Das urnas à vida real: após reeleição de Lula, lideranças cobram avanços no SUS, na resposta ao HIV e na garantia de direitos

Ouça esta postagemCarregando...
1.0x

Entre a esperança e a cobrança por resultados, representantes da sociedade civil apontam prioridades para o quarto mandato presidencial, alertam para desigualdades no acesso à saúde e defendem que compromissos políticos se traduzam em mudanças concretas

A eleição decidiu quem estará à frente do Brasil pelos próximos quatro anos. Mas, para quem vive com HIV, enfrenta discriminação nos serviços de saúde ou depende diariamente do Sistema Único de Saúde (SUS), o resultado das urnas é apenas uma parte da história. O que acontecerá com o financiamento da saúde pública? Como ampliar o acesso à prevenção e garantir que todas as pessoas diagnosticadas com HIV iniciem e mantenham o tratamento? Quando as políticas voltadas à população trans serão efetivamente implementadas? Essas são algumas das questões que atravessam as expectativas de lideranças da sociedade civil para o novo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Reeleito no domingo (25), com 51,79% dos votos válidos, Lula chegará ao quarto mandato diante de uma agenda de reivindicações que reúne demandas antigas e novos desafios. Em entrevistas à Agência Aids, representantes de organizações sociais reconhecem avanços recentes, identificam lacunas na assistência e ressaltam a necessidade de financiamento, participação social e continuidade das políticas públicas. As avaliações também revelam preocupações com a composição do Congresso Nacional e com os obstáculos políticos para a implementação dessa agenda.

Em meio às diferentes perspectivas, uma declaração da ativista Cleonice de Araújo sintetiza a dimensão humana das reivindicações: “Por trás de cada política pública, existe uma vida, uma história, uma família e o sonho de viver com dignidade.”

O SUS no centro das prioridades: financiamento, prevenção e enfrentamento das desigualdades

Para Alessandra Nilo, jornalista e diretora de Relações Externas da Federação Internacional de Planejamento Familiar para a Região das Américas e Caribe, o debate sobre o futuro da saúde pública precisa começar pelas condições estruturais que garantem seu funcionamento. Sua preocupação ultrapassa as fronteiras brasileiras e alcança o enfraquecimento de organismos internacionais, a sustentabilidade da resposta ao HIV e a necessidade de ampliar investimentos em prevenção e educação em saúde.

“A minha principal expectativa para este quarto mandato é o fortalecimento estrutural e financeiro do Sistema Único de Saúde (SUS), revertendo o subfinanciamento que sofremos para assegurar a universalidade preconizada pela Constituição Federal e pelo ODS 3, com muito maior atenção ao recrudescimento da epidemia de HIV/aids entre as juventudes brasileiras. Esse cenário torna-se ainda mais crítico diante do progressivo desmantelamento do sistema multilateral — com o enfraquecimento e a desidratação institucional de organismos vitais como o UNAIDS —, o que exige do Brasil a manutenção do protagonismo global e da soberania sanitária na resposta à infecção. Além disso, considerando as recomendações do Relatório Luz da Sociedade Civil sobre a Agenda 2030, é indispensável, de fato, avançar para sairmos das respostas às doenças e aos problemas para processos que priorizem a prevenção e a educação em saúde. No geral, a ampliação das coberturas vacinais, a equidade no acesso a exames e terapias e o enfrentamento determinado das iniquidades que atingem de forma desproporcional as populações negra, indígena e periférica seguem sendo desafios para o governo federal.

A viabilização dessa agenda, contudo, demandará densidade política para navegar por um Congresso Nacional marcadamente conservador, refratário à pauta dos direitos humanos e atravessado por interesses privatistas que buscam desidratar o caráter público e universal do Estado. Então, por mais que tenhamos expectativas, é igualmente importante entender o tamanho do desafio à nossa frente. Para contrapor essa ofensiva e blindar as conquistas constitucionais, o Executivo federal não pode atuar de forma insulada; é urgente forjar uma articulação estratégica, orgânica e permanente com os movimentos sociais e os espaços de controle social. Apenas por meio dessa concertação entre poder público e sociedade civil organizada será possível sustentar a incidência legislativa necessária para barrar retrocessos, resguardar as garantias fundamentais e consolidar uma política de saúde que não deixe ninguém para trás.”

O desafio de transformar diagnóstico em tratamento

Na resposta ao HIV, os indicadores nacionais mostram avanços importantes, mas também revelam dificuldades para assegurar a continuidade do cuidado. Em dezembro de 2025, a Organização Mundial da Saúde (OMS) validou a eliminação da transmissão vertical do HIV no Brasil como problema de saúde pública, um reconhecimento internacional relacionado à ampliação do pré-natal, da testagem e do tratamento durante a gestação.

A conquista, entretanto, não encerra outros desafios da epidemia. Para Beto de Jesus, diretor da AHF Brasil, ampliar o acesso ao tratamento antirretroviral e enfrentar as barreiras que afastam pessoas diagnosticadas dos serviços de saúde são questões centrais para os próximos anos.

“A vitória de Lula para um quarto mandato na Presidência da República reacende a expectativa de manutenção de uma política contínua de fortalecimento do SUS.

O plano de governo fala em ampliar exames, consultas e cirurgias com especialistas, reforçar a assistência farmacêutica, aumentar o uso da telemedicina e valorizar os profissionais de saúde, entre outros aspectos igualmente importantes e urgentes.

Todas essas ações, que já vêm sendo executadas em diferentes escalas, têm as digitais de Alexandre Padilha, que deve ser mantido no Ministério da Saúde, conforme já sinalizou Lula.

A expectativa da AHF é que essas medidas abarquem também os enormes desafios que temos pela frente no enfrentamento do HIV/aids e de outras ISTs.

Nos últimos quatro anos, tivemos boas notícias, como a certificação da OMS reconhecendo o fim da transmissão do HIV de mãe para filho, a assinatura de acordo para produção de PrEP oral e a possível incorporação de medicamentos injetáveis de longa duração.

Por outro lado, mesmo com esses avanços, a sífilis segue em alta, assim como os entraves no enfrentamento das hepatites virais e da tuberculose.

Em relação às três metas de 95% estabelecidas pelo Unaids para 2030, 92% das pessoas com HIV no Brasil sabem que vivem com o vírus, e chegamos a 96% das pessoas em tratamento com carga viral indetectável.

Mas somente 82% de quem foi diagnosticado começou a tomar os antirretrovirais. Estamos falando de 200 mil a 260 mil pessoas que vivem com HIV, mas não estão em tratamento. Ou seja, estão em alto risco de debilitar a própria saúde e infectar outras pessoas.

Este é, sem dúvida, o maior desafio para que o Brasil consiga eliminar o HIV como problema de saúde pública nos próximos anos.

E é aqui que entra uma das missões da AHF no Brasil, em suas duas clínicas 100% gratuitas (São Paulo e Recife) e nas 32 unidades públicas de cinco estados e do DF onde atua em parceria com o SUS: ajudar a ampliar o acesso de pessoas diagnosticadas ao tratamento e derrubar as barreiras estruturais e individuais que fazem com que elas interrompam o tratamento.”

Saúde da população trans: entre políticas anunciadas e direitos ainda reivindicados

A distância entre a formulação de políticas públicas e sua implementação também aparece na avaliação de Cleonice de Araújo, ativista e representante da Rede Nacional de Mulheres Travestis e Transexuais e Homens Trans Vivendo e Convivendo com HIV/Aids (RNTTHP).

Embora o Brasil tenha uma Política Nacional de Saúde Integral LGBT instituída desde 2011 e tenha anunciado a ampliação da atenção especializada à população trans, barreiras de acesso e situações de discriminação continuam presentes nas reivindicações dos movimentos sociais. Cleonice destaca que o atendimento precisa contemplar não apenas procedimentos específicos, mas o conjunto das necessidades de saúde, com respeito à identidade de gênero e acolhimento em todos os níveis do SUS.

“Com a recondução do presidente Lula, precisamos reafirmar a importância do fortalecimento das políticas públicas de saúde integral para a população trans brasileira. A continuidade de um governo comprometido com a equidade deve representar a oportunidade de transformar reivindicações históricas em ações concretas, com financiamento, planejamento, implementação e monitoramento.

Entretanto, é fundamental lembrar que o POP Trans ainda não saiu do papel, e essa ausência tem implicações diretas na vida cotidiana de travestis, mulheres trans e homens trans, que continuam enfrentando barreiras institucionais, discriminação, desrespeito à identidade de gênero e dificuldades de acesso aos serviços de saúde.

Não podemos permitir que políticas públicas permaneçam apenas nos discursos e documentos oficiais. Precisamos de medidas efetivas que garantam acolhimento humanizado, acesso à hormonização, acompanhamento multiprofissional, respeito ao nome social, atendimento livre de transfobia e cuidado integral em todos os níveis do SUS.

Também é necessário manter uma vigilância social e política permanente para que outros programas e políticas governamentais sejam mais acessíveis, inclusivos e capazes de responder às necessidades reais da população trans, especialmente daquelas pessoas que vivem em situação de vulnerabilidade social e econômica.

Nossa luta não termina com a continuidade de um governo; ela se fortalece com a cobrança por resultados! Seguiremos acompanhando, dialogando, propondo e exigindo que os compromissos assumidos se convertam em direitos garantidos.

Porque, por trás de cada política pública, existe uma vida, uma história, uma família e o sonho de viver com dignidade. A população trans não pode continuar esperando pelo reconhecimento de direitos que já deveriam estar assegurados.

Saúde trans é cidadania, é equidade, é democracia e é compromisso com a vida!”

Entre a esperança nas urnas e a consciência dos desafios políticos

A repercussão da eleição também tem uma dimensão pessoal e coletiva para quem acompanha há décadas a construção das políticas de HIV/aids no país. Em Santa Catarina, Letícia de Assis, presidente do GAPA e representante estadual do Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas (MNCP), descreve os sentimentos que marcaram a mobilização eleitoral e a expectativa de continuidade da participação social.

Letícia representa o colegiado no GT Unaids, integra a articulação latino-americana de mulheres vivendo com HIV e possui experiência como conselheira de saúde e dos direitos da mulher nas esferas municipal, estadual e nacional.

Ao comentar o resultado, ela reúne esperança, preocupação com a composição do Legislativo e reconhecimento das dificuldades enfrentadas pelos movimentos sociais na defesa de suas reivindicações.

“Nós estávamos muito apreensivas, em todos os sentidos, com a possibilidade de essa eleição dar errado e Flávio Bolsonaro ganhar. Felizmente, vimos as pessoas se unirem de uma forma como há muito tempo não acontecia. Talvez essa mobilização tenha sido até inédita, tanto em números quanto no formato, porque não se limitou às manifestações de rua.

Dessa vez, tivemos a presença da internet, da inteligência artificial e de muitas ferramentas que não estavam disponíveis em outras eleições. Isso tem seu lado bom e seu lado ruim. Pelo lado positivo, as pessoas puderam aprender a utilizar novas ferramentas, se unir e encontrar outras formas de participação. E nós vimos a esperança no rosto das pessoas.

Essa esperança me alimentou muito, individualmente e também como militante, nas minhas representações. A gente tinha que se manter forte, porque havia pessoas se inspirando em nós, acompanhando o que estávamos produzindo e falando. Mas, todas as vezes em que eu, na minha casa, me sentia desesperançosa ou via meu marido e minha filha desesperançosos, tentava lembrar que estávamos vivendo um espírito de união inédito, muito singular.

E que deveríamos manter esse otimismo, porque o otimismo também é resistência. É uma forma de mostrarmos a nossa força. Nossa expectativa é muito boa, apesar de sermos realistas e sabermos que vamos enfrentar muitos problemas, principalmente por conta da composição da Câmara e do Senado.

Em Santa Catarina, particularmente, não conseguimos transformar de forma significativa a composição da Assembleia Legislativa em algo mais progressista. Companheiros que considerávamos praticamente eleitos tiveram votações muito expressivas, mas, por conta do sistema proporcional, acabaram ficando de fora, enquanto candidatos da direita conquistaram vagas com menos votos.

Tivemos o caso da Carla Ayres, candidata a deputada federal, que recebeu mais votos do que seis candidatos eleitos, mas não conseguiu uma vaga. Na disputa para deputado estadual, tivemos o caso do Camasão, que recebeu mais votos do que 16 parlamentares eleitos para a Assembleia Legislativa. Ele é um grande parceiro nosso, principalmente do GAPA de Santa Catarina.

Então, isso trouxe alguma frustração, sim, porque são companheiros que nos apoiam, nos escutam e nos recebem sempre. Mas, por outro lado, tivemos eleições de pessoas muito importantes, como Giovana Mondardo, de Criciúma, eleita deputada federal. Também tivemos a eleição de outras pessoas importantes pelo Brasil, inclusive pessoas trans, além de Renato Freitas, Jones Manoel e Ana Elisa. Sabemos que essas pessoas farão uma grande diferença e que agora temos a consciência de que fazemos parte desse exército de resistência, que não podemos deixar morrer.

Nossa expectativa é de muita luta, sim. Sabemos que não vamos poder fraquejar, mas, por outro lado, sempre soubemos que, no nosso país, os direitos nunca podem ser considerados conquistas definitivas. São espaços de disputa, que exigem que a gente reafirme constantemente a nossa luta.

Mas temos, sim, muita esperança de avançar no campo do HIV e da aids, no enfrentamento da tuberculose e na reorganização das políticas públicas. Até porque testemunhamos, principalmente em Florianópolis, pessoas da gestão pública lutando ao nosso lado para que as políticas do SUS continuem melhorando e se aprimorando.”

As quatro manifestações revelam diferentes dimensões das expectativas em torno do próximo governo. Alessandra concentra suas preocupações no financiamento e na sustentação das políticas públicas; Beto chama a atenção para o acesso e a continuidade do tratamento; Cleonice reivindica a implementação efetiva de direitos da população trans; e Letícia ressalta o papel da mobilização social diante dos desafios políticos.

O resultado das urnas está definido. Para essas lideranças, o próximo capítulo será acompanhado nas decisões orçamentárias, na organização dos serviços de saúde, na execução dos programas e na capacidade de resposta às necessidades da população. É nesse cotidiano, distante da apuração eleitoral, que os compromissos assumidos serão confrontados com seus resultados.

Redação da Agência de Notícias da Aids

Apoios