29/10/2014 – 16h45
Depois de cinco anos funcionando só nas dependências do Centro de Referência e Treinamento em DST/Aids de São Paulo (CRT-SP), o serviço voltado para o cuidado integral da saúde de travestis e transexuais precisa ser descentralizado. A procura por atendimento tem aumentado a cada ano e há até filas de espera. A ideia, com a implantação do serviço em outras cidades, é fazer com que as pessoas não precisem viajar até a capital para fazer um tratamento ou uma consulta.
Esse tema foi defendido pelo coordenador adjunto do Programa Estadual de DST/Aids, Artur Kalichman, na abertura da 1ª Jornada de Sensibilização no Atendimento a Pessoas Transgêneros, nesta quarta-feira (29).
Até quinta-feira (30), profissionais de saúde de diferentes regiões do estado — que desenvolvem algum atendimento a esta população — estarão reunidos no Ambulatório de Saúde Integral para Travestis e Transexuais (ASITT) para trocar experiências sobre políticas públicas e cuidado à saúde de travestis e transexuais.
"O ambulatório foi construído a partir de uma demanda do próprio movimento social. Nosso secretário de Saúde, na época, Luiz Roberto Barradas Barata, foi motivado a criar este serviço depois que leu um artigo do Dráuzio Varella na ‘Folha de S. Paulo’", contou Artur.
Segundo Arthur, a ideia era não vincular o ambulatório a um serviço de DST/Aids para não estigmatizar essa população. No entanto, nenhum outro serviço abriu as portas para o ambulatório. "Se nós continuarmos sozinhos, vamos morrer na praia. Os outros centros de saúde precisam incorporar essa demanda também."
O local atende em média 60 pessoas por dia. Desde a sua criação, em 2010, mais de 3.500 pacientes já foram atendidos – desses, 66% são mulheres transexuais, 30%, travestis e 4%, homens trans — muitos em busca de cuidados com a saúde mental e física, outros, de tratamento hormonal e de cirurgia de mudança de sexo
Quando o assunto é cirurgia, ai o negócio complica. Artur conta que a fila é longa e pode durar mais de dois anos. "Todas as cirurgias são feitas no Hospital das Clínicas, a única porta que temos no Brasil para esse tipo de intervenção no setor público. A expectativa é conseguir outros hospitais e ambulatórios para fazer as cirurgias e acolher essa população.”
O ambulatório
A diretora e psicóloga do ASITT, Judit Lia Bussanello, falou um pouco sobre as experiências do serviço e detalhou o que o serviço oferece.
Segundo ela, todas as pessoas que chegam pela primeira vez ao serviço são entrevistadas, passam por avaliação médica e mental e são orientadas sobre o tratamento indicado.
O espaço conta com uma equipe formada por psicólogos, psiquiatra, clínicos gerais, infectologista, ginecologista, urologista, endocrinologista, proctologista, fonoaudióloga e assistente social. Além disso, todos os usuários do ASITT têm acesso às especialidades médicas oferecidas no CRT.
Judit conta que nem todo transexual está interessado numa cirurgia de mudança de sexo, mas todos procuram alguma intervenção corporal para mudar a aparência.
“Tem de analisar caso a caso e ver o quanto, de fato, a transexual quer mudar o seu corpo para adequá-lo à identidade de gênero. Algumas querem colocar peito, outras, operar e chegar até o fim da transição. Os meninos querem tirar os seios, o útero. Tudo depende do grau de incômodo que sentem com o gênero ao contrário.”
Judit explica que a legislação brasileira exige que antes de se submeter à cirurgia de mudança de sexo o transexual complete dois anos de acompanhamento psicológico.
A psicóloga pede ainda sensibilização dos funcionários sobre o uso do nome social. “Geralmente, encaminhamos nossos pacientes para exames em outros serviços. O atendente chama a Maria de José e, claro, geralmente este paciente, que está vestido de mulher, não responde e sai do serviço sem o exame. Isso não pode acontecer.”
O ambulatório funciona das 8 às 20h e as consultas têm de ser agendadas com antecedência. Como a primeira consulta é mais longa, deve ser marcada no máximo até às 18 horas.
Talita Martins (talita@agenciaaids.com.br)
Dica de entrevista:
Assessoria de Imprensa Programa Estadual de DST/Aids
Tel.: (11) 5087-9907



