Seleções chegam ao Mundial com histórias diferentes no futebol e fora dele, em um grupo marcado por avanços na prevenção, redução de novas infecções e desafios persistentes contra o HIV
O Grupo C da Copa do Mundo reúne quatro seleções com trajetórias distintas no futebol e no enfrentamento ao HIV. Após Brasil e Marrocos empatarem em 1 a 1 na estreia, a Escócia assumiu a liderança do Grupo C ao vencer o Haiti por 1 a 0. Enquanto as seleções disputam uma vaga na próxima fase da Copa do Mundo, os quatro países também apresentam trajetórias distintas fora dos gramados, especialmente no enfrentamento do HIV.
Enquanto o Brasil se destaca por uma das maiores redes públicas de cuidado ao HIV do mundo, com tratamento gratuito pelo Sistema Único de Saúde (SUS), o Haiti convive com a maior prevalência entre os países do Caribe. Marrocos e Escócia, por sua vez, mostram estratégias diferentes de enfrentamento, com redução de novas infecções e ampliação de políticas de prevenção combinada.
Brasil: um dos maiores programas públicos de HIV do mundo
Com cerca de 1 milhão de pessoas vivendo com HIV, o Brasil tem prevalência estimada de 0,5% entre adultos. O país é reconhecido internacionalmente pela oferta universal de tratamento antirretroviral desde 1996, quando garantiu por lei o acesso gratuito aos medicamentos pelo SUS.
De acordo com dados divulgados pelo Ministério da Saúde, aproximadamente 96% das pessoas vivendo com HIV no país conhecem seu diagnóstico. Entre as pessoas diagnosticadas, cerca de 82% estão em tratamento, e 95% dos pacientes em terapia apresentam supressão viral. Em 2024, foram registrados 39.216 novos diagnósticos de HIV, enquanto os casos de Aids continuam em queda.
Uma das maiores conquistas recentes da saúde pública brasileira ocorreu em 2025, quando o país recebeu da Organização Mundial da Saúde (OMS) a certificação pela eliminação da transmissão vertical do HIV como problema de saúde pública – confirmando que o Brasil alcançou os critérios internacionais para controlar a transmissão do vírus de mãe para filho. Com um dos menores índices da história brasileira, a transmissão vertical representa, atualmente, menos de 2% dos casos registrados no país.
A epidemia brasileira permanece concentrada em populações-chave, como homens que fazem sexo com homens (HSH), pessoas trans, profissionais do sexo e usuários de drogas. Jovens, especialmente homens de 15 a 29 anos, seguem como um dos principais focos das políticas de prevenção.
Marrocos: queda nas novas infecções e foco em populações-chave
O Marrocos chega ao Mundial após uma campanha histórica em 2022, quando se tornou a primeira seleção africana a alcançar uma semifinal de Copa. Fora do futebol, o país também apresenta avanços no enfrentamento do HIV, embora ainda concentre desafios específicos.
Cerca de 24 mil pessoas vivem com HIV no país, com prevalência inferior a 0,1% na população geral. Em 2024, foram registrados 990 novos casos, o menor número da história marroquina, com uma redução de 22% nas novas infecções entre 2013 e 2024.
A resposta marroquina é direcionada principalmente a populações-chave. Homens que fazem sexo com homens e usuários de drogas injetáveis representam 67% das novas infecções. O país também se destaca por ser o único da região do Oriente Médio e Norte da África a incluir tratamento com metadona em programas relacionados ao HIV.
Escócia: meta de zerar transmissões até 2030
De volta à Copa do Mundo após 28 anos, a Escócia apresenta um dos cenários mais controlados do Grupo C. Cerca de 6.400 pessoas vivem com HIV no país e apenas 6% desconhecem sua condição sorológica. Entre os diagnosticados, aproximadamente 91% recebem tratamento antirretroviral e mais de 95% alcançam supressão viral.
Em 2024, o país registrou 375 novos casos. A maioria ocorreu entre homens, que representam 75% dos diagnósticos, e homens que fazem sexo com homens correspondem a 60% das novas infecções.
A história escocesa também é marcada pela adoção precoce de políticas de redução de danos. Na década de 1980, durante uma epidemia associada ao uso de drogas injetáveis, o país implementou programas de troca de seringas. Atualmente, amplia estratégias como a PrEP e estabeleceu a meta de zerar novas transmissões de HIV em seu território até 2030.
Haiti: maior prevalência do Caribe e desafios estruturais
O Haiti chega à sua segunda Copa do Mundo com um dos maiores desafios epidemiológicos do grupo. O país possui cerca de 150 mil pessoas vivendo com HIV e uma prevalência estimada de 1,7% entre adultos, a maior entre os países do Caribe.
Apesar das dificuldades econômicas e sociais, o país conseguiu reduzir significativamente a epidemia nas últimas décadas. Atualmente, 89% das pessoas vivendo com HIV conhecem seu diagnóstico, 93% das diagnosticadas estão em tratamento antirretroviral e 87% das pessoas em terapia apresentam carga viral indetectável.
A epidemia haitiana é considerada generalizada, com maior impacto entre mulheres, que representam 55% dos diagnósticos. Cerca de 90% das infecções ocorrem por transmissão sexual, enquanto a transmissão vertical ainda representa aproximadamente 5% dos casos, índice considerado elevado.
O enfrentamento do HIV no Haiti depende fortemente de parcerias internacionais, incluindo programas apoiados por agências da ONU e iniciativas como o PEPFAR. O país mantém redes de testagem, tratamento e prevenção da transmissão materno-infantil.
Um grupo de diferentes histórias contra o HIV
Dentro de campo, Brasil, Marrocos, Escócia e Haiti disputam uma vaga na próxima fase da Copa. Fora dele, representam diferentes capítulos da resposta mundial ao HIV: desde sistemas públicos consolidados e próximos das metas globais até países que seguem enfrentando desigualdades e obstáculos para garantir acesso universal à prevenção e ao cuidado.
A bola rola, mas o cenário epidemiológico mostra que cada país entra em campo carregando também sua própria história de avanços, desafios e estratégias para enfrentar o HIV.
Redação da Agência de Notícias da Aids




