Cresce número de mulheres infectadas com HIV em relações estáveis, publica portal Uai

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08/10/2014 – 19h45

Dificuldade de negociar o uso do preservativo, a violência por parte dos companheiros e acreditar muito nas juras de fidelidade estão entre os motivos que tornam as mulheres vulneráveis à infecção por HIV. É o que mostra reportagem de Zulmira Furbino, no Portal UOL. A ativista carioca Cida Lemos, do Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas, é entrevistada e conta como perdeu a visão após descobrir, tardiamente, que havia sido infectada pelo marido. Leia a matéria a seguir:

Maria Aparecida Lemos, de 59 anos, é professora aposentada. Depois de se separar do marido, teve relacionamento estável durante três anos. Dois anos depois que o namoro acabou, Cida, como é conhecida pelos amigos, adoeceu. Perdeu cabelo, viu surgirem manchas na pele, chegou a perder 47kg. Enquanto isso ocorria, procurou vários médicos na tentativa de encontrar um diagnóstico.

A via-crúcis em busca de uma resposta para os seus problemas acabou quando um reumatologista resolveu pedir que ela fizesse um teste de HIV. O resultado não poderia ser mais supreendente para uma profissional da educação que não namorava há pelo menos 24 meses e sempre foi monogâmica, certinha e fiel em sua vida amorosa: soropositiva. Por causa da demora em descobrir a doença, Cida foi acometida por uma infecção oportunista e perdeu a visão.

A contaminação pela aids por meio de relacionamentos heterossexuais estáveis entre as mulheres é assustadora – e muito mais comum do que se imagina. Do total de casos entre mulheres no Brasil em 2012, segundo dados do Sistema de Informações de Agravos de Notificação (Sinan) no final de 2013, 86,8% decorreram de relações heterossexuais com pessoas infectadas com o HIV. O restante por transmissão sanguínea e vertical. E isso não é de hoje.

De acordo com a epidemiologista holandesa e presidente da Associação Para Saúde Socioeducativa, Irene Adams, que publicou o primeiro trabalho sobre as mulheres e aids num congresso internacional em 1989, de lá para cá nada mudou. Em 2001, num outro trabalho publicado, ela mostrou que os heterossexuais só descobrem que têm HIV quando estão morrendo.

“Um assunto que me preocupa há muito tempo é o desconhecimento da epidemia entre mulheres. O tratamento hoje é muito eficaz. O que propaga a epidemia é que as pessoas não sabem que são portadoras do vírus”, explica Irene. “Essa situação fica ainda mais complicada quando os envolvidos são do sexo feminino, já que as mulheres continuam enfrentando dificuldades de negociar o uso de preservativos com seus parceiros, mesmo quando desconfiam que ele está sendo infiel. Porque, ao fazerem isso, ela própria começa a ser acusada de infidelidade. Em muitos casos, apanha do marido e depende dele para se sustentar”, observa.

Documentário

A professora Cida é uma das sete soropositivas que participaram do documentário “Positivas”, produzido e dirigido por Suzanna Lira. O filme conta a história e a luta de sete mulheres que confiaram nos votos de fidelidade de seus parceiros e foram surpreendidas ao se descobrirem infectadas. “Quando soube que estava com aids, tive muita raiva de mim. Fui irresponsável e ao mesmo tempo responsável pelo que aconteceu comigo porque permiti que meu parceiro deixasse de usar preservativo. No começo até que usávamos, mas o tempo passou e paramos. A gente acha que o amor imuniza e não há necessidade de maiores cuidados e, se somos fiéis, para que usar preservativos? Mas isso é um erro”, sustenta Cida.

De acordo com a professora, pior do que receber a notícia da doença foi perder a visão e, com ela, sua independência. “Fiquei um ano chorando, com raiva da vida, de mim e de Deus. Mas depois percebi que doença não é castigo. Reagi e me transformei em ativista da luta contra a aids”, conta.

Janela imunológica

O infectologista Antônio Carlos Toledo Júnior explica que é justamente o fato de essas mulheres não fazerem parte do grupo de risco que as expõe à possibilidade de contaminação. “O risco é dos parceiros. Por isso, muitas vezes elas descobrem tardiamente o diagnóstico. Não procuram assistência por ignorar que podem estar infectadas. Não raro, o diagnóstico é dado primeiro ao parceiro e só depois o exame é pedido à parceira”, explica.

Apesar do aumento de casos entre mulheres, ele acredita que o número de diagnósticos é maior hoje. “Estamos vivendo um momento difícil: a banalização da doença, decorrente dos avanços no tratamento.” Ainda segundo o médico, os exames devem ser feitos sempre com aconselhamento médico, já que há casos de falsos positivos e falsos negativos. “A pessoa pode estar no período de janela imunológica, que chega a seis meses. O importante é procurar um médico e se aconselhar para fazer o exame”, orienta.

Trabalho de peso

Há 26 anos, a epidemiologista Irene Adams fundou em Belo Horizonte a Ação Multiprofissional com Meninos em Risco, mais conhecida como Clínica Ammor, para a prevenção, detecção precoce e acompanhamento da infecção por HIV entre meninos e meninas em risco social. A ideia nasceu de um projeto de pesquisa com o objetivo de determinar os fatores de risco como base para um trabalho de prevenção e de doenças sexualmente transmissíveis (DSTs) entre crianças e jovens moradores de rua.
Atuando como uma clínica ambulatorial, a Ammor é hoje referência entre a população em risco social e baseia seu atendimento em três atividades: atendimento médico (enfermagem, pronto atendimento, check up, planejamento familiar, ginecologia, psicologia clínica, nutrição), intervenções educativas entre os jovens e capacitação dos educadores.

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