Da origem da pandemia ao exemplo europeu: o duelo entre Portugal e Congo vai além do futebol

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A contagem regressiva para o adeus já começou. Aos 40 anos, Cristiano Ronaldo entra em campo nesta quarta-feira (17) para disputar sua última Copa do Mundo. Em Houston, diante de milhares de torcedores vestidos de vermelho e verde, o maior jogador da história de Portugal inicia a derradeira caminhada em busca do único título que ainda falta em sua coleção.

Do outro lado estará uma seleção que carrega uma história completamente diferente. A República Democrática do Congo volta ao Mundial pela primeira vez desde 1974. Cinquenta e dois anos depois de sua única participação, a equipe retorna ao maior palco do futebol mundial representando um país que enfrenta conflitos armados, pobreza extrema e enormes desafios de saúde pública.

O duelo que abre o Grupo K da Copa do Mundo de 2026 reúne duas nações separadas por continentes, idiomas e realidades econômicas. Mas também coloca frente a frente dois capítulos importantes da história global do HIV.

Portugal é hoje um dos exemplos mais bem-sucedidos da Europa no controle da epidemia.

A República Democrática do Congo ocupa um lugar único e simbólico nessa trajetória: foi na região da bacia do Congo que cientistas identificaram as origens da pandemia que, décadas depois, mudaria a história da humanidade.

Portugal transformou uma tragédia em uma das respostas mais eficazes da Europa

Quando os primeiros casos de HIV surgiram em Portugal, nos anos 1980, o país viveu o mesmo medo que marcou o restante do mundo. Quatro décadas depois, a realidade é completamente diferente.

Portugal registrou menos de mil novos diagnósticos de HIV em 2024 pelo terceiro ano consecutivo. Foram 997 casos notificados, consolidando uma queda de 35% nas novas infecções ao longo da última década.

Hoje, cerca de 50 mil pessoas vivem com HIV no país. Noventa e quatro por cento conhecem seu diagnóstico.

O país distribui milhões de preservativos gratuitamente todos os anos, oferece acesso universal ao tratamento e mantém uma das políticas de redução de danos mais robustas da Europa.

Em 2024, mais de seis milhões de preservativos foram distribuídos pelo sistema público de saúde. No mesmo período, quase um milhão de seringas foram disponibilizadas por programas voltados a usuários de drogas injetáveis.

Os resultados aparecem nas estatísticas.

Enquanto os novos diagnósticos caíram 35% na última década, os casos de aids despencaram 43%. O que antes era uma emergência sanitária transformou-se em uma política pública reconhecida internacionalmente.

A batalha agora é outra

Mas Portugal ainda enfrenta desafios importantes. O HIV apresenta atualmente duas epidemias distintas dentro do mesmo país.

Uma delas envolve principalmente homens jovens que fazem sexo com homens, grupo que concentra quase 70% das novas infecções e possui prevalência de 5,9%.

A outra ocorre entre pessoas mais velhas, especialmente heterossexuais acima dos 50 anos, que frequentemente recebem diagnóstico tardio.

Esse segundo perfil preocupa autoridades de saúde porque aumenta o risco de complicações e dificulta a interrupção das cadeias de transmissão.

A experiência portuguesa mostra que o sucesso no combate ao HIV não elimina a necessidade de vigilância constante. Mesmo países considerados modelos continuam enfrentando desafios para alcançar as populações mais vulneráveis.

O país onde nasceu a pandemia

Se Portugal representa um exemplo de controle da epidemia, a República Democrática do Congo ocupa um lugar singular na história do HIV.

Estudos científicos apontam que a origem da pandemia moderna está associada à região da bacia do Congo, onde ocorreu a transmissão inicial do vírus de primatas para seres humanos nas primeiras décadas do século XX.

Décadas depois, o país continua convivendo com os impactos da doença. A República Democrática do Congo registra atualmente cerca de 610 mil pessoas vivendo com HIV. Em 2024, foram notificadas 26 mil novas infecções.

Embora o número represente uma redução em relação aos anos anteriores, a epidemia continua sendo uma das mais relevantes da África Central. Em algumas regiões mineradoras do leste do país, a situação é ainda mais preocupante.

Na zona de saúde de Kombi-Lunge, localizada em uma área de intensa atividade de mineração de ouro, estudos apontaram prevalência entre 6% e 8% da população — índices dezenas de vezes superiores à média nacional.

A mobilidade constante de trabalhadores, a precariedade dos serviços públicos e os conflitos armados ajudam a explicar a concentração de casos.

O fantasma dos cortes internacionais

Mas talvez a maior ameaça ao enfrentamento do HIV na República Democrática do Congo não esteja relacionada ao vírus em si. Ela vem da política internacional.

Nos últimos anos, grande parte da resposta congolesa ao HIV foi financiada por programas internacionais, especialmente por iniciativas apoiadas pelos Estados Unidos.

Tratamentos, campanhas de prevenção, testes diagnósticos e serviços comunitários passaram a depender fortemente desses recursos.

Desde 2025, porém, organizações de saúde têm alertado para os efeitos dos cortes promovidos pelo governo norte-americano em programas internacionais de cooperação.

A República Democrática do Congo está entre os países mais dependentes desse financiamento.

Especialistas temem que interrupções nos repasses possam comprometer a compra de medicamentos, reduzir campanhas preventivas e enfraquecer estruturas que sustentam milhares de pacientes.

Para um país onde 77% das pessoas vivendo com HIV conhecem seu diagnóstico e 93% dos diagnosticados estão em tratamento, qualquer retrocesso pode ter consequências significativas.

Uma ausência que simboliza desigualdades

Outro desafio importante envolve a prevenção.

Enquanto Portugal oferece PrEP pelo sistema público e realiza dezenas de milhares de testes rápidos todos os anos, a República Democrática do Congo ainda não incorporou plenamente a profilaxia pré-exposição em sua estratégia nacional.

A PrEP permanece limitada a projetos-piloto em grandes centros urbanos. Para milhões de congoleses, a principal forma de prevenção continua sendo o preservativo.

A diferença ajuda a ilustrar uma das maiores desigualdades globais da resposta ao HIV: o acesso às ferramentas mais modernas continua concentrado em países de maior renda.

Muito além dos 90 minutos

Quando Cristiano Ronaldo entrar em campo para sua despedida dos Mundiais, carregará consigo a história de um país que conseguiu reduzir infecções, ampliar diagnósticos e transformar o HIV em uma condição amplamente controlável.

Quando os jogadores congoleses cruzarem a linha lateral, representarão uma nação que luta para manter viva sua resposta à epidemia em meio a conflitos, desigualdades e incertezas sobre o futuro do financiamento internacional.

O futebol raramente explica um país. Mas às vezes consegue revelar suas contradições.

Redação da Agência de Notícias da Aids

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