Para uma seleção, o momento é de reencontro. Para a outra, de descoberta. Quando Áustria e Jordânia entrarem em campo na madrugada desta quarta-feira (17), às 1h (horário de Brasília), no Levi’s Stadium, na Califórnia, não estará em jogo apenas a primeira partida do Grupo J da Copa do Mundo de 2026.
De um lado estará uma equipe que retorna ao maior palco do futebol após 28 anos de ausência. Do outro, uma seleção que disputa pela primeira vez uma Copa do Mundo e tenta transformar em realidade um sonho perseguido por gerações.
Mas, longe dos gramados, os dois países também revelam realidades muito diferentes em relação ao HIV.
Enquanto a Áustria consolidou uma das respostas mais eficazes da Europa Central, a Jordânia continua sendo alvo de críticas internacionais por políticas que incluem a deportação de estrangeiros diagnosticados com o vírus e restrições que, segundo organizações de direitos humanos, contribuem para o estigma e dificultam a prevenção.
Áustria controla a epidemia, mas ainda enfrenta desafios entre migrantes

A Áustria chega a 2026 com indicadores que colocam o país entre os mais bem-sucedidos da Europa no controle do HIV.
Segundo o Ministério da Saúde austríaco, 7.936 pessoas vivem atualmente com o vírus. Cerca de 94% conhecem seu diagnóstico e 98% estão em tratamento antirretroviral.
Em 2024, foram registrados apenas 114 novos diagnósticos em todo o país. O resultado é fruto de uma resposta construída ao longo de quatro décadas.
Quando a epidemia começou a avançar na Europa, a Áustria viu os casos saltarem de apenas seis registros em 1983 para 381 em 1985. O crescimento acelerado levou o país a organizar uma das primeiras respostas estruturadas da região.
Em 1987, incorporou o AZT, primeiro medicamento utilizado contra o HIV. Menos de dez anos depois, adotou a terapia antirretroviral combinada, acompanhando a revolução que transformaria a aids de uma sentença de morte em uma condição crônica tratável.
Desde então, o país registrou mais de 11 mil diagnósticos. Quase 3.500 pessoas desenvolveram aids e 2.859 morreram em decorrência da doença. Hoje, a realidade é outra.
Os avanços da medicina permitiram que pessoas vivendo com HIV tenham expectativa de vida semelhante à da população geral quando diagnosticadas precocemente e tratadas adequadamente.
O desafio invisível: diagnóstico tardio entre refugiados e imigrantes
Os principais desafios austríacos já não estão necessariamente ligados à disponibilidade de tratamento. As preocupações das autoridades concentram-se cada vez mais nos diagnósticos tardios, especialmente entre refugiados e imigrantes.
Cerca de 40% dos novos casos registrados envolvem pessoas nascidas fora da Áustria, principalmente oriundas da Europa Oriental, África Subsaariana e Oriente Médio.
Barreiras linguísticas, burocráticas e o medo da discriminação frequentemente atrasam a procura por testagem e atendimento.
Como consequência, aproximadamente um terço dos pacientes descobre a infecção quando ela já se encontra em estágio avançado.
PrEP existe, mas não é gratuita
Apesar dos bons indicadores, a prevenção ainda apresenta lacunas. A Áustria incorporou a PrEP em 2016 e ampliou significativamente o acesso após a chegada dos medicamentos genéricos.
No entanto, diferentemente de países como França, Brasil ou Reino Unido, a profilaxia não é oferecida gratuitamente em todo o território austríaco.
O reembolso depende do plano de saúde e da região onde o paciente vive, criando diferenças de acesso dentro do próprio país.
Na Jordânia, HIV permanece cercado por estigma e restrições

A Jordânia apresenta uma das menores prevalências de HIV do Oriente Médio.
Segundo o Unaids, aproximadamente 680 pessoas vivem com o vírus no país, com prevalência estimada de 0,1% entre adultos de 15 a 49 anos.
À primeira vista, os números sugerem uma epidemia controlada. Mas organizações internacionais afirmam que a realidade pode ser mais complexa.
O estigma social em torno do HIV e da sexualidade, aliado às políticas restritivas adotadas pelo governo, pode dificultar a identificação de novos casos e contribuir para subnotificações.
Homens representam a maior parte dos diagnósticos registrados, especialmente entre 20 e 39 anos. A maior prevalência conhecida está entre profissionais do sexo, com índice de 0,5%.
Entre homens que fazem sexo com homens, a prevalência oficialmente registrada é de 0,2%, embora especialistas alertem que o número pode não refletir a dimensão real da epidemia nesse grupo.
Estrangeiros com HIV são deportados
Nenhuma política jordaniana recebe tantas críticas quanto o tratamento dispensado aos estrangeiros diagnosticados com HIV.
O país monitora o estado sorológico de pessoas que utilizam determinados serviços públicos e exige exames em diferentes processos migratórios.
Estrangeiros que recebem diagnóstico positivo podem ser deportados e ficam impedidos de retornar ao país. As restrições também atingem trabalhadores e visitantes.
Pessoas que permanecem por mais de 30 dias na Jordânia são obrigadas a realizar testes para HIV. Caso o resultado seja positivo, podem ser expulsas do território nacional.
Organizações internacionais de direitos humanos argumentam que medidas desse tipo não reduzem transmissões e podem, ao contrário, reforçar o medo da testagem e aumentar o estigma associado ao vírus.
Tratamento gratuito, mas prevenção ainda limitada
A Jordânia criou seu Programa Nacional de Controle da Aids em 1986, ano em que registrou o primeiro caso de HIV.
Desde o início dos anos 2000, o tratamento antirretroviral é disponibilizado gratuitamente pelo sistema público de saúde. Mesmo assim, o estigma continua sendo um dos maiores obstáculos para a adesão ao acompanhamento médico.
A PrEP, considerada uma das ferramentas mais eficazes da prevenção moderna, ainda não foi incorporada ao sistema público jordaniano.
O acesso permanece limitado à rede privada e a poucos serviços especializados.
Muito além do futebol
Quando a bola rolar em Santa Clara, a Áustria carregará a expectativa de um retorno aguardado por quase três décadas. A Jordânia viverá um momento histórico, realizando sua estreia absoluta em Copas do Mundo.
Mas o encontro entre as duas seleções também evidencia outro contraste. De um lado, um país europeu que transformou o HIV em uma condição amplamente controlada graças ao acesso universal ao tratamento.
Do outro, uma nação que mantém uma das políticas mais rigorosas da região contra estrangeiros vivendo com HIV e que ainda enfrenta desafios importantes para reduzir o estigma.
São histórias diferentes. Dentro e fora dos gramados.
Redação da Agência de Notícias da Aids




