CROI 2025: Mudanças na política dos EUA ameaçam avanços no combate ao HIV, alerta professor Chris Beyrer

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A resposta global ao HIV enfrenta ameaças sérias devido aos cortes no financiamento do governo dos Estados Unidos, ao fechamento da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) e à incerteza sobre futuros investimentos na área. O alerta foi feito pelo professor Chris Beyrer, diretor do Duke Global Health Institute, durante a Conferência sobre Retrovírus e Infecções Oportunistas (CROI 2025), realizada nesta segunda-feira em São Francisco.

Durante sua apresentação, Beyrer criticou a recente proibição do governo dos EUA sobre o uso dos termos “equidade”, “diversidade” e “inclusão” em qualquer programa financiado por recursos federais. Segundo ele, a diversidade é um elemento essencial na resposta à pandemia do HIV. “A diversidade está em nosso DNA. É quem somos. Não podemos ignorá-la porque estamos lidando com uma pandemia diversa”, afirmou.

Impacto global dos cortes no financiamento

A política de restrição de recursos públicos dos EUA teve início com o congelamento imediato da assistência externa no primeiro dia da posse do presidente Donald Trump e culminou com o fechamento abrupto da USAID. Esta agência administrava grande parte do financiamento do Plano de Emergência do Presidente dos EUA para Alívio da Aids (PEPFAR), que em 2024 destinou US$ 6,5 bilhões para programas de prevenção e tratamento do HIV em mais de 50 países.

Beyrer lembrou que a resposta global ao HIV já estava aquém das metas estabelecidas antes mesmo dos cortes. O Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (UNAIDS) previa que até 2025, 95% das pessoas diagnosticadas com HIV estariam em tratamento. No entanto, em 2023, um quarto das pessoas vivendo com HIV ainda não havia iniciado a terapia antirretroviral. A redução das mortes relacionadas à AIDS também está abaixo do esperado: enquanto a meta para 2025 é de 250 mil óbitos, 630 mil pessoas morreram por causas relacionadas ao HIV em 2023.

Regiões mais afetadas

A incidência do HIV segue alta em diversas regiões do mundo, com crescimento significativo na Europa Oriental, Ásia Central, Oriente Médio, Norte da África e, mais recentemente, na América Latina. Além disso, mesmo em locais onde a cobertura de tratamento é elevada, os números continuam preocupantes. Estudos revelam que a incidência de HIV em ensaios clínicos de prevenção segue superior a 4 por 100 pessoas-ano, representando um risco significativo para grupos vulneráveis, como mulheres na África Subsaariana e homens que fazem sexo com homens na Europa, América do Norte e América Latina.

O impacto na prevenção e no tratamento

Estima-se que 40 milhões de pessoas precisem iniciar a PrEP (profilaxia pré-exposição) para controlar a epidemia na África Subsaariana. No entanto, 91% das distribuições de PrEP eram financiadas pelo PEPFAR, e sem esses recursos, não há sustentabilidade para os programas de prevenção. Beyrer destacou que mesmo em áreas com alta adesão à PrEP, a taxa de novas infecções ainda supera os inícios de tratamento em uma proporção de 1,5 para 1.

A interrupção do financiamento também afeta diretamente os serviços essenciais para populações-chave, como trabalhadoras do sexo, homens que fazem sexo com homens, pessoas trans e usuários de drogas injetáveis. Modelagens apontam que, nos países mais dependentes do PEPFAR, a aquisição de HIV pode aumentar em 30% entre as profissionais do sexo, 20% entre homens que fazem sexo com homens e mulheres trans, e 15% entre usuários de drogas injetáveis.

Crise iminente

O futuro do PEPFAR depende de uma reautorização do Congresso até 25 de março, e o nível de financiamento ainda é incerto. A falta de recursos pode comprometer diretamente a inscrição de novos pacientes em tratamento. O PEPFAR é creditado por salvar cerca de 25 milhões de vidas e evitar que ao menos 5,5 milhões de crianças nascessem com HIV. No entanto, a modelagem feita pela própria agência aponta que o corte de recursos pode levar a 5,2 milhões de mortes relacionadas à AIDS e tornar 4 milhões de crianças órfãs entre 2024 e 2030.

O colapso da implementação do PEPFAR

Com o fechamento da USAID, que era responsável por 60% da implementação do PEPFAR, muitos serviços estão sendo encerrados. Uma pesquisa feita pela amfAR com 153 organizações em 27 países revelou que 86% delas esperam que seus pacientes percam acesso ao tratamento do HIV, 60% já demitiram funcionários e 36% encerraram atividades.

Beyrer enfatizou a necessidade de restaurar o financiamento do PEPFAR para prevenção e manter serviços essenciais. Também defendeu apoio ao Fundo Global para manter o fornecimento de medicamentos e commodities, além da proteção dos direitos humanos. Ele finalizou citando a frase do Antigo Testamento usada pelo ex-presidente George W. Bush no encerramento da primeira conferência do PEPFAR, em 2008: “Coloquei diante de vocês a vida e a morte. Portanto, escolham a vida”.

Redação da Agência Aids com informações do site Aidsmap

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