
Heitor Werneck é um nome incontornável quando se fala em arte, ativismo e inclusão no Brasil. Estilista e produtor cultural, ele construiu uma carreira marcada pela ousadia e pela celebração das diversidades, sendo uma figura essencial na Parada do Orgulho LGBTQIAP+ de São Paulo, onde há anos contribui para tornar o evento um espaço ainda mais vibrante e acessível. Além de sua atuação na militância, sua arte é um reflexo de sua forma singular de enxergar o mundo, transformando tecidos, cenários e performances em verdadeiras manifestações de identidade e resistência.
Mas há um aspecto de sua trajetória que só ganhou um novo significado há poucos anos: o autismo. O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma condição do neurodesenvolvimento que afeta a comunicação, a interação social e o processamento sensorial, manifestando-se de formas diversas em cada indivíduo. No Brasil, estima-se que cerca de dois milhões de pessoas tenham Transtorno do Espectro do Autismo (TEA). Isso corresponde a cerca de 1% da população.
Diagnosticado na vida adulta, Heitor passou por um intenso processo de ressignificação ao entender que características antes vistas como “estranhas” ou “excêntricas” faziam parte de sua estrutura neurológica. No mês da conscientização sobre o autismo, e no dia 2 de abril, quando se celebra a data mundial dedicada ao tema, ele compartilha sua vivência como pessoa autista LGBTQIAP+, refletindo sobre os desafios da inclusão, da saúde e da comunicação dentro e fora da comunidade. Confira:
Agência Aids: O diagnóstico de autismo chegou para você já na vida adulta. Como foi esse processo? O que mudou na sua percepção sobre si mesmo depois disso?
Heitor Werneck: O laudo de autismo me foi dado há 15 anos, mas eu nunca o levei a sério. Apenas há quatro anos compreendi a negação em que estava, devido ao preconceito sobre saúde mental incutido em mim. Desde que assumi o autismo, me ressignifiquei. Pela primeira vez, minha existência foi explicada, e deixei de ser “o birrento, o esquisito, o cheio de manias, a pessoa desagradável” para ser o Heitor autista, que não tem filtro social e pensa, sente, olha e escuta de uma forma diferente.
Agência Aids: Algumas características do autismo, como a sensibilidade ao som, impactam seu dia a dia. De que forma essas particularidades influenciam seu trabalho como estilista e produtor cultural?
Heitor Werneck: Entre muitas comorbidades que carrego por estar no espectro, tenho Transtorno de Percepção Sensorial (TPS). O som e a luz me deixam muito sensível, o que me obriga a usar abafadores: um intraósseo e outro atenuador de ruídos. O autismo veio acompanhado da síndrome de Savant, que me proporciona um QI alto direcionado à arte. Graças a isso, consigo visualizar cenários, shows, performances e roupas de uma forma considerada única, pois ocupo os espaços com um olhar diferenciado e uma técnica matemática. Como estilista, transformo roupas em arquitetura e texturas, e como produtor cultural, movimento artistas e público de maneira arquitetônica, me preocupando com detalhes como luz e figurino. O autismo me ensinou que, se posso escutar as correntes elétricas, posso transformar esse “ruído” em sinfonias e efeitos.

Agência Aids: Na sua visão, a sociedade realmente está preparada para acolher pessoas autistas? O que ainda precisa mudar para que essa inclusão seja mais efetiva?
Heitor Werneck: A sociedade é neurótica, histérica e psicótica. A estrutura autista assusta as pessoas. Somos uma mutação genética. Podemos ter altas habilidades ou sermos deficientes intelectuais, sermos não verbais ou altamente verbais. A sociedade nos discrimina e, ao mesmo tempo, nos romantiza, nos transformando em “anjos azuis” para suavizar nossa dor e existência. Tentam nos patologizar, mas o autismo é uma estrutura neurológica diferente que a sociedade está apenas começando a compreender. A inclusão está avançando, mas ainda está muito longe de ser uma realidade plena.
Agência Aids: Com uma trajetória marcante na militância LGBTQIAP+, de que maneira a vivência como pessoa autista se entrelaça com o ativismo e o trabalho desenvolvido?
Heitor Werneck: O autismo tem como símbolo o quebra-cabeça colorido porque o espectro é amplo e diverso, assim como a diversidade de orientação sexual e identidade de gênero. A quantidade de pessoas LGBTQIAP+ autistas é muito alta devido à sensoriedade e ao fato de que o cérebro autista não tem regiões sociais bem definidas. Isso nos torna mais livres sexualmente e menos propensos a compreender as normas sociais impostas.
Agência Aids: Muitas pessoas autistas enfrentam desafios na socialização e na comunicação. Como essas questões afetam a vivência LGBTQIAP+, especialmente em espaços de acolhimento e militância?
Heitor Werneck: Sempre fui discriminado, inclusive dentro da comunidade LGBTQIAP+. Sou disléxico, distraído e não percebo jogos sociais. Já fui muito enganado e roubado por “amigos” e colegas de trabalho. Muitas vezes, me acusavam de ser o estranho para justificar seus maus-caráteres. Meu primeiro amor foi uma relação abusiva e tóxica com um profissional LGBTQIAP+ que apenas queria se promover usando o meu autismo. Felizmente, hoje, dentro da Associação da Parada do Orgulho LGBTQIAP+, encontrei respeito e inclusão, com salas de baixa luminosidade e reuniões adaptadas às minhas necessidades.
Agência Aids: Compartilhar experiências tem sido uma forma de conscientizar o público sobre o autismo. Quais aspectos da vivência autista ainda são pouco compreendidos pela sociedade?
Heitor Werneck: A sociedade não entende que não captamos duplos sentidos e que relações laborais, amorosas e fraternais são desafiadoras para nós. As pessoas mentem, manipulam e jogam, e nós não entendemos essas artimanhas. Viver nessa hipocrisia é um grande desafio.
Agência Aids: A saúde sexual de pessoas autistas ainda é um tema pouco discutido. Há dificuldades no acesso a informações e serviços nessa área?
Heitor Werneck: Sim. Não se fala sobre sexo e deficiência, seja intelectual, locomotora ou visual. É como se pessoas com deficiência não sentissem desejo. Há muitos casos de abuso envolvendo mulheres e crianças autistas, o que gera ainda mais inadequação e sofrimento.
Agência Aids: No acesso ao tratamento do HIV, pessoas autistas enfrentam desafios específicos?
Heitor Werneck: Sim. Não há protocolos de tratamento para autistas vivendo com HIV, esquizofrenia ou câncer. Isso é algo que ainda precisa ser conquistado.
Agência Aids: As campanhas de prevenção ao HIV e ISTs conseguem alcançar a comunidade autista de maneira eficaz?
Heitor Werneck: As campanhas sobre ISTs e HIV não têm alcançado resultados significativos. Desde o governo Dilma, a bancada evangélica tem atrasado a disseminação de informações e a implementação de medidas de prevenção. Os órgãos responsáveis por ISTs e HIV estão cada vez mais enfraquecidos, e há pouquíssimas campanhas voltadas para o autismo e ISTs.
Nas escolas, não existem protocolos adequados para abordar a sexualidade. E quando se fala em autismo, então… Para muitos capacitistas, somos apenas “anjos azuis”, como se não fôssemos pessoas com desejos e sexualidade. Mas por que “anjo azul”? Porque o autismo era historicamente associado ao masculino, já que para cada cinco meninos autistas há, em média, uma menina autista. Felizmente, essa ideia tem caído por terra, mas ainda reflete um grande atraso de informação.
O azul foi escolhido porque associavam o autismo ao masculino… Olha que cafona! Eu sou masculino e amo o rosa. Estou longe de ser um anjo. Sempre fui bissexual desde criança e amo sexo.

Agência Aids: Para profissionais de saúde e ativistas que querem se comunicar melhor com a população autista sobre saúde sexual e prevenção ao HIV, que orientações seriam essenciais?
Heitor Werneck: Precisamos estar preparados para reconhecer e lidar com relações abusivas. É fundamental ter suporte, e nossa família e amigos devem estar cientes de que somos alvos frequentes de pessoas mal-intencionadas.
Os médicos precisam ter um olhar cuidadoso sobre nós, nos alertar sobre riscos e considerar que nosso cérebro responde de maneira diferente às medicações. Há psiquiatras que nos receitam remédios sem levar em conta que nossa estrutura é diferente: nossa resposta medicamentosa, nossa flora bacteriana, nossa pressão e o funcionamento do nosso cérebro exigem abordagens específicas.
Além disso, precisamos de monitoramento na alimentação, pois substâncias como caseína e glúten podem inflamar nosso cérebro, o que pode nos causar atrasos, crises e outros problemas corporais.
Agência Aids: A arte se tornou não apenas um meio de expressão, mas também uma ferramenta terapêutica. Como a criatividade ajudou você a superar desafios ligados ao autismo?
Heitor Werneck: A arte salva. A arte ensina. A arte educa. A arte inclui. E a arte é diversão. Do circo à pintura, a arte pode ser algo solitário e desafiador. E é exatamente isso que somos: estruturas que convivem diariamente com desafios. Poder transformar esses desafios em prazer gera um corpo cheio de serotonina e dopamina. A arte libera serotonina, e todo autista busca prazer dentro desse corpo extremamente sensível e neurologicamente acelerado.
Agência Aids: Que conselho daria a jovens autistas que sonham em seguir carreiras criativas ou no ativismo?
Heitor Werneck: Entendam que não são inadequados. A sociedade precisa ser mais empática, respeitosa e sincera, e nós podemos ensinar isso. Não somos o problema; o problema é a falta de inclusão e compreensão. Podemos transformar essa realidade.

Agência Aids: Por fim, que mensagem deixaria para pessoas autistas LGBTQIAP+ que estão em busca de autoconhecimento e pertencimento?
Heitor Werneck: Tenham orgulho de quem são. Não se culpem por serem sensíveis a sons, luzes e estímulos. Respeitem seus limites e não se machuquem. A sociedade já é brutal demais. Precisamos ser incluídos, respeitados e ter o direito de amar e ser amados. Ensinem as pessoas sobre suas diferenças. Talvez assim o respeito aconteça.
Talita Martins (talita@agenciaaids.com.br)
Dica de entrevista
Heitor Werneck
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