Crescimento da aids no Brasil é destaque no ‘Huffington Post’

Ouça esta postagemCarregando...
1.0x

11/08/2014 – 19h50

O portal americano de notícias e blogs traz uma grande reportagem, assinada por Adriana Gomez Licon, mostrando o atual cenário da aids no Brasil, com o avanço dos novos casos, especialmente entre a população jovem. Especialistas, ativistas, gestores e pessoas vivendo com HIV/aids foram ouvidos. “É um paradoxo, uma vergonha”, diz o infectologista Caio Rosenthal, sobre a subida dos números.

Segundo a matéria, o diretor do Departamento de DST/Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde, Fábio Mesquita, afirmou que campanhas de TV no horário nobre são coisa do passado e sua equipe está estudando formas de atingir os mais jovens através da internet e de smartphones. Ex-diretores do Departamento, como Pedro Chequer e Dirceu Greco também foram ouvidos. Leia na íntegra abaixo ou acessando aqui:

Brasil observa crescimento nos casos de HIV

A notícia devastadora não fazia sentido para brasileiro Pierre Freitaz. Como foi possível que, aos 17 anos, ele tivesse se infectado com o HIV se o seu único namorado parecia em forma e saudável?

Freitaz admite que sabia pouco sobre o vírus quando foi diagnosticado em 2004. Ele não entendia a diferença entre a infecção e a doença que ela causava: aids. Freitaz estava confuso pela falta de sintomas evidentes. "É como se eu estivesse vivendo numa parte diferente do mundo e eu me sentia imune."

Enquanto o Brasil tem sido visto como modelo mundial na luta contra a aids, ativistas e autoridades dizem que mais e mais jovens compartilham com Freitaz o desconhecimento dos riscos do HIV ou não se preocupam com eles. Mesmo que as taxas de infecção por HIV tenham começado a diminuir em muitos outros lugares, os casos foram subindo lentamente no Brasil, com o salto mais acentuado entre os jovens de 15 a 24 anos.

“Os números estão subindo. É um paradoxo, uma vergonha. Depois de todo o dinheiro gasto com o tratamento e a implementação de uma política para que todos possam recebê-lo, nós temos esses resultados desastrosos", disse Caio Rosenthal, médico do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, em São Paulo.

Estatísticas da Organização das Nações Unidas (ONU) mostram 44 mil novas infecções detectadas no ano passado no Brasil, contra menos de 40 mil em 2005 — uma taxa que ultrapassa o crescimento da população. O Ministério da Saúde diz que números globais de infecções por HIV atingiram quase 800 mil. Isso é metade de todos os casos de HIV em toda a América Latina.

Em comparação, nos Estados Unidos, a taxa de novos casos de HIV caiu em um terço na última década, de acordo com um estudo publicado no mês passado no “Journal of the American Medical Association”. Estima-se que cerca de 1,1 milhões de americanos estejam infectados com o HIV.

Quando a epidemia global de aids estourou na década de 1980, as autoridades reagiram rapidamente. O Brasil realizou campanhas de educação sexual generalizada e se tornou o primeiro país em desenvolvimento a oferecer tratamento antirretroviral gratuito em larga escala. O ritmo de mortes caiu e a transmissão de mãe para filho foi cortada bruscamente.

Autoridades dizem que o aumento persistente dos casos poderia ser, em parte, o resultado de melhores sistemas de monitoramento do vírus. Outros culpam a oposição religiosa às campanhas de educação sexual, ou dizem que alguns jovens acreditam erroneamente que o progresso no tratamento da aids significa que a doença é um problema do passado.

A dominante Igreja Católica do Brasil desaprova o uso de preservativos, mas a principal resistência às campanhas de educação sexual vem de cristãos evangélicos, cuja participação na população do Brasil saltou de 5% para 22% entre 1970 e 2010, tornando-se uma força política cada vez mais influente .

Dirceu Greco, ex-chefe do Departamento Nacional de Doenças Sexualmente Transmissíveis, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde, disse que a oposição de líderes evangélicos "tem causado retrocesso notório" na política de aids.

Outro ex-líder do programa, Pedro Chequer, se queixou de que as restrições prejudicaram campanhas visando as populações vulneráveis, como gays e profissionais do sexo. "Houve um retrocesso muito claro. O Brasil costumava estar na linha da frente, mas agora é como qualquer outro país", disse Chequer, que é visto por muitos como líder na luta contra a aids no Brasil.

Nos últimos dois anos, por exemplo, o governo federal determinou que as escolas parassem de distribuir gibis e outros materiais destinados a jovens com histórias incentivando o uso de preservativos para prevenir HIV e gravidez na adolescência. Ativistas também reclamam que o governo desistiu da veiculação de anúncios de TV incentivando uso da camisinha mostrando gays trocando carícias em uma boate ao discutir sexo seguro. As autoridades de saúde insistem que os anúncios nunca foram destinados às grandes redes de televisão, mas sim para nichos menores de audiência.

O atual diretor do Departamento de DST/Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde, Fábio Mesquita, afirmou que campanhas de TV em todo o país no horário nobre são uma coisa do passado, pois sua equipe está estudando formas de atingir os mais jovens, as populações mais vulneráveis, através da internet e smartphones.

Ele colocou grande parte da culpa do aumento de infecções na confiança equivocada entre os mais jovens que não experimentaram a era mais mortal da doença: "A nova geração já não tinha medo de nada, tudo estava OK. Ter relações sexuais sem camisinha era um risco que eles estavam dispostos a assumir. "
O governo diz que os gastos com educação e prevenção está aumentando, mas Mesquita disse que a luta contra o HIV deve se expandir para além da educação sobre sexo seguro: "Temos de parar de pensar em preservativos como a única alternativa para prevenir a infecção."

Ele disse que um caminho é um programa de expansão para dar antirretrovirais a todos os pacientes infectados, mesmo que ainda não existam sinais de que o vírus tenha enfraquecido os sistemas de defesa de seus corpos. Estudos têm sugerido que as pessoas HIV positivas que começam a tomar medicamentos nessa fase inicial tem 96% menos probabilidade de infectar outras pessoas.

Brasil está estudando uma outra medida, a profilaxia pré-exposição (PrEP), que consiste na ingestão de um comprimido diário que visa proteger aqueles que não estão infectados. O governo dos Estados Unidos emitiu orientações em maio para utilizar esse processo.

O Brasil já tem sido um líder no tratamento de aids. Em oito anos, dobrou o número de pacientes com HIV em tratamento para mais de 350 mil, a um custo de mais de US$ 420 milhões. Ainda assim, muitos dizem que campanhas educativas são essenciais.

"Precisamos começar a falar sobre como trazer de volta a questão para as escolas e convencer os evangélicos a participar para que sejamos todos mais abertos sobre o problema", disse Beto de Jesus, que coordenou um projeto de testagem entre gays e travestis em unidades móveis de saúde em várias cidades brasileiras.

Freitaz, que vive com HIV há uma década, é voluntário no Grupo de Incentivo à Vida (GIV) em São Paulo, onde um em cada seis homens gays vivem com HIV. A organização promove testes de HIV para que portadores sejam tratados antes de infectar outras pessoas. Freitaz diz que muitas vezes atende jovens que não estão mais preocupados com HIV. "Eles acham que a medicação é tão simples como aspirina", disse Freitaz. "Eles não têm idéia."

Apoios