
Os infectologista Mateus Cardoso e Mariane Taborda a espera de Luiza. Foto: arquivo pessoal
Neste Dia dos Pais, a Agência Aids abre espaço para uma conversa sensível, afetuosa e profundamente inspiradora com o infectologista Dr. Mateus Cardoso. Prestes a se tornar pai da Luiza, ele compartilha os sentimentos que tomaram conta do seu coração desde o dia em que soube da gestação até os sonhos que nutre para o futuro da filha.
Antes de falarmos sobre a chegada da Luiza, voltamos um pouco no tempo para conhecer a trajetória do médico que, com escuta atenta, empatia e dedicação, construiu uma carreira marcada pelo cuidado humanizado. A escolha pela medicina começou cedo, ainda na infância, quando uma aula de ciências o encantou pela primeira vez com o mundo do microscópio. Depois de flertar com a ideia de cursar História ou Ciências Sociais, seguiu um chamado — como ele mesmo define — que o levou à Medicina.
Durante a graduação, pensou em Neurologia por causa da avó com Alzheimer, depois se apaixonou pela Medicina de Família e Comunidade, mas foi na Infectologia que encontrou o caminho que unia todas as suas inquietações: cuidado integral, olhar ampliado, vínculo e conhecimento técnico profundo. “O HIV acabou sendo uma consequência da Infectologia”, diz ele. “Hoje eu me sinto muito feliz por me entender como um médico de família para os pacientes vivendo com HIV/aids.”
Atuando no Centro de Referência e Treinamento em IST/Aids de São Paulo e no Instituto de Infectologia Emílio Ribas, Dr. Mateus une técnica e humanidade no atendimento às pessoas que vivem com HIV. Agora, se prepara para um novo papel — o de pai — com a mesma sensibilidade que sempre conduziu sua prática clínica.
Nesta entrevista, ele fala sobre as emoções da espera, as transformações internas, os desafios da paternidade e a importância de educar com afeto. Também deixa um recado emocionante aos pais que vivem com HIV, reforçando que a informação e o acolhimento são chaves para romper estigmas e construir relações de cuidado e presença. Confira:
Agência Aids: Sabemos que este ano o Dia dos Pais tem um significado ainda mais especial. Como foi para você receber a notícia de que seria pai? O que sentiu naquele momento?
Dr. Mateus Cardoso: Minha esposa, que também é infectologista, e eu passamos cerca de um ano tentando engravidar. No dia em que descobrimos, estávamos nos arrumando para a formatura da nossa sobrinha, e ela resolveu fazer o teste.
Lembro que ela ainda precisava terminar a maquiagem, e eu não tinha chegado do trabalho. Acabei descobrindo por uma mensagem no WhatsApp, com a foto do teste positivo. Foi um momento muito emocionante — eu estava saindo do metrô e quase caí de tanta emoção. Decidimos contar apenas para o núcleo familiar mais próximo, e, com o tempo, as outras pessoas foram sendo informadas.
A gestação é algo indescritível e muito pessoal. Para mim, foi uma emoção sem igual, acompanhada de uma ansiedade sobre como dar conta de tudo: os cuidados com a criança, o trabalho, o desenvolvimento científico e o pessoal.
Agência Aids: A Luiza chega em outubro. Como está sendo esse processo de preparação para a paternidade? Você já se imagina com ela no colo?
Dr. Mateus Cardoso: A ansiedade cresce com a proximidade da chegada. Estamos curiosos para ver o rostinho dela, saber como é seu cheiro, sua personalidade.
Minha rotina de trabalho segue intensa — há semanas em que trabalho até 66 horas —, mas temos pensado bastante nos detalhes, especialmente ligados à educação e aos cuidados com ela.
Agência Aids: Na sua visão, o que muda dentro de você – como homem, como médico – ao se preparar para esse novo papel?
Dr. Mateus Cardoso: Acredito que todas as pessoas que cruzam nosso caminho deixam algum impacto, seja na vida pessoal ou profissional. Todos os dias me esforço para ser um médico e um homem melhor do que fui no dia anterior. Com a chegada da Luiza, acredito que novas características surgirão e outras se aprimorarão, refletindo positivamente no meu trabalho e na minha vida.
Agência Aids: Trabalhar diariamente com pessoas que vivem com HIV/aids exige escuta, sensibilidade e acolhimento. Como essa vivência influencia o pai que você deseja ser para a Luiza?
Dr. Mateus Cardoso: Como você disse, escuta e acolhimento são fundamentais. Quero que a Luiza conheça diferentes universos, que leia, reflita e forme suas próprias opiniões.
Desejo que ela tenha acesso ao conhecimento científico, acredite na ciência e saiba buscar informações confiáveis para construir seus próprios caminhos. Quero compartilhar com ela minha experiência, mas compreendo que ela fará suas próprias escolhas e viverá suas próprias consequências.

Agência Aids: Você acompanha muitas histórias de amor, dor, cuidado e superação. Há algum aprendizado do consultório que você gostaria de levar para a criação da sua filha?
Dr. Mateus Cardoso: Além de atuar como profissional de saúde, também participo do movimento social de pessoas que vivem ou convivem com HIV/aids. Tento contribuir com o que sei e, principalmente, aprender sobre as diferentes realidades, buscando acolher e apoiar quem me procura.
Seja no ativismo ou na prática clínica, o que faz diferença é a rede de apoio. Acompanhar condições crônicas pode ser cansativo — exames, medicamentos, consultas. Ter alguém por perto que não deixa a peteca cair faz toda a diferença. E, claro, a discussão sobre direitos também é essencial.
Agência Aids: Que mundo você espera para a Luiza? O que deseja construir para ela como pai, dentro e fora de casa?
Dr. Mateus Cardoso: Gostaria de um mundo mais gentil, empático e menos intolerante. Moro em São Paulo há quase cinco anos e, infelizmente, percebo diariamente a impaciência das pessoas: no trânsito, no transporte público, nos serviços. Cada um parece querer que tudo aconteça no seu tempo.
Quero oferecer à Luiza uma infância com menos telas e mais experiências: brincar no parque, ler, se encantar com a ciência. Que ela cresça refletindo, pensando no impacto de suas ações e sendo uma pessoa capaz de apoiar o outro — como minha esposa e eu tentamos fazer.
Agência Aids: Quando você pensa no futuro, o que mais sonha em viver com sua filha?
Dr. Mateus Cardoso: Gostaria que ela vivesse experiências diversas, desenvolvesse empatia e soubesse respeitar os valores e histórias dos outros. Que use o conhecimento para transformar realidades.
Agência Aids: O que você diria hoje para outros pais que, como você, estão aprendendo a cuidar, acolher e proteger com afeto e presença?
Dr. Mateus Cardoso: Não é uma tarefa fácil — a gente erra muito —, mas cada segundo vale a pena. É essencial estar com os ouvidos atentos e os braços disponíveis.
Fomos ensinados, por muito tempo, que demonstrar afeto era sinal de fraqueza. Já tive a oportunidade de conversar com a Agência Aids sobre ciência, mas agora, falando de sentimentos, percebo como ainda é difícil. Fomos pouco ensinados sobre isso.
Cuidar é uma forma de amar com firmeza e ternura. Não existe força maior do que a que acolhe, nem amor maior do que o que sentimos pelos nossos filhos. Posso dizer que, mesmo antes de nascer, já amo muito a Luiza e quero cuidar dela com todo o meu coração.

Agência Aids: O que você gostaria que a Luiza soubesse sobre o pai dela, no dia em que puder entender essa entrevista?
Dr. Mateus Cardoso: Quero que a Luiza saiba que o pai dela tentou gerar impactos sociais positivos. Que, por meio da escuta e do acolhimento, ajudou a transformar vidas e inspirar pessoas.
Quero que ela leia todas as cartas que recebo — e guardo com carinho — desde que comecei a residência em Infectologia, em 2017. Que veja fotos, ouça histórias e compreenda minha trajetória.
Agência Aids: Se pudesse deixar uma mensagem para o seu pai neste Dia dos Pais, o que diria a ele? Que aprendizados da sua relação com ele você quer levar para a criação da Luiza?
Dr. Mateus Cardoso: Nos últimos anos, trocamos menos palavras e declarações, mas espero que meu pai leia esta entrevista e saiba que fez um excelente trabalho.
Ele sempre foi presente, cuidadoso, me inspirou a ser profissionalmente dedicado (mesmo não sendo da área da saúde). Sempre houve muito respeito, mas também liberdade e carinho — e é isso que quero oferecer à Luiza.
Desejo que ela cresça com uma relação de confiança comigo. Que tenha liberdade para dialogar, expressar seus medos e que possamos evoluir juntos, como acredito ter acontecido na minha casa.
Agência Aids: E para todos os pais — especialmente aqueles que vivem com HIV e enfrentam preconceitos e desafios para exercer a paternidade em sua plenitude — qual recado você gostaria de deixar?
Dr. Mateus Cardoso: Entre tudo que conversamos, uma palavra me move: educação. Mesmo após mais de 40 anos de enfrentamento do HIV/aids, ainda há muito desconhecimento e preconceito. Embora o acesso à internet tenha aumentado, ele ainda é limitado e muitas das informações que circulam estão equivocadas.
Por isso, acredito que precisamos continuar esse trabalho de formiguinha, incansável, de levar informação de qualidade. Sempre converso sobre temas como “indetectável=intransmissível” e educação sexual. São assuntos fundamentais para desconstruir preconceitos e garantir direitos.
Talita Martins (talita@agenciaaids.com.br)
Dica de entrevista
Dr. Mateus Cardoso
Instagram: @mateus.cardoso43


