Inovação sem sustentabilidade; eventual incorporação dessas terapias implicaria expansão massiva da demanda
Missão central do sistema é produzir o maior valor possível em saúde para o maior número possível de pessoas
A discussão sobre a incorporação de medicamentos do tipo agonistas do receptor de GLP-1, como a semaglutida e a liraglutida, ao SUS não pode ser conduzida sob a lógica do entusiasmo tecnológico isolado. Trata-se, essencialmente, de um problema de arquitetura do sistema: como alocar recursos escassos de forma a maximizar valor em saúde, ou seja, desfechos relevantes para a população ao menor custo possível, ao longo do ciclo de cuidado.
Os pareceres da Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde) são consistentes ao evidenciar que, embora os agonistas de GLP-1 (as “canetas emagrecedoras”) apresentem eficácia clínica, sobretudo na redução de peso e melhora de parâmetros metabólicos, o seu custo incremental por beneficiário permanece elevado quando comparado às alternativas disponíveis.
Em um sistema como o SUS, onde a restrição orçamentária é estrutural e não conjuntural, decisões dessa natureza não podem ser analisadas em termos absolutos, mas sim em termos de custo de oportunidade: cada incorporação desloca recursos de outras intervenções potencialmente mais custo-efetivas e com maior impacto populacional.
A obesidade é uma condição de altíssima prevalência. Isso altera completamente a equação econômica. Diferentemente de tecnologias voltadas a nichos clínicos restritos, a eventual incorporação dessas terapias implicaria uma expansão massiva da demanda. Mesmo sob critérios clínicos mais restritivos, o impacto orçamentário seria significativo e, possivelmente, incompatível com a sustentabilidade fiscal do sistema no médio prazo. Não se trata apenas de custo elevado por paciente, mas de custo elevado multiplicado por milhões de indivíduos.
Além disso, há um elemento frequentemente subestimado no debate público: a dinâmica de longo prazo desses tratamentos. A evidência disponível sugere que a interrupção do uso está associada à recuperação do peso, o que, na prática, transforma uma intervenção farmacológica em um compromisso crônico. Isso tensiona ainda mais a lógica de financiamento do SUS, pois implica custos recorrentes, dependência terapêutica prolongada e incertezas quanto à adesão e efetividade em condições reais.
Sob a ótica da equidade —princípio estruturante do SUS—, a questão torna-se ainda mais sensível. A priorização de tecnologias de alto custo para uma condição de grande prevalência pode gerar distorções distributivas relevantes. Em um sistema que ainda convive com déficits importantes em atenção primária, acesso a diagnósticos e tratamento de doenças de alta carga de morbimortalidade, a alocação de recursos precisa ser guiada por impacto coletivo e não apenas por eficácia individual.
Em última instância, a decisão da Conitec deve ser interpretada como uma escolha de racionalidade sistêmica. Não se trata de negar a inovação, mas de reconhecer que inovação, sem alinhamento com custo-efetividade e sustentabilidade, pode, paradoxalmente, reduzir o valor global do sistema.
Vale ainda lembrar que a incorporação de agonistas de GLP-1 tem sido limitada em sistemas públicos universais de países mais ricos que o Brasil. França não reembolsa, o NHS inglês restringe fortemente e o Canadá cobre poucos tratamentos para temas de obesidade. Predomina cautela fiscal e acesso seletivo.
O desafio, portanto, não é incorporar mais tecnologias, mas incorporar melhor —isto é, alinhar inovação a valor. A evidência disponível sugere que o SUS ainda não dispõe das condições econômicas e estruturais para sustentar a incorporação dos agonistas de GLP-1 sem comprometer sua missão central: produzir o maior valor possível em saúde para o maior número possível de pessoas.




