Da dor à arte: Bailarino Jon Diegues transforma vivência com HIV em ativismo e acolhimento

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Durante o isolamento social da pandemia de Covid-19, Jon Diegues, então com 22 anos, enfrentava um turbilhão interno. Em plena ascensão na dança, o jovem artista descobriu que vivia com HIV — e viu sua trajetória virar de cabeça para baixo. Mas foi nesse caos que ele encontrou uma nova forma de existir no mundo: pela arte, pelo corpo, pela palavra e pelo afeto.

Hoje, aos 26 anos, Jon se reinventa como bailarino, ator, poeta, escritor e ativista. No primeiro semestre deste ano, leva aos palcos as performances “Menino Positivo” e “Laço Vermelho”, acompanhadas de rodas de conversa sobre HIV/aids. Mais do que espetáculos, são espaços de troca, escuta e acolhimento, nos quais Jon transforma dor em presença e silêncio em voz.

“Sinto que sou um brotinho das flores do passado e do presente, tentando trazer a arte junto desse movimento que se comunica e se fortalece ainda mais quando está junto”, disse ele à Agência Aids.

Natural de São Vicente (SP), Jon enxerga o ativismo como extensão do seu fazer artístico — e também como estratégia de sobrevivência. Ao tornar pública sua vivência com HIV nas redes sociais, percebeu que o medo do julgamento era maior do que a realidade.

“Achei que o mundo iria me atacar com um milhão de preconceitos, mas isso não aconteceu. Coloquei no Instagram que vivo com HIV e esperei. Só duas pessoas vieram falar comigo. Ali eu entendi: o mundo não gira em torno do meu diagnóstico. As pessoas estão vivendo suas próprias vidas. E eu posso, finalmente, viver a minha.”

Arte como resistência e salvação

Jon faz da performance uma ferramenta de cura — para si e para quem cruza seu caminho. “Tem gente que consegue guardar o diagnóstico para si, e tudo bem. Mas meu jeito é falar, expressar. E é muito mais fácil quando não preciso esconder que a história é minha.”

Nas rodas de conversa que acompanha suas apresentações, ele presencia momentos potentes de partilha e libertação. “Não consigo mensurar o impacto, mas sei que existe. Ver as pessoas abrindo camadas da própria história me honra e me dá força para continuar.”

Militância, memória e continuidade

Para além da experiência pessoal, Jon reconhece a importância de manter viva a luta por direitos e dignidade para quem vive com HIV/aids. “A luta por acesso ao medicamento é essencial. Basta dois dias de silêncio para algo ser cortado. Por isso, é preciso estar sempre alerta.”

Ele também reverencia a trajetória das gerações que o antecederam: “As pessoas mais velhas que começaram essa luta estão cuidando da gente. São elas que garantem que as novas gerações vivam mais e com mais dignidade.”

Da infância à arte: o corpo como caminho

A dança entrou na vida de Jon ainda na infância. “Com 3 ou 4 anos, vi Baryshnikov dançando na TV. Virei para minha mãe e disse que queria ser como ele. Ela me levou ao ballet. Me apaixonei ali.”

Criado em uma família numerosa, Jon enfrentou desde cedo perdas e silêncios. A morte da mãe, quando ele tinha 10 anos, deixou marcas profundas. “Ela era o pilar da casa. Depois que se foi, as festas de fim de ano mudaram de lugar. A família nunca mais foi a mesma.”

Durante a pandemia, o isolamento aprofundou essa sensação. “Antes, eu era muito carente de estar com gente. Na pandemia, me vi sozinho. Hoje, sigo entendendo que sou uma pessoa sozinha, mas não solitária.”

Jon também compartilha seu processo de autodescoberta. “Desde pequeno, eu sabia que tinha várias partes em mim. Aos seis anos, dizia que uma parte era hétero, outra gay. Meu medo não era quem eu era, mas como os outros reagiriam.”

Com o tempo aprendeu a reconhecer seus limites. “Demorou para eu perceber o que eu precisava para conseguir, literalmente, me levantar e ir embora de uma situação, se fosse preciso.”

A virada, segundo ele, veio após o diagnóstico de HIV. “Depois do diagnóstico, eu me permito tolerar menos. Foi com ele que eu entendi o quanto sou importante para mim.”

Poesia, performance e futuro

Jon escreveu três poesias marcantes: uma sobre sua mãe, outra sobre a infância e a terceira, “O Menino Positivo”, que deu origem ao espetáculo homônimo. A performance surgiu no evento Café com Expressão, promovido pelo GIV, e emocionou o público ao som de “Jaqueta Amarela”, da banda As Bahias e a Cozinha Mineira.

Morador da periferia e artista negro, ele não esconde os desafios de viver da arte. “É difícil fazer voluntariado quando você precisa pagar o aluguel. Tive que aprender sobre editais públicos como o VAI e o PROAC, que hoje viabilizam meu trabalho.”

No espetáculo “Menino Positivo”, Jon inclui perspectivas diversas — de pessoas surdas a mães trans vivendo com HIV — e faz questão de contar com intérprete de Libras.

À frente da Cia Estrelas do Amanhã, ele sonha alto. “A arte foi e é meu refúgio. Se não fosse ela, eu teria me jogado do sétimo andar, como já tentei, ou tomado medicamentos fortes para me apagar, como também já tentei.”

 

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“A pandemia me tirou do auge como bailarino. Voltei para São Vicente sem conseguir exercer minha arte. Mas a arte vem me salvando desde sempre. E é isso que eu quero que ela seja para os outros.”

O espetáculo “Menino Positivo” — arte, corpo e afeto como resistência

Nos próximos meses, Jon quer multiplicar vozes, afetos e possibilidades. Levar suas apresentações para mais lugares, alcançar mais pessoas — e continuar transformando, com o corpo e com a palavra, o mundo ao seu redor.

Ele levará aos palcos a performance “Menino Positivo”, uma obra que mescla dança, poesia e vivências pessoais para abordar questões sobre HIV/aids, saúde mental, afeto e memória. Cada apresentação é acompanhada por rodas de conversa, promovendo espaços de troca e acolhimento.

Agenda de apresentações:

– 29/05 – Ensaio aberto no Pavilhão D
Endereço: Av. Olavo Fontoura, 1209 – Santana, São Paulo – SP.

– 30/05 – Ensaio aberto no Centro Cultural da Diversidade
Endereço: Rua Lopes Neto, 206 – Itaim Bibi, São Paulo – SP.

– 31/05 – Estreia VIP (somente para convidados)
Local: Centro Cultural da Diversidade

– 01/06 – Estreia aberta ao público no Centro Cultural da Diversidade
Endereço: Rua Lopes Neto, 206 – Itaim Bibi, São Paulo – SP.

– 06/06 – CEU São Mateus
Endereço: Rua Curumatim, 201 – Parque Boa Esperança, São Paulo – SP.

– 07/06 – Centro Cultural Grajaú
Endereço: Rua Professor Oscar Barreto Filho, 252 – Grajaú, São Paulo – SP.

– 13 e 14/06 – São Sebastião
(Local e endereço a serem confirmados)

– 17/06 – CEU Perus
Endereço: Rua Bernardo José de Lorena, s/n – Vila Fanton, São Paulo – SP.

– 28/06 – Centro Cultural Olido
Endereço: Avenida São João, 473 – Centro Histórico de São Paulo, São Paulo – SP.

– 03 e 04/07 – Campinas
(Local e endereço a serem confirmados)

Kéren Morais (keren@agenciaaids.com.br)

Dica de entrevista

Jon Diegues

Instagram: @jondiegues

Instagram: @ciaestrelasdoamanha

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