O uso da estatina pitavastatina reduziu significativamente o risco de desenvolver hipertensão arterial em pessoas que vivem com HIV e pode ajudar a prevenir eventos cardiovasculares graves, como AVC e ataque cardíaco, segundo resultados do estudo REPRIEVE apresentados na Conferência sobre Retrovírus e Infecções Oportunistas (CROI 2026). A pesquisa também revelou que o surgimento de pressão alta durante o acompanhamento duplica o risco de complicações cardiovasculares, reforçando a importância do monitoramento e da prevenção integrada no tratamento do HIV.
A análise indica que participantes que receberam pitavastatina apresentaram menor probabilidade de desenvolver hipertensão em comparação com aqueles que receberam placebo, reforçando o papel potencial das estatinas não apenas na redução do colesterol, mas também no controle da pressão arterial e na prevenção de complicações cardiovasculares em pessoas com HIV.
Estatinas e pressão arterial
A maioria dos estudos conduzidos em pessoas sem HIV já demonstrou que as estatinas reduzem a pressão arterial, com efeitos mais pronunciados em indivíduos com níveis pressóricos mais elevados ou com colesterol HDL mais baixo. Essas medicações atuam relaxando as paredes dos vasos sanguíneos, reduzindo a inflamação e diminuindo a produção de substâncias que causam vasoconstrição.
A pressão arterial elevada é um fator de risco importante para eventos cardiovasculares graves, especialmente em pessoas com doença arterial coronariana, podendo levar a ataque cardíaco ou acidente vascular cerebral.
O estudo REPRIEVE
O estudo REPRIEVE avaliou o efeito de uma dose diária de pitavastatina na incidência de eventos cardiovasculares graves — como AVC e ataque cardíaco — em pessoas com HIV com risco inicial baixo a moderado para essas complicações.
Ao todo, 7.769 participantes foram acompanhados por uma mediana de cinco anos e randomizados para receber pitavastatina ou placebo. Os resultados mostraram que a pitavastatina reduziu em 36% o risco de eventos cardiovasculares graves.
Mais de um terço dos participantes (36%) já apresentava hipertensão arterial no início do estudo — condição que não foi considerada evento cardiovascular grave para fins da análise — e pouco mais da metade dessas pessoas já utilizava medicamentos para controle da pressão.
Análise secundária: risco de hipertensão
Na CROI 2026, o Dr. Esteban Martinez, do Hospital Clínic de Barcelona, apresentou uma análise secundária sobre o impacto da pitavastatina na incidência de hipertensão de início recente durante o estudo. A investigação também avaliou a relação entre o surgimento da hipertensão e eventos cardiovasculares posteriores.
Um novo diagnóstico de hipertensão foi definido como:
* duas medições de pressão sistólica acima de 140 mmHg;
* duas medições de pressão diastólica acima de 90 mmHg; ou
* início de tratamento medicamentoso para controle da pressão.
As medições foram realizadas em consultas anuais.
A análise incluiu 4.989 participantes sem hipertensão no início do estudo. Entre eles:
* 30% eram mulheres;
* a mediana de idade era de 49 anos;
* 51% participavam em centros localizados em países de alta renda;
* aproximadamente 36% eram negros.
A pressão arterial sistólica mediana foi de 119 mmHg e a diastólica de 76 mmHg. Cerca de 23% apresentavam pressão arterial elevada no início, definida como sistólica acima de 130 mmHg ou diastólica acima de 85 mmHg.
Incidência de hipertensão e fatores de risco
Durante o acompanhamento, 668 participantes desenvolveram hipertensão, correspondendo a uma taxa de 27,1 casos por 1.000 pessoas-ano. A incidência foi significativamente maior no grupo placebo (29,6 casos por 1.000 pessoas-ano) em comparação com o grupo tratado com pitavastatina (24,7 casos por 1.000 pessoas-ano).
O risco de desenvolver hipertensão aumentou com a idade e com o índice de massa corporal. O principal fator preditivo foi a presença de pressão arterial elevada no início do estudo: indivíduos com níveis pressóricos elevados tiveram probabilidade quase duas vezes e meia maior de desenvolver hipertensão durante o acompanhamento em comparação com aqueles com pressão normal.
Segundo os investigadores, o achado reforça a importância de medidas preventivas, como redução do consumo de sal e álcool e prática regular de exercícios físicos quando a pressão arterial está acima da faixa considerada normal.
A obesidade e a glicemia de jejum elevada também foram associadas ao desenvolvimento da condição, “reforçando a necessidade de prevenção integrada no tratamento do HIV”, afirmou Martinez.
Diferenças regionais e raciais
A análise apontou ainda diferenças regionais. Participantes da África Subsaariana apresentaram maior risco de desenvolver hipertensão, enquanto aqueles do sudeste e leste da Ásia tiveram risco significativamente menor. Os investigadores ressaltaram, porém, que o número de participantes por região foi reduzido.
Entre pessoas negras residentes em países de alta renda, observou-se risco ligeiramente maior de hipertensão.
Impacto da pitavastatina
O uso de pitavastatina reduziu o risco de desenvolver hipertensão em 17% (razão de risco 0,83; IC 95% 0,71–0,97). O efeito foi consistente independentemente da idade, sexo, região ou índice de massa corporal.
Além disso, o desenvolvimento de hipertensão durante o estudo duplicou o risco de eventos cardiovasculares graves, mesmo após ajuste para o risco cardiovascular basal (HR 2,1; IC 95% 1,3–3,45; p=0,002).
Os investigadores afirmam que os resultados demonstram claramente que, em pessoas com HIV, o surgimento de hipertensão deve ser considerado um sinal de alerta para risco cardiovascular elevado, mesmo entre aqueles que utilizam estatinas.
Controle da pressão arterial
Entre os participantes que desenvolveram hipertensão, 86% iniciaram tratamento medicamentoso. Desses, 60% atingiram metas de controle da pressão em um ano e 70% entre dois e quatro anos após o início da terapia anti-hipertensiva.
Respondendo a uma pergunta do Dr. José Arribas, o investigador principal do REPRIEVE, o professor Stephen Grinspoon, afirmou que, embora o tratamento antirretroviral não tenha sido foco da análise apresentada na conferência, os investigadores divulgarão em breve dados mostrando associação entre o uso de inibidores da integrase e o desenvolvimento de hipertensão. Aproximadamente um quarto dos participantes sem hipertensão no início do estudo utilizava essa classe de medicamentos.
Evidências adicionais sobre inibidores da integrase
Duas apresentações em pôster na CROI 2026 também indicaram possível aumento da pressão arterial após a mudança para inibidores da integrase.
Um estudo conduzido nos Estados Unidos comparou 689 pessoas que trocaram para um inibidor da integrase após pelo menos seis meses de uso de inibidores da protease (IP) ou inibidores da transcriptase reversa não nucleosídeos (ITRNN) com indivíduos que permaneceram nos tratamentos anteriores. Aqueles que mudaram de terapia apresentaram risco 81% maior de desenvolver hipertensão (88,4 casos por 1.000 pessoas-ano contra 53,5 casos por 1.000 pessoas-ano).
Outro estudo, com 4.982 pessoas com HIV em Uganda que haviam utilizado outros antirretrovirais por pelo menos dois anos antes de migrar para o inibidor da integrase dolutegravir, mostrou aumento de 30% no risco de hipertensão após a troca. O maior ganho de peso durante o acompanhamento foi associado a maior probabilidade de desenvolver a condição.
Os resultados apresentados na CROI 2026 reforçam a necessidade de monitoramento contínuo da pressão arterial e de estratégias integradas de prevenção cardiovascular no cuidado de pessoas que vivem com HIV.




