CROI 2026: Cortes no financiamento agravam baixa adesão à PrEP e ameaçam metas globais de prevenção do HIV

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A profilaxia pré-exposição (PrEP), considerada uma das principais estratégias para prevenir o HIV, já enfrentava desafios globais de adesão antes mesmo dos recentes cortes no financiamento internacional. Agora, especialistas alertam que a redução de recursos — especialmente do governo dos Estados Unidos — pode comprometer ainda mais a capacidade de conter novas infecções e afastar o mundo das metas internacionais de controle da epidemia.

Dados apresentados na Conferência sobre Retrovírus e Infecções Oportunistas, realizada em Denver, nos Estados Unidos, mostram que a cobertura da PrEP permanece insuficiente em praticamente todos os países — e os cortes recentes agravaram significativamente o cenário.

Segundo Andrew Hill, da Universidade de Liverpool, mesmo antes da redução drástica do orçamento global para HIV pelo governo de Donald Trump, poucos países tinham usuários suficientes de PrEP para reduzir de forma relevante suas taxas de infecção.

Com a redução do financiamento do Plano de Emergência do Presidente dos EUA para o Alívio da Aids, a situação piorou rapidamente. Em alguns países africanos, o número de pessoas em PrEP caiu até 98%.

Se essa tendência persistir, alertou Hill, o mundo não alcançará a meta do Unaids de limitar as novas infecções a 370 mil por ano. Em vez disso, o número pode permanecer em torno de 1,4 milhão de casos anuais — ou até aumentar.

Cobertura insuficiente limita impacto da prevenção

De acordo com Hill, a PrEP só produz impacto significativo quando alcança um grande número de pessoas, é acessível financeiramente e direcionada às populações com maior risco de exposição ao HIV. No entanto, o cenário atual aponta na direção oposta: acesso mais restrito e custos mais elevados.

Um dos desafios estruturais da prevenção é que a maioria das pessoas que utilizam métodos preventivos — como preservativos, comprimidos ou injeções — provavelmente não contrairia o vírus mesmo sem o uso. Diferentemente do tratamento, cujo benefício é imediato e evidente, a prevenção exige ampla cobertura populacional para produzir efeitos mensuráveis.

Sem uma vacina de longa duração contra o HIV, mesmo um método altamente eficaz precisa atingir milhões de pessoas para reduzir a transmissão.

Estudos com lenacapavir mostram potencial — mas exigem grande escala

Os estudos clínicos PURPOSE, que avaliaram a PrEP injetável com lenacapavir, ajudam a estimar quantas pessoas precisam receber o método para prevenir uma infecção.

* O PURPOSE 1 envolveu mulheres cisgênero africanas.
* O PURPOSE 2 incluiu homens gays, bissexuais e pessoas trans em diferentes países.

Nos dois estudos, as injeções semestrais apresentaram eficácia próxima de 100%. A incidência basal de HIV foi semelhante em ambas as pesquisas — cerca de 2,4% ao ano — indicando que **uma infecção foi evitada para cada 42 pessoas tratadas por um ano**.

Apesar disso, poucos países atingem esse nível de cobertura entre suas populações de risco.

Poucos países alcançam cobertura eficaz

Uma análise da cobertura global até o final de 2024 revelou que apenas alguns países fornecem PrEP em escala suficiente para impactar a epidemia:

* Austrália, Dinamarca e Noruega oferecem PrEP para mais de 42 pessoas por nova infecção anual.
* O Reino Unido aparece logo abaixo, com 40 usuários por nova infecção.

Mesmo os Estados Unidos, com 591 mil usuários de PrEP e 31.800 novas infecções em 2025, fornecem o método a apenas 15 pessoas por nova infecção.

Em países com alta incidência, a discrepância é ainda maior:

* África do Sul tinha 860 mil usuários até 2024, mas apenas uma pessoa em PrEP para cada cinco infecções.
* Zâmbia registrava uma pessoa em PrEP para cada 14 infecções.

Queda abrupta após cortes no financiamento

Após os cortes no PEPFAR, a cobertura caiu drasticamente em diversos países:

* África do Sul: redução de 28% no número de usuários;
* Zâmbia: queda de 58%;
* Uganda: redução de 70%;
* Malawi: queda de 75%;
* Nigéria: redução de 98%, passando de 390 mil usuários em 2024 para apenas 7 mil em 2025.

Em Uganda e na Nigéria, o cenário tornou-se particularmente crítico: há hoje mais novas infecções anuais do que pessoas em PrEP. Na Nigéria, por exemplo, são cerca de 10 infecções para cada usuário do método.

A redução da cobertura também atingiu países sem financiamento direto do PEPFAR. O Brasil tinha cerca de 170 mil usuários de PrEP no fim de 2024, número que caiu para 101 mil um ano depois — equivalente a duas pessoas em PrEP para cada nova infecção por HIV.

Outros países ainda estão em estágio inicial de implementação. A Índia, por exemplo, conta com apenas 2.100 usuários de PrEP — cerca de duas pessoas para cada 100 infecções.

Modelagens indicam que, mantendo-se os níveis atuais de cobertura, o mundo poderá registrar 1,45 milhão de novas infecções por HIV em 2030 — praticamente o mesmo número observado em 2022.

Dilema entre custo, acesso e eficácia

Uma possível estratégia seria direcionar a PrEP apenas a populações com risco extremamente elevado de infecção, aumentando a eficiência do investimento. Entre profissionais do sexo em alguns países africanos, por exemplo, a incidência anual pode variar de 4,6% na África do Sul até 9% na Etiópia e na Tanzânia.

No entanto, essas populações são relativamente pequenas, e restringir o acesso contraria a tendência global de ampliar políticas de prevenção e tratamento.

O custo também é um obstáculo importante. A PrEP oral genérica com tenofovir disoproxil/emtricitabina custa cerca de US$ 35 por pessoa ao ano, permitindo maior distribuição. Já as formulações injetáveis têm preços significativamente mais altos.

A ViiV Healthcare licenciou o cabotegravir genérico de longa duração para 90 países a US$ 180 por ano, enquanto a Gilead Sciences firmou acordos para distribuição por US$ 120 anuais em 120 países. Ainda assim, dezenas de países precisarão negociar preços que podem variar entre esses valores e os preços máximos dos Estados Unidos — superiores a US$ 22 mil anuais.

Estudos conduzidos por Hill indicam que o lenacapavir poderia ser produzido por valores próximos aos da PrEP oral — entre US$ 35 e US$ 46 ao ano — ou ainda menos com produção em larga escala.

Atualmente, o alto custo e a necessidade de infraestrutura médica limitam o uso das formulações injetáveis: apenas 2,9% dos 2,2 milhões de usuários de PrEP no mundo utilizam cabotegravir, e 0,9% usam lenacapavir. Esse total global representa apenas um décimo da meta estabelecida pelo Unaids.

“A PrEP está tendo pouco ou nenhum impacto na incidência de HIV em países de baixa e média renda”, afirmou Hill.

Proposta: fundo global para ampliar acesso

Diante do cenário, Hill defende uma estratégia global semelhante à adotada para expandir o tratamento antirretroviral nas últimas décadas.

“Conseguimos uma alta cobertura de terapia antirretroviral em todo o mundo. Agora precisamos fazer o mesmo com a PrEP”, afirmou.

A proposta do pesquisador é a criação de um fundo global de US$ 500 milhões por ano — um “Fundo de Proteção contra o HIV” — para garantir que os primeiros 10 milhões de pessoas em países de baixa e média renda tenham acesso ao lenacapavir.

Especialistas alertam que, sem ampliação urgente do financiamento e da cobertura, a prevenção do HIV pode perder sua capacidade de conter a epidemia global, comprometendo metas internacionais e colocando em risco décadas de avanços na resposta ao vírus.

 

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