Da evidência ao acesso: estudos buscam preparar chegada do lenacapavir aos sistemas de saúde

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O lenacapavir já provou que funciona. Depois de apresentar eficácia próxima de 100% na prevenção do HIV em estudos clínicos, o desafio agora deixou de ser científico e passou a ser operacional: como fazer com que essa nova tecnologia chegue, de forma rápida e equitativa, às pessoas que mais precisam dela?

Foi justamente essa discussão que reuniu especialistas durante a sessão **Da evidência ao acesso: a ciência da implementação para orientar a distribuição do lenacapavir**, realizada na 26ª Conferência Internacional de Aids (AIDS 2026). Pesquisadores de diferentes países apresentaram experiências que buscam responder a uma pergunta decisiva para o futuro da prevenção: qual é a melhor maneira de incorporar a PrEP semestral aos sistemas públicos de saúde?

Mais do que confirmar a eficácia do medicamento, os estudos procuram entender quais modelos de atendimento funcionam melhor, quais barreiras dificultam o acesso e quais estratégias podem acelerar a adoção do lenacapavir pelos programas nacionais de prevenção.

Ao abrir a sessão, Rose Wilcher, da Root to Rise, explicou que as pesquisas em andamento analisam diferentes realidades e modelos de oferta do medicamento.

“Os estudos sobre a PrEP no Brasil e sua incorporação pelo Ministério da Saúde, a implementação na Zâmbia, os quatro estudos da África do Sul e o projeto Len for PrEP fazem parte de um conjunto de pesquisas que avaliam a implementação do lenacapavir como PrEP de longa duração em contextos reais. Embora ainda estejam em andamento, esses estudos exploram diferentes estratégias para incorporar o LEN à prevenção do HIV, considerando uma ampla diversidade de populações, regiões geográficas e modelos de prestação de serviços.”

Segundo Wilcher, a análise conjunta dessas iniciativas permitirá identificar quais estratégias podem acelerar a chegada do medicamento aos serviços de saúde e subsidiar futuras políticas públicas.

Mais opções de prevenção, não substituição

Um dos consensos da sessão foi que o lenacapavir não deve substituir as formas atuais de PrEP, mas ampliar o leque de escolhas disponíveis para que cada pessoa possa optar pela estratégia mais compatível com sua realidade.

Para que isso aconteça, porém, não basta disponibilizar o medicamento. Será necessário reorganizar os serviços de saúde, reduzir barreiras de acesso e construir modelos de cuidado capazes de atender diferentes perfis de usuários.

Representando o Brasil, Valdiléa Veloso, do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz), apresentou a experiência brasileira desenvolvida em parceria com o Ministério da Saúde para avaliar como o lenacapavir poderá ser incorporado ao Sistema Único de Saúde (SUS). O estudo envolve homens gays e bissexuais, outros homens que fazem sexo com homens (HSH), pessoas trans e pessoas não binárias.

Segundo a pesquisadora, um dos diferenciais da iniciativa é substituir o recrutamento tradicional por uma estratégia baseada no fortalecimento das comunidades.

“Estamos desenvolvendo um projeto nos serviços de saúde. Não estamos recrutando; estamos contando com o aumento da conscientização da comunidade e aguardando que as pessoas venham utilizar os serviços.”

A estratégia combina campanhas digitais e impressas com o trabalho de pessoas reconhecidas dentro das próprias redes comunitárias, fortalecendo a confiança nos serviços de prevenção.

Os resultados preliminares, segundo Valdiléa, mostram que essa abordagem tem favorecido o acesso e a permanência dos participantes, especialmente entre mulheres trans.

“Eles estão tendo uma boa experiência com nosso serviço de saúde, estão recomendando, contando para seus colegas e convidando-os a usar o serviço.”

Além do lenacapavir, os participantes têm acesso à PrEP oral, preservativos, testagem e tratamento de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), além de acompanhamento em saúde sexual.

Diferentes populações exigem diferentes modelos

Outro ponto destacado pelos pesquisadores foi que não existe uma estratégia única para implementar a nova PrEP.

As experiências apresentadas mostraram que modelos descentralizados — próximos das comunidades — tendem a favorecer a permanência dos usuários no acompanhamento quando comparados a serviços de maior complexidade.

Também foram discutidos os desafios para ampliar a participação de agentes comunitários sem formação profissional específica. Em alguns países, órgãos reguladores exigiram treinamento adicional e avaliações de segurança antes de autorizar a expansão desse modelo.

Essas experiências, segundo os pesquisadores, demonstram por que a ciência da implementação é considerada essencial: identificar quais estratégias realmente funcionam em cada contexto antes da adoção em larga escala.

Evidências para orientar políticas públicas

Os estudos apresentados também avaliam alternativas como clínicas móveis, farmácias, serviços liderados por organizações comunitárias e a integração do lenacapavir com outras ferramentas de prevenção, como a PrEP oral, a PEP e os serviços de saúde sexual.

Durante sua apresentação, Maryam Shahmanesh, da University College London, destacou que essas pesquisas não medem apenas o uso do medicamento, mas também sua capacidade de reduzir novas infecções, a viabilidade para os sistemas públicos de saúde e os custos da implementação.

Ao final da sessão, ficou claro que o sucesso do lenacapavir dependerá de muito mais do que sua eficácia clínica. A próxima etapa será transformar uma inovação científica em uma política pública capaz de ampliar o acesso à prevenção, respeitando as diferentes realidades das populações e fortalecendo a oferta combinada de estratégias já disponíveis contra o HIV.

Bárbara Clara, especial para a Agência de Notícias da Aids

* A equipe da Agência de Notícias da Aids cobre a AIDS 2026 com o apoio do Senac São Paulo e da Coordenadoria de IST/Aids da cidade de São Paulo.

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