
Em uma cidade marcada pela pressa, pela desigualdade e por tantas exclusões, existe um espaço que insiste em remar contra a corrente: o Centro de Referência da Diversidade Brunna Valin (CRD), agora conhecido também como Centro de Cidadania LGBT Brunna Valin (CRLGBT Brunna Valin). Localizado na região central de São Paulo, o CRD é um território de resistência e afeto. Desde 2008, o serviço é gerido pelo Grupo Pela Vidda São Paulo, uma organização histórica no enfrentamento ao HIV/aids e à discriminação, e carrega em seu nome a memória e a luta de Brunna Valin, mulher trans e ativista dos direitos humanos, cuja trajetória inspira a missão do centro: acolher a diversidade e enfrentar a LGBTfobia com dignidade, políticas públicas e amor.
Mais do que um local de atendimento, o CRD é casa para quem já teve tantas portas fechadas. É ali que pessoas LGBTQIA+ em situação de rua, vítimas de violência, vivendo com HIV ou enfrentando discriminação estrutural encontram não apenas um serviço, mas uma rede de cuidado. Sob a coordenação do educador social e ativista Eduardo Barbosa, o espaço reafirma diariamente que existir com orgulho e dignidade é um direito inegociável.

“Estamos dizendo para cada pessoa que chega aqui: você tem direito de existir, de ser respeitada, de sonhar com uma vida digna. Isso é revolucionário num país que ainda insiste em apagar nossos corpos e nossas histórias”, disse Eduardo Barbosa.
Uma resposta concreta à LGBTfobia

O Brasil segue liderando os trágicos rankings de violência contra pessoas LGBTQIA+. Para Eduardo, o CRD surge justamente como resposta a esse cenário:
“Nosso papel é oferecer escuta, acolhida e encaminhamentos. Mas, sobretudo, empoderar as pessoas com instrumentos e informações para enfrentar e superar a violência. Transformar a visão da sociedade exige ação coletiva, mas começa com o fortalecimento de quem vive essa realidade na pele.”
Essa violência se expressa de forma cotidiana e muitas vezes silenciosa. Entre os casos mais recorrentes atendidos pelo centro estão:
* Negação do nome social em bancos, hospitais e serviços públicos
* Discriminação no acesso à moradia e ao crédito
* Entrevistas de emprego com teor transfóbico
* Impedimento ao uso de banheiros
* Estigmatização no mercado de trabalho
* Violência institucional e familiar
Frente a essas realidades, o CRD atua com acolhimento psicossocial, orientação jurídica, mediação de conflitos e articulação com a rede de serviços públicos. Mas, para Eduardo, acolher é mais do que prestar um atendimento:
“É olhar no olho, escutar com empatia e caminhar junto. Cada pessoa que chega aqui é única. Trabalhamos com metas construídas em conjunto, respeitando os tempos, desejos e possibilidades de cada uma.”

Entre avanços e desafios nas políticas públicas
Nos últimos anos, políticas como o Transcidadania e o *Respeito Tem Nome* têm representado avanços importantes, promovendo escolarização, renda e visibilidade para travestis e mulheres trans. A criação de conselhos municipais e estaduais LGBTQIA+ também representa um avanço na escuta das bases.
No entanto, Eduardo alerta que ainda há muito por fazer: “Faltam políticas específicas para lésbicas, gays e bissexuais. Ainda temos uma atuação frágil em comunicação e educação para o enfrentamento da LGBTfobia. E a violência, alimentada por discursos de ódio, ainda nos atinge com força. É preciso investir mais em acolhimento, formação e serviços como o CRD.”
A importância da retificação de nome
Entre os pilares do CRD está também a atuação intensa na retificação de nome e gênero, um direito essencial para a afirmação da identidade de pessoas trans e travestis. Desde sua fundação, o CRD encaminha essa demanda para a Defensoria Pública do Estado de São Paulo, mas também buscou construir alternativas que tornassem esse processo mais acessível à população atendida.

Entre 2012 e 2018, o Grupo firmou um convênio com o GEDS – Grupo de Estudos em Direito e Sexualidade da Faculdade de Direito da USP/Centro Acadêmico XI de Agosto, que atendeu 728 pessoas nesse período.
Com a publicação do Provimento 73/2018 do CNJ, que autorizou a retificação administrativa nos cartórios de Registro Civil das Pessoas Naturais (RCPN), o processo se tornou mais acessível em teoria, mas, na prática, continuou oneroso e excludente para muitas pessoas em situação de vulnerabilidade.
Assim, o CRD manteve os encaminhamentos para a Defensoria Pública e buscou novas parcerias. Em 2021, com o lançamento do Programa “Respeito Tem Nome” pela Prefeitura de São Paulo, ainda com atuação tímida, o centro intensificou os esforços para suprir a demanda.
Os avanços mais significativos vieram nos últimos anos:

Em 2023, o CRD firmou parceria com o POUPATRANS e realizou dois mutirões de retificação, um em abril de 2023 e outro entre março e abril de 2024, beneficiando 149 pessoas.
Também em 2023, uma parceria com o Escritório Gaiofatto e Galvão garantiu a retificação de 17 pessoas até 2025.
Em fevereiro de 2024, outro mutirão, agora com a Defensoria Pública, atendeu 84 pessoas para ingresso de ações judiciais.
E finalmente, em 2024, o “Respeito Tem Nome” passou a receber as demandas encaminhadas pelo CRD/Grupo Pela Vidda, atendendo 30 pessoas até o momento.
Mais do que números, cada retificação representa uma vitória simbólica e concreta na vida de quem por tanto tempo teve sua identidade negada.
Saúde, moradia e dignidade: o que ainda falta?

Pessoas LGBTQIA+ ainda enfrentam múltiplas barreiras no acesso a saúde, educação, moradia e trabalho. A LGBTfobia institucional, somada à exclusão social, cria um ciclo de vulnerabilidade que afeta principalmente as pessoas trans e negras.
Eduardo reforça que o CRD atua na mediação com serviços públicos, realiza encaminhamentos, promove formações e oficinas, e integra redes intersetoriais para garantir o acesso a políticas públicas.
“O CRD é parte de uma rede maior, que articula com serviços de saúde, assistência social, defensoria, movimentos sociais e outras organizações. É essa força coletiva que nos permite transformar vidas.”
O que move a luta?
Ao ser perguntado sobre o que o motiva a continuar nessa luta, Eduardo é direto: “O que me move é o amor e o compromisso com a justiça social. Cada pessoa que chega aqui com medo, com dor, com vergonha, e sai com autoestima, com dignidade e com voz… isso me move. Cada vida transformada é um lembrete de que vale a pena continuar.”
Um legado vivo

No dia 17 de maio, quando o mundo reflete sobre os impactos da LGBTfobia, o CRD Brunna Valin se levanta como um símbolo vivo de resistência. Em cada roda de conversa, em cada atendimento, em cada abraço, a memória de Brunna Valin se mantém presente — como farol que ilumina o caminho da dignidade, da cidadania e da liberdade.
Redação da Agência de Notícias da Aids
Dica de entrevista
CRD Brunna Valin
Tel.: (11) 3151-5786


