CROI 2026: Cortes no financiamento global do HIV expõem riscos, ampliam desigualdades e ameaçam avanços históricos

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Os impactos das interrupções no financiamento global da resposta ao HIV começam a revelar um cenário preocupante para milhões de pessoas em todo o mundo. Dados apresentados durante a Conferência sobre Retrovírus e Infecções Oportunistas, realizada esta semana em Denver, nos Estados Unidos, indicam que a redução de recursos — especialmente do governo norte-americano — já afeta serviços essenciais, fragiliza sistemas de saúde e ameaça conquistas acumuladas ao longo de décadas.

A discussão foi aberta por Jennifer Kates, da Kaiser Family Foundation, com uma pergunta central: qual é o impacto real dessas decisões sobre as pessoas? A resposta, segundo especialistas, ainda é difícil de mensurar.

“Os sistemas de dados que estavam disponíveis para analisar o impacto foram desativados”, afirmou Kates. Mesmo quando dados existiam, muitos profissionais responsáveis pelo acesso às informações já não estavam mais nos cargos. “É muito difícil encontrar pessoas que já saíram do sistema de acolhimento, quando elas já saíram.”

Diante desse cenário, pesquisadores destacam a importância de estudos de modelagem para estimar os efeitos atuais e projetar as consequências futuras das interrupções no financiamento.

O possível declínio de um dos maiores programas globais contra a aids

Grande parte das preocupações gira em torno do futuro do Plano de Emergência do Presidente dos EUA para o Alívio da Aids (PEPFAR), uma das iniciativas mais importantes da história no combate ao HIV.

Antes da implementação do programa, em 2003, menos de 50 mil pessoas recebiam terapia antirretroviral (TARV) na África Subsaariana, enquanto mais de dois milhões de mortes relacionadas ao HIV ocorriam anualmente no mundo. Após quase 23 anos de atuação, cerca de 21 milhões de pessoas estão em tratamento na região, e as mortes globais por HIV caíram para cerca de 600 mil por ano.

Embora outros fatores tenham contribuído para esses avanços, o PEPFAR teve papel decisivo — e historicamente contou com forte apoio bipartidário nos Estados Unidos.

Mesmo com financiamento relativamente estável nos últimos anos, a contribuição anual de cerca de US$ 5 bilhões representava 80% de todo o financiamento internacional destinado ao combate global ao HIV. A maior parte desses recursos (91%) foi direcionada à África Subsaariana. Ainda assim, o programa correspondia a apenas 1% do orçamento federal norte-americano.

Além de testes, prevenção e tratamento, o PEPFAR financiava:

* infraestrutura laboratorial e sistemas de dados;
* fortalecimento dos sistemas de saúde;
* serviços relacionados à tuberculose e ao câncer cervical;
* rastreamento de violência de gênero;
* programas socioeconômicos, como transferências de renda e apoio nutricional.

Essa abordagem integrada — do cuidado individual ao fortalecimento estrutural — ajudou a salvar cerca de 26 milhões de vidas, segundo estimativas.

No entanto, em 2025, uma nova administração norte-americana com visão diferente sobre financiamento global da saúde interrompeu o impulso do programa. Cientistas e comunidades ainda avaliam os danos provocados pela paralisação de atividades e pelas isenções limitadas impostas pelo governo de Donald Trump.

Os efeitos mais severos têm sido observados nos aspectos não clínicos da resposta ao HIV.

Clínicas relatam interrupções generalizadas em serviços essenciais

A pesquisadora Ellen Brazier, da City University of New York, apresentou dados de um levantamento conduzido pelo consórcio International epidemiology Databases to Evaluate Aids (IeDEA).

A pesquisa envolveu clínicas e programas em 32 países, abrangendo sete regiões do mundo. O questionário foi enviado a 30 países financiados pelo PEPFAR e 11 não financiados, em meados de 2025, investigando interrupções em:

* serviços de HIV;
* disponibilidade de medicamentos;
* serviços laboratoriais;
* funcionamento das clínicas;
* estratégias de mitigação adotadas.

Foram analisadas respostas de 68 clínicas e oito programas — a maioria localizada em países apoiados pelo PEPFAR no início de 2025.

Os resultados mostram impactos expressivos:

* 47% relataram interrupções nos serviços de HIV;
* 28% enfrentaram dificuldades na disponibilidade de medicamentos;
* 34% registraram interrupções em serviços laboratoriais, como testes de carga viral;
* 47% apontaram falhas operacionais nas clínicas, incluindo apoio à adesão ao tratamento, rastreamento de pacientes e gestão de registros.

As estratégias de mitigação foram limitadas e a recuperação variou significativamente entre regiões. Enquanto clínicas da América Latina relataram resolução das interrupções até meados de 2025, a África Austral ainda enfrentava dificuldades — incluindo problemas na oferta de profilaxia pré-exposição (PrEP).

Segundo Brazier, a aparente recuperação na América Latina pode refletir o menor número de países apoiados pelo PEPFAR na região e o fato de muitas unidades serem hospitais de alta complexidade com maior proteção institucional.

Mesmo onde serviços foram parcialmente restabelecidos, a perda de profissionais não clínicos — como gestores de dados — continua produzindo efeitos duradouros. Essas funções incluem manutenção de equipamentos laboratoriais e identificação de pacientes que abandonam o tratamento, atividades consideradas essenciais para o cuidado clínico.

Entre os impactos mais preocupantes está a redução do acesso à PrEP para grupos vulneráveis, como mulheres jovens e trabalhadoras do sexo.

África do Sul: impactos atingem metade das pessoas com HIV em província de alta prevalência

Outra análise, apresentada por Lindsey Filiatreau, da Washington University in St. Louis, examinou os efeitos das interrupções de financiamento na África do Sul.

Além das mudanças no PEPFAR, o país foi alvo de uma ordem executiva do governo Trump em fevereiro de 2025 que encerrou o apoio norte-americano, em meio a tensões diplomáticas relacionadas à disseminação de alegações falsas sobre um suposto “genocídio” de fazendeiros brancos.

A pesquisa concentrou-se na província de KwaZulu-Natal, uma das regiões com maior prevalência de HIV no mundo. Utilizando dados do estudo Uhambo Lwami, os pesquisadores analisaram 36 clínicas — de um total de 519 — representando 179.586 pessoas vivendo com HIV.

Os resultados revelaram impactos amplos:

* 39% das clínicas relataram interrupções em serviços, operações ou pessoal;
* 51% dos pacientes da província foram afetados pelas interrupções;
* cerca de 10% das clínicas tiveram interrupções em testagem e tratamento, afetando 27% dos pacientes;
* a perda de funcionários responsáveis pela coleta de dados atingiu 27% das clínicas e 36% dos pacientes.

Assim como observado em outros países, funções consideradas “invisíveis” — como entrada de dados e rastreamento de pacientes — foram particularmente prejudicadas. A desestruturação desses sistemas compromete o cuidado clínico mesmo quando medicamentos continuam disponíveis.

Erosão da confiança e desafios para reconstrução

Segundo Filiatreau, os efeitos das interrupções vão muito além da escassez de medicamentos ou do aumento de infecções e mortes. Os cortes também provocaram uma profunda erosão da confiança no sistema de saúde.

Além dos pacientes, profissionais demitidos abruptamente passaram a hesitar em retornar ao trabalho quando as clínicas reabriram, dificultando a retomada das atividades.

“O que vemos é que teremos uma reconstrução substancial a fazer”, afirmou a pesquisadora. “Esses serviços podem ser retirados da noite para o dia, mas não podem ser reconstruídos na mesma velocidade.”

Futuro incerto para a resposta global ao HIV

Os dados apresentados na CROI 2026 indicam que os cortes no financiamento global do HIV já afetam não apenas a continuidade dos serviços, mas também a infraestrutura, a força de trabalho e a confiança nos sistemas de saúde — pilares fundamentais para o controle da epidemia.

Especialistas alertam que, sem investimentos sustentados e previsíveis, avanços históricos conquistados nas últimas décadas podem ser rapidamente revertidos, colocando milhões de vidas em risco e ampliando desigualdades globais no acesso à saúde.

Redação da Agência de Notícias da Aids com informações

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