A sessão de abertura da Conferência sobre Retrovírus e Infecções Oportunistas (CROI 2026), realizada em Denver, foi marcada por um alerta contundente sobre os desafios recentes enfrentados pela ciência e pela resposta global ao HIV. Em uma análise considerada sombria, o ativista Peter Staley classificou 2025 como um dos períodos mais difíceis da história recente da epidemia, um verdadeiro “annus horribilis” — expressão usada pela Elizabeth II para descrever 1992 e posteriormente aplicada pela The Lancet ao cenário atual.
Cofundador e presidente do conselho da PrEP4All, Staley é conhecido por sua atuação no movimento ACT UP e por ter ajudado a fundar o Treatment Action Group. Ele foi diagnosticado com complexo relacionado à AIDS em 1985, enquanto trabalhava como corretor de títulos em Wall Street.
Relação entre ciência e ativismo
Durante a palestra, Staley afirmou que o envolvimento da comunidade na ciência do HIV nem sempre foi prioridade. Segundo ele, nos primeiros anos da epidemia, pesquisadores reagiam com temor às reivindicações dos ativistas, mas uma relação simbiótica se desenvolveu gradualmente.
“Aprendemos com vocês [os especialistas médicos em HIV] e ajustamos nossas demandas de acordo”, disse. “Vocês aprenderam conosco e ajustaram os ensaios clínicos e os programas de acesso. Nos tornamos mais parecidos com vocês — a ciência se tornou nossa religião compartilhada. E alguns de vocês se tornaram mais parecidos conosco, juntando-se a nós em coalizões, trabalhando em prol de diversos objetivos.”
Segundo ele, essa aliança construída ao longo de décadas foi profundamente testada em 2025.
Críticas ao segundo mandato de Donald Trump
Staley classificou o período recente como uma “guerra contra a ciência” e afirmou que o segundo mandato do presidente Donald Trump superou as expectativas negativas iniciais.
“Todos sabíamos que o segundo mandato de Trump seria pior que o primeiro”, disse. “Mas poucos de nós estávamos preparados para o nível de destruição — e a velocidade com que ela ocorreu — que começou imediatamente após sua posse.”
Ele relatou um telefonema recebido em janeiro de 2025 do imunologista Anthony Fauci, ex-diretor do National Institute of Allergy and Infectious Diseases (NIAID), que questionava rumores sobre o encerramento do PEPFAR — o Plano de Emergência do Presidente dos Estados Unidos para o Alívio da Aids.
Segundo Staley, os temores da comunidade científica se confirmaram com uma série de medidas governamentais, incluindo:
* o desmantelamento da United States Agency for International Development (USAID);
* a suspensão do financiamento do PEPFAR;
* o cancelamento de diversas bolsas dos National Institutes of Health (NIH);
* a disseminação de desinformação e ataques contra comunidades transgênero;
* a aprovação pelo Senado de Robert F. Kennedy Jr., crítico das vacinas e negacionista da aids, como Secretário de Saúde.
De acordo com o ativista, os temores se confirmaram com o desmantelamento da United States Agency for International Development (USAID), a suspensão do financiamento do PEPFAR, o cancelamento de bolsas dos National Institutes of Health (NIH), a disseminação de desinformação e ataques contra comunidades transgênero e a aprovação pelo Senado de Robert F. Kennedy Jr. como Secretário de Saúde.
O empresário Elon Musk também foi mencionado por Staley após declarar na plataforma X que a USAID seria uma “organização criminosa” e defender seu encerramento. Segundo o ativista, o Departamento de Eficiência Governamental (DOGE) liderado por Musk reduziu drasticamente o orçamento de US$ 10 bilhões destinado a intervenções contra o HIV em países pobres, enquanto a fortuna pessoal do empresário teria crescido significativamente.
Segundo o ativista, o Departamento de Eficiência Governamental (DOGE) liderado por Musk reduziu drasticamente o orçamento de US$ 10 bilhões destinado a intervenções contra o HIV em países pobres. Com a suspensão do financiamento do PEPFAR, organizações parceiras receberam ordens de paralisação das atividades, interrompendo serviços de prevenção e tratamento.
Staley relatou ter revivido lembranças pessoais ao acompanhar a situação. Ele recordou os suores noturnos que enfrentou antes do surgimento de tratamentos eficazes e disse imaginar pessoas em diversos países africanos “repentinamente privadas dos futuros promissores que almejavam, apenas algumas semanas antes”.
Impactos na ciência americana
Segundo Staley, os efeitos das políticas também atingiram fortemente a ciência nos Estados Unidos. Em fevereiro de 2025, milhares de funcionários públicos de agências de saúde foram demitidos — o maior corte na força de trabalho federal da história do país — e o quadro do NIH foi reduzido em 18%.
“Esses cortes não tiveram nada a ver com redução de custos; foram políticos: visaram mulheres e pessoas de cor em cargos de liderança, incluindo os diretores do instituto, e qualquer cargo relacionado à equidade em saúde”, afirmou.
A sucessora de Fauci no NIAID, Jeanne Marrazzo, foi demitida, supostamente devido ao foco em equidade em saúde para comunidades vulneráveis. Posteriormente, assumiu a direção executiva da Infectious Diseases Society of America (IDSA).
Staley também criticou pesquisadores que removeram termos como “diversidade” e “equidade” de pedidos de financiamento após medidas governamentais contra programas de diversidade, equidade e inclusão. “Pode-se reconhecer a natureza de redução de danos dessa abordagem, mas pareceu uma aquiescência”, disse.
Resistência e mobilização científica
Apesar do cenário, Staley afirmou que houve resistência significativa. A American Public Health Association (APHA) processou o NIH pelo cancelamento de bolsas. Embora a entidade tenha perdido na Supreme Court of the United States, parte dos financiamentos foi restabelecida e outros estão sendo reavaliados.
Quase 500 funcionários do NIH assinaram a Declaração de Bethesda, comprometendo-se com a liberdade acadêmica e políticas baseadas em evidências, e diversos profissionais de destaque renunciaram. “Esse tipo de posicionamento representou um dos momentos mais gloriosos da nossa comunidade”, afirmou.
Ele destacou ainda o fortalecimento do ativismo, comparando a resistência às políticas de vacinação de Kennedy Jr. aos primeiros anos do ACT UP, e citou a mobilização de grupos como Stand Up for Science, Defend Public Health e Science and Freedom Alliance.
Ao mesmo tempo, criticou a postura de parte da comunidade científica. “A visão antiga e arraigada — de que os cientistas devem evitar a política — e a visão mais recente — de que devem simplesmente manter-se discretos até que tudo isso termine — infelizmente, ambas prevalecem”, afirmou.
Pequenas vitórias e perspectivas futuras
Apesar das dificuldades, Staley apontou avanços recentes, como a reação bipartidária contra cortes no financiamento científico, que resultou em recursos adicionais para o NIH e o NIAID. “O PEPFAR, embora abalado e fragilizado, ainda está de pé”, disse.
Ele defendeu tanto ações coletivas de grande impacto quanto formas cotidianas de engajamento. “Se cada um de nós der o menor passo em defesa da ciência, contribuiremos para o ímpeto atual”, afirmou, sugerindo que profissionais e cidadãos se mantenham informados e pressionem candidatos democratas nas eleições presidenciais de 2028 a reconstruir a USAID e fortalecer o PEPFAR.
Ao encerrar sua fala, Staley comparou o momento atual a um dos períodos mais difíceis da resposta ao HIV, a conferência de Berlim de 1993, quando ensaios clínicos fracassados geraram forte pessimismo. Três anos depois, contudo, a terapia antirretroviral combinada revolucionaria o tratamento e salvaria milhões de vidas, incluindo a dele.
“Preciso acreditar que o pêndulo que tem oscilado contra nós neste último ano — se lutarmos por isso — acabará por voltar a oscilar”, declarou.
A palestra foi encerrada com uma mensagem de mobilização, recebendo uma ovação de pé de cientistas, profissionais de saúde, membros da comunidade e jornalistas. “Vamos começar a traçar estratégias para a luta que temos pela frente. ACT UP.”
Redação da Agência de Notícias da Aids com informações do Aidsmap



