CROI 2026: Combinação experimental com imunomoduladores atrasa retorno do HIV, mas não impede avanço do vírus após suspensão do tratamento

Ouça esta postagemCarregando...
1.0x

Uma combinação experimental de dois imunomoduladores conseguiu atrasar — mas não impedir — o retorno do HIV em pessoas que interromperam a terapia antirretroviral. Os resultados, apresentados na Conference on Retroviruses and Opportunistic Infections (CROI) 2026, indicam que a estratégia ainda está longe de permitir o controle duradouro do vírus sem medicamentos.

O estudo mostrou que o uso conjunto de budigalimab e trosunilimab retardou a recidiva viral em cerca de um quarto dos participantes. No entanto, parte dos pacientes voltou a apresentar aumento da carga viral com o tempo — e os pesquisadores decidiram não continuar o desenvolvimento da combinação.

A descoberta evidencia os limites atuais das estratégias que buscam a chamada “cura funcional” do HIV, quando o vírus permanece controlado mesmo sem tratamento contínuo.

O grande desafio: o HIV “escondido” no organismo

Hoje, os antirretrovirais conseguem impedir a multiplicação do HIV por tempo indefinido. O problema é que o vírus se integra ao DNA das células humanas e forma reservatórios invisíveis ao sistema imunológico e aos medicamentos. Quando o tratamento é interrompido, ele pode voltar a se replicar.

Para tentar contornar esse obstáculo, pesquisadores investigam medicamentos capazes de estimular o sistema imunológico a reconhecer e combater o vírus.

Uma dessas estratégias envolve os chamados inibidores de checkpoint imunológico anti-PD-1 — anticorpos já usados no tratamento do câncer para reativar células de defesa do organismo.

A cientista Sharon Lewin, da University of Melbourne, explicou que esses medicamentos poderiam ajudar o corpo a reagir contra o HIV. “Revigorar” as células T citotóxicas exaustas para combater o HIV e talvez reativar o vírus a partir do reservatório latente.

Estudos iniciais haviam sugerido algum benefício. Um trabalho anterior publicado na Nature Medicine apontou atraso no retorno do vírus em um pequeno grupo de pacientes.

Como foi o estudo

O novo ensaio clínico, apresentado pela pesquisadora Ana Gabriela Pires Dos Santos, da AbbVie, avaliou 142 adultos vivendo com HIV em 12 países. Todos tinham carga viral indetectável havia pelo menos um ano com terapia antirretroviral.

Os participantes interromperam temporariamente o tratamento sob monitoramento médico rigoroso — prática usada em pesquisas para avaliar novas estratégias de controle viral.

Eles foram divididos em cinco grupos:

* budigalimab isolado;
* trosunilimab isolado;
* combinação em baixa dose;
* combinação em alta dose;
* placebo.

O objetivo era verificar quantos conseguiriam manter a carga viral controlada por 24 semanas sem reiniciar os antirretrovirais.

Resultados abaixo do esperado

A combinação em baixa dose teve o melhor desempenho: 24% dos participantes mantiveram carga viral baixa após seis meses, contra 5% no grupo placebo. Apesar disso, o efeito não se manteve ao longo do tempo.

Com o acompanhamento prolongado, o controle do vírus caiu em todos os grupos. Não houve diferença significativa no tempo até a recidiva entre quem recebeu os medicamentos e quem tomou placebo.

Os próprios pesquisadores reconheceram limitações no estudo. Alguns participantes ainda tinham traços de antirretrovirais no organismo durante a interrupção do tratamento, o que pode ter influenciado os resultados.

Efeitos colaterais preocupam especialistas

Embora o tratamento tenha sido considerado geralmente seguro, os efeitos adversos foram frequentes:

* 44% tiveram reações relacionadas aos medicamentos;
* 11% interromperam o tratamento por esse motivo;
* 20% apresentaram eventos graves;
* 7% tiveram reações imunológicas;
* 12% desenvolveram síndrome de rebote do HIV.

O especialista Joseph Eron, da University of North Carolina at Chapel Hill, questionou a estratégia.

“Acho que essa estratégia não é adequada em termos de selecionar voluntários saudáveis [vivendo com HIV] e administrá-los a anti-PD1 em qualquer dose”, afirmou.

Próximos passos

Diante da eficácia limitada, os pesquisadores encerraram o desenvolvimento da combinação. Os níveis e a durabilidade do controle viral sem TARV não são suficientes para oferecer benefícios transformadores às pessoas que vivem com HIV e não justificam o desenvolvimento adicional de budigalimab mais trosunilimab”.

Apesar do resultado negativo, o estudo ajuda a esclarecer os caminhos possíveis — e os limites atuais — da busca por uma cura funcional do HIV. Segundo os pesquisadores, novas abordagens imunológicas mais inovadoras ainda serão necessárias para alcançar esse objetivo.

Redação da Agência de Notícias da Aids com informações

Apoios