
A interrupção do tratamento do HIV pode ser fatal para crianças pequenas, especialmente para aquelas com menos de um ano de idade. Um estudo conduzido pelo Plano de Emergência do Presidente dos EUA para o Alívio da AIDS (PEPFAR) revelou que 19,6% das crianças nessa faixa etária que tiveram interrupções no tratamento em 2024 posteriormente faleceram. Os resultados foram apresentados na Conferência sobre Retrovírus e Infecções Oportunistas (CROI 2025), em São Francisco.
Os dados analisaram mais de meio milhão de crianças em tratamento antirretroviral em 53 países beneficiados pelo PEPFAR. A pesquisa reforça a necessidade de continuidade no cuidado pediátrico, já que crianças são particularmente vulneráveis à progressão rápida do HIV nos primeiros anos de vida.
Crise no financiamento ameaça programas de tratamento
A divulgação do estudo ocorre em meio a uma crise na assistência internacional dos Estados Unidos. Desde a posse do novo governo americano, em 20 de janeiro, a Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional (USAID) foi desativada, resultando no congelamento de recursos para diversos programas de saúde.
No dia 26 de fevereiro, a Elizabeth Glaser Pediatric Aids Foundation foi informada da suspensão imediata do financiamento da Usaid para seus programas de HIV em Lesoto, Eswatini e Tanzânia. Essas iniciativas garantiam tratamento para cerca de 350 mil pessoas, incluindo 10 mil crianças e mais de 10 mil mulheres grávidas vivendo com HIV.
O futuro do financiamento do PEPFAR também está em risco. O programa precisa ser reautorizado pelo Congresso dos EUA até 25 de março, mas ainda não há garantias de que os recursos permanecerão nos mesmos níveis dos anos anteriores.
Impactos das interrupções no tratamento
A ciência já demonstrou os perigos das interrupções no tratamento do HIV. No passado, acreditava-se que pausas controladas no uso de antirretrovirais poderiam minimizar efeitos colaterais, mas um estudo interrompido em 2006 mostrou que essa prática aumentava significativamente o risco de doenças graves e mortes.
No caso das crianças, estudos anteriores, como os ensaios PENTA 11 e CHER, não identificaram um aumento imediato nas doenças após a suspensão temporária do tratamento. No entanto, quedas rápidas na contagem de células CD4 – um marcador da imunidade – exigiram a retomada da medicação.
Para aprofundar a compreensão sobre os impactos da descontinuidade do tratamento infantil, os pesquisadores do PEPFAR analisaram registros de 523.285 crianças em tratamento antirretroviral em 2024. Durante esse período, 21.325 crianças sofreram interrupções.
A mortalidade foi mais alta entre bebês com menos de um ano de idade, variando de 13,6% a 19,6% por trimestre após a interrupção do tratamento. Entre crianças menores de cinco anos, a taxa de mortalidade trimestral variou de 7,5% a 10,2%.
Os dados também revelaram que a interrupção do tratamento ocorreu mais cedo entre as crianças mais novas – frequentemente nos três primeiros meses após o início da terapia antirretroviral. Já entre crianças mais velhas, o abandono do tratamento foi mais comum após pelo menos seis meses de uso dos medicamentos.
Desafios na retomada do tratamento
Outro dado preocupante do estudo é a dificuldade de trazer as crianças de volta ao sistema de saúde após uma interrupção no tratamento. Desde 2022, o número de interrupções inexplicáveis superou o de crianças que retornaram ao cuidado médico.
A pesquisadora Michelle Yang, do Departamento de Estado dos EUA, enfatizou a necessidade de fortalecer serviços comunitários e modelos de cuidado centrados na família para garantir maior adesão ao tratamento. Ela também destacou a importância de estratégias como testagem no ponto de atendimento e exames familiares após um diagnóstico de HIV, para melhorar o diagnóstico precoce em crianças.
Com o financiamento do PEPFAR sob ameaça, especialistas alertam que a continuidade do tratamento infantil pode ser ainda mais comprometida, agravando os riscos para milhares de crianças vivendo com HIV.
Redação da Agência Aids com informações do site Aidsmap


