Crise silenciosa: estudo da ABIA denuncia retração no financiamento internacional para HIV/aids e alerta para riscos à sustentabilidade das ONGs brasileiras

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O financiamento internacional foi, por décadas, um dos pilares centrais da resposta à pandemia de HIV em todo o mundo. No Brasil, esse apoio externo foi estratégico para fortalecer organizações da sociedade civil (OSCs), sobretudo aquelas que atuam junto às populações mais vulnerabilizadas, como pessoas vivendo com HIV, LGBTQIA+, mulheres negras, trabalhadoras do sexo e usuários de drogas. No entanto, esse pilar está ruindo — silenciosamente.

É o que mostra a pesquisa inédita “Uma análise crítica das Tendências de Financiamento Internacional para Atividades em HIV e Aids (1981-2022)”, assinada por Jane Galvão, Veriano Terto Jr. e Richard Parker, e publicada pela Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (ABIA). Lançado nesta quarta-feira, 03 de julho, o estudo reconstrói, em detalhes, as transformações no cenário global do financiamento à resposta ao HIV e revela um quadro alarmante de desinvestimento, desmobilização e retrocessos — especialmente nos países do Sul global.

Inicialmente, os autores se propuseram a analisar o panorama do financiamento voltado para ONGs brasileiras que atuam com HIV/Aids. Mas ao longo do percurso da pesquisa, perceberam que seria impossível compreender esse fenômeno sem ampliar o olhar para a arquitetura mais ampla da resposta global à pandemia. A retração de recursos não é isolada — ela está diretamente vinculada a mudanças na política internacional, à ascensão da extrema direita, à reorganização da filantropia e à perda de prioridade do HIV/Aids nas agendas de saúde pública.

Um panorama de 40 anos: da solidariedade ao colapso anunciado

A análise cobre o período de 1981 a 2022, ano que marcou o fim da gestão Bolsonaro e a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva. O recorte temporal permite observar como decisões políticas, nacionais e internacionais, impactam diretamente o financiamento e a sustentabilidade das respostas em saúde.

A pesquisa é organizada em cinco períodos, cada um representando uma “onda” na resposta ao HIV. No início dos anos 1980, as ações eram movidas por solidariedade e protagonizadas por pessoas diretamente afetadas pela epidemia. No Brasil, a fundação da ABIA por Herbert de Souza, o Betinho, em 1987, e os primeiros encontros nacionais de ONGs/aids ilustram esse momento de mobilização comunitária.

Com o tempo, o HIV entrou na agenda do desenvolvimento internacional, atraindo grandes doadores como Fundação Ford, Banco Mundial, USAID, e, mais tarde, o Fundo Global. A partir dos anos 2000, cresceu o modelo das parcerias público-privadas e o que os autores chamam de “filantrocapitalismo” — uma filantropia com lógica empresarial. Já nos anos 2010, com o discurso do “fim da aids” e o surgimento de outras prioridades globais, como a crise climática e a Covid-19, o HIV foi sendo progressivamente marginalizado.

“Estamos vivendo o que chamamos de ‘tempestade perfeita’”, alerta a publicação. O desmonte das políticas públicas, a ascensão de governos conservadores e a concentração de recursos em poucos atores — como a indústria farmacêutica — colocam em xeque tudo o que foi conquistado em mais de quatro décadas de enfrentamento da epidemia.

Bolsonaro, Trump e o desmonte da solidariedade

A pesquisa também oferece um olhar crítico sobre os efeitos da gestão Bolsonaro (2019-2022), marcada pela destruição de políticas sociais, pelo ataque à participação social e pelo enfraquecimento da política nacional de HIV/aids. Segundo os autores, o Brasil viveu, nesse período, uma crise de saúde pública sem precedentes, agravada pela pandemia de Covid-19, que desviou atenção e recursos de outras áreas.

Preocupados com o futuro, os autores incluíram um posfácio inédito sobre os impactos da reeleição de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos, em 2025. As primeiras medidas do novo mandato de Trump já indicam uma postura hostil à cooperação internacional e às agendas de saúde pública, o que tende a agravar a retração dos investimentos em HIV/aids, especialmente para países do Sul global.

“Ao lançar luz sobre essa retração dos investimentos, a publicação busca reativar o debate público sobre a importância de manter — e ampliar — os recursos destinados às ONGs que atuam com HIV/Aids”, diz a ABIA.

O apagamento das OSCs e o risco de retrocesso

O estudo da ABIA alerta que não se trata apenas de uma crise de financiamento, mas de uma crise política, estrutural e ética. As organizações da sociedade civil, muitas delas nascidas da luta pela vida nos anos 1980 e 1990, vêm sendo lentamente asfixiadas por falta de recursos, com impacto direto sobre as populações que atendem e as políticas que ajudam a formular.

Segundo dados do Ministério da Saúde, de 1980 a junho de 2022, o Brasil notificou 1.088.536 casos de aids e registrou 382.521 mortes com HIV/aids como causa básica. Ainda assim, não há atualmente um mapeamento nacional atualizado das ONGs/aids em atividade. Essa invisibilidade institucional reflete a crise de sustentabilidade enfrentada pelo setor — que precisa, urgentemente, ser resgatado como parte estratégica da resposta à epidemia.

Um chamado à ação

Num momento de insegurança política internacional, colapso do multilateralismo e crise da solidariedade global, a publicação da ABIA atua como denúncia e convocação. Os autores defendem que a resposta ao HIV seja recolocada no centro das agendas de saúde global e justiça social — com financiamento contínuo, protagonismo comunitário e respeito aos direitos humanos.

“A publicação é um alerta. O futuro das políticas de enfrentamento à epidemia de HIV — no Brasil e no mundo — depende da nossa capacidade coletiva de sustentar e reinventar formas de cuidado, ativismo e financiamento”, concluem.

Clique aqui e leia a publicação na íntegra.

Redação da Agência de Notícias da Aids

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Tel.: (21) 2223-1040

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