Da escassez ao acolhimento: Conheça a trajetória de Nilza Hernández, que enfrentou a crise do HIV na Venezuela e criou, no Brasil, uma casa que transforma migração em cuidado

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Nilza Hernández, de 68 anos, não fala apenas de si quando lembra do ano de 2016. Ela fala de um país inteiro. Para as pessoas que vivem com HIV na Venezuela, aquele foi o início de um colapso silencioso e devastador. “Foi quando começou o pesadelo”, diz. A partir daquele momento, os reagentes para exames essenciais simplesmente deixaram de chegar: não havia testes de CD4, nem exames de carga viral. O acompanhamento clínico tornou-se impossível.

Nas unidades de infectologia, médicos e profissionais de saúde passaram a trabalhar sem ferramentas, sem medicamentos e sem respostas. “Eles estavam de mãos atadas”, recorda Nilza. Não havia como medir o avanço da infecção, nem como oferecer tratamento. O HIV, que em grande parte do mundo já havia se tornado uma condição crônica controlável, voltava a ser uma sentença de adoecimento acelerado.

Entre 2017 e 2018, o impacto dessa negligência estatal atingiu o corpo de Nilza, que vive com HIV há 22 anos. Sem antirretrovirais, seu sistema imunológico entrou em queda. O adoecimento avançava, e com ele a certeza de que permanecer na Venezuela significava correr risco de morte. Foi nesse momento que ela tomou uma decisão extrema: sair do país em busca de tratamento.

Cruzar fronteiras para continuar viva

Migrar não foi uma escolha simples. Foi uma necessidade. Nilza chegou ao Brasil acompanhada de seu neto e do ex-marido, fragilizada, com a saúde comprometida, mas encontrou algo que havia desaparecido em seu país: acesso ao cuidado. “Damos graças todos os dias ao Brasil”, afirma. O Cartão do SUS garantiu os primeiros meses de tratamento, possibilitando que ela retomasse os antirretrovirais e começasse a reconstruir a própria saúde.

Desde então, Nilza diz não ter enfrentado dificuldades para manter o tratamento no Brasil. A experiência contrasta radicalmente com a realidade venezuelana e reforça, para ela, o caráter político da crise do HIV em seu país de origem. “O governo não tomou as medidas necessárias para garantir os tratamentos antirretrovirais”, afirma. Para Nilza, essa omissão não é apenas administrativa: é uma violação dos direitos humanos.

Ela reconhece a importância da ajuda internacional e da visibilidade global para denunciar o que chama de um sistema de violações. Em sua fala, responsabiliza diretamente o governo de Nicolás Maduro, a quem acusa de destruir o sistema de saúde e de violar a Constituição venezuelana.

Uma praça, uma pergunta e um sonho

Antes de existir uma casa, existiu uma praça. Foi na praça Pistola Ándia, em Roraima, onde Nilza vivia em situação de extrema vulnerabilidade, que sua história ganhou um novo rumo. Ali, ela conheceu a jornalista Jessica Paula, que na época era repórter da Agência de Notícias da Aids e estava em Roraima para reportar a situação de migrantes venezuelanos.

Durante a entrevista, Jessica fez uma pergunta simples e profunda: quais eram seus sonhos? Nilza respondeu com o que carregava no coração. Disse que sonhava em voltar ao seu país um dia, mas que, se tivesse uma casa, gostaria de receber ali seus irmãos venezuelanos que vinham atrás dela, com o mesmo problema, a mesma dor e a mesma urgência por tratamento.

Jessica perguntou, então, como se chamaria essa organização. O nome veio imediatamente: Valientes pela Vida. E a explicação também. “Porque tem que ser muito valente para chegar até aqui, ao Brasil, buscar tratamento, já doente, já deteriorado”, explica Nilza.

Valientes pela Vida: mais que uma casa, uma escola

O que começou como um sonho virou abrigo, e o abrigo virou projeto. Hoje, o Valientes pela Vida é muito mais do que um teto. “É uma escola”, define Nilza. Uma escola onde se aprende com a dor, com a luta, mas também com o amor, com a felicidade, com o riso e com as lágrimas.

Nilza é direta sobre os limites do que faz. “Não podemos salvá-los a todos”, diz. Mas afirma, com firmeza, que é possível acolher. Para ela, o Valientes pela Vida representa uma transformação profunda: “é um câmbio da tristeza para a esperança”.

A casa acolhe pessoas vivendo com HIV e também com outras condições de saúde, muitas delas marcadas por trajetórias de extrema exclusão. A migração, para essas pessoas, não é apenas deslocamento geográfico — é ruptura de vínculos, separação familiar e solidão profunda.

Quando falta tudo, falta também o apoio emocional

Nilza insiste que a crise do HIV na Venezuela não se resume à ausência de medicamentos. Um dos impactos mais graves é o rompimento do apoio familiar e emocional. Muitas pessoas são obrigadas a se separar de filhos, pais, companheiros. “Para uma pessoa com HIV, o apoio emocional é fundamental”, afirma. A saúde mental, para ela, é parte inseparável do tratamento.

Sem esse apoio, a vulnerabilidade se aprofunda. O sofrimento psíquico se soma ao físico, criando um ciclo difícil de romper. É nesse ponto que o acolhimento do Valientes pela Vida se torna vital.

Acolher também cura

Para Nilza, ajudar outras pessoas também foi uma forma de se curar. “Emocionalmente, para mim, isso foi uma terapia”, diz. Ver seus irmãos venezuelanos chegarem, orientá-los, mostrar que é possível sobreviver e recomeçar, tornou-se um processo de fortalecimento pessoal.

Ela compara essa vivência a um processo terapêutico profundo. “É melhor do que ir a um psicólogo”, afirma. Na casa, todos compartilham experiências semelhantes. Não há medo de falar sobre o HIV, sobre o sofrimento ou sobre os sentimentos. “Não temos medo de dizer o que sentimos”, diz Nilza. São sete anos de convivência, troca e reconstrução coletiva.

Sonhos que atravessam fronteiras

Os sonhos de Nilza cresceram junto com o projeto. Ela deseja que o Valientes pela Vida se torne uma organização internacional. Sonha com um mundo sem discriminação, onde ninguém fique sem medicamento, onde viver com HIV não signifique exclusão ou abandono.

“Os sonhos de Valiente são seguir, continuar, lutar e vencer”, resume. É uma visão de futuro construída a partir da experiência concreta da dor, mas também da resistência.

Amor não paga aluguel

Nilza sabe que sonhos precisam de sustentação material. Ela fala com clareza sobre a necessidade de apoio da sociedade civil, de organizações e de políticas públicas. Amor é essencial, mas não basta. “Se não temos recursos, com amor só não podemos trabalhar”, afirma.

Ela faz questão de registrar um agradecimento público à Agência de Notícias da Aids e à Roseli Tardelli, que há sete anos apoiam o projeto. Segundo Nilza, Roseli é a única pessoa que, ao longo desse tempo, tem ajudado diretamente com o pagamento da casa onde funciona o Valientes pela Vida. “Damos graças imensamente”, diz, desejando bênçãos e reconhecimento pelo trabalho realizado.

Chegar ao Brasil ainda é atravessar obstáculos

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Muitas das pessoas que chegam hoje ao Brasil vêm com o sistema imunológico severamente comprometido, após longos períodos sem tratamento. Os maiores obstáculos iniciais são básicos: não ter onde ficar, não ter quem oriente sobre o funcionamento do sistema de saúde.

Mesmo assim, Nilza afirma que o projeto não para. “Os obstáculos são grandes, mas não nos impedem de continuar ajudando”, diz. A maior dificuldade, segundo ela, é a mobilidade dentro do Brasil e a falta de recursos, mas a equipe sempre encontra maneiras de seguir.

A prisão de Maduro e a esperança cautelosa

Segundo a ativista, a recente prisão do presidente venezuelano Nicolás Maduro foi recebida com emoção entre venezuelanos que vivem no Brasil. Para Nilza, o episódio “abriu uma janela de esperança”. A reação foi de alegria, misturada com prudência. “Sabemos que este é apenas o começo. Falta muito para arrumar.”

Ela percebe que as pessoas que chegam agora estão um pouco mais tranquilas, porque já encontram informações sobre o SUS e sobre o tratamento no Brasil. Ao mesmo tempo, são cada vez mais vulneráveis, marcadas por histórias longas de sofrimento, abandono e perda.

Entre a dor e a esperança

A história de Nilza Hernández se confunde com a história recente da crise do HIV na Venezuela e com a resistência construída no Brasil. No Valientes pela Vida, a migração deixa de ser apenas fuga e passa a ser reconstrução. Ali, cada pessoa acolhida reafirma que sobreviver também é um ato político. “Não podemos salvar a todos”, repete Nilza. “Mas podemos acolher. E podemos fazer a diferença.”

Entre a dor de um país em colapso e a esperança construída em rede, Nilza transformou a própria trajetória em abrigo — e fez da vida, apesar de tudo, um ato de coragem.

Como ajudar o Valientes pela Vida

O trabalho do Valientes pela Vida é mantido com apoio da sociedade civil e de pessoas que acreditam no cuidado como forma de resistência. Quem quiser contribuir ou entrar em contato diretamente com Nilza Hernández pode fazê-lo pelos seguintes canais:

Telefone / WhatsApp: (95) 98121-4260

Pix: 713.275.391-60

Toda ajuda é bem-vinda. Apoiar o Valientes pela Vida é fortalecer uma rede de acolhimento que transforma migração forçada em cuidado, dignidade e esperança.

Talita Martins (talita@agenciaaids.com.br)

Dica de entrevista

Valientes pela Vida
E-mail: valientesporlavida@gmail.com

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