“Precisamos fazer isso descentralizando os serviços, trazendo para o primeiro nível de atenção [ atenção primária].”
O palestrante não deixou de falar ainda sobre a importância do engajamento das parcerias de pessoas HIV+.
Cura da aids
A chilena Claudia Cortes, especialista em HIV, também participou do debate. Claudia abordou sobre o futuro da aids, destacando o futuro da pesquisa em saúde, perspectivas empolgantes e transformadoras para o tratamento e cura do HIV. 
Na ocasião, frisou que estamos testemunhando um cenário onde terapias inovadoras, impulsionadas por avanços na medicina de precisão, prometem não apenas suprimir o vírus, mas também moldar um caminho em direção a uma possível cura funcional. No entanto, destacou que o caminho para a descoberta de uma cura viável do HIV, apesar dos avanços significativos, ainda é difícil. Ensaios genéticos e imunológicos que têm o potencial de redefinir fundamentalmente a experiência dos indivíduos vivendo com o vírus com uma cura, segundo ela é de grande valia, mas o vírus da aids tem capacidade de adaptação, mutação e evasão dos mecanismos de defesa do corpo”,
“Esse vírus é muito inteligente […] sua mutação [molecular] é o principal obstáculo que os pesquisadores enfrentam”.
Entretanto, chamou atenção que a visão futura para o HIV/aids enfatiza uma abordagem mais abrangente que vai muito além da cura. De acordo com a mesma, estamos nos encaminhando para terapias mais personalizadas, adaptadas às necessidades individuais dos pacientes, com foco na minimização de efeitos colaterais e na promoção de uma saúde a longo prazo robusta; também temos avançado nas perspectivas de cura eficaz, mas trabalho em prevenção, tratamento e redução do estigma continuarão a ser indispensáveis.
De iniciativa do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz) em parceria com a International Aids Society (IAS), IAS Educational Fund, Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS), Grupo de Cooperação Técnica Horizontal sobre HIV e Aids (GCTH), Fundo Global de Combate à Aids, Tuberculose e Malária e o Unaids,
Kéren Morais (keren@agenciaaids.com.br)
Dica de entrevista
Fiocruz
Tel.: (21) 3885-1762


