Enquanto os marfinenses tentam reduzir a transmissão do HIV de mãe para filho, os equatorianos enfrentam um adversário que persiste há décadas: o estigma e a discriminação
A Copa do Mundo costuma aproximar países que dificilmente dividiriam o mesmo caminho fora dos gramados. Neste domingo (14), em Filadélfia, nos Estados Unidos, Costa do Marfim e Equador se enfrentam pela primeira vez na história do futebol. O duelo coloca frente a frente duas seleções que chegam embaladas por boas campanhas nas eliminatórias e carregando grandes expectativas para a competição.
Os equatorianos terminaram as Eliminatórias Sul-Americanas atrás apenas da atual campeã mundial, Argentina. Já os marfinenses lideraram seu grupo nas eliminatórias africanas e chegam ao Mundial impulsionados pelo título da Copa Africana de Nações conquistado em 2024.
Mas, longe dos estádios, as duas nações também participam de outra disputa. Uma disputa silenciosa, travada diariamente em hospitais, centros de saúde, organizações comunitárias e políticas públicas. A luta contra o HIV.
Embora apresentem realidades muito diferentes, Costa do Marfim e Equador compartilham um objetivo comum: avançar rumo ao controle da epidemia e alcançar as metas globais estabelecidas pelo Unaids.
Costa do Marfim avança, mas transmissão vertical ainda preocupa

A Costa do Marfim possui uma das maiores prevalências de HIV da África Ocidental. Segundo dados do Unaids, cerca de 410 mil pessoas vivem com HIV no país. A prevalência entre adultos é estimada em 2%, índice significativamente superior ao observado em muitos países da América Latina e da Europa.
Apesar disso, os indicadores mostram avanços importantes. Em 2024, foram registrados aproximadamente 8.200 novos diagnósticos, número inferior aos 9.200 registrados em 2022. O país também vem se aproximando gradualmente das metas globais 95-95-95.
Atualmente, 85% das pessoas vivendo com HIV conhecem seu diagnóstico. Entre elas, 92% realizam tratamento antirretroviral e 89% já alcançaram supressão viral. Os resultados refletem décadas de investimentos em programas de prevenção, ampliação da testagem e fortalecimento da rede de assistência.
O desafio que começa antes do nascimento
Mas existe um indicador que continua preocupando especialistas e autoridades de saúde. A transmissão vertical do HIV. Atualmente, cerca de 9% das crianças expostas ao vírus durante a gestação, o parto ou a amamentação acabam sendo infectadas.
O índice está acima das metas internacionais para eliminação da transmissão materno-infantil. Parte dessa preocupação está relacionada à redução da cobertura do tratamento entre mulheres grávidas vivendo com HIV.
Segundo dados do Unaids, em 2022 cerca de 95% das gestantes soropositivas recebiam terapia antirretroviral. Em 2024, esse percentual caiu para 88%.
A redução acendeu um alerta entre especialistas, já que o tratamento adequado durante a gravidez é uma das estratégias mais eficazes para impedir a transmissão do vírus ao bebê.
Mulheres são as mais afetadas
A epidemia marfinense é considerada generalizada. Isso significa que o HIV está disseminado na população em geral e não apenas concentrado em grupos específicos. As mulheres representam aproximadamente 60% dos novos diagnósticos registrados no país.
Questões sociais, econômicas e de desigualdade de gênero ajudam a explicar parte dessa vulnerabilidade. Nos últimos anos, programas apoiados pelo PEPFAR, pelo Fundo Global e pelo Unaids ampliaram o acesso à prevenção e ao tratamento.
A PrEP passou a integrar de forma estruturada as estratégias nacionais a partir de 2017. Atualmente, quase 39 mil pessoas já utilizaram a profilaxia pré-exposição por meio do sistema público de saúde marfinense.
Equador mantém avanços, mas enfrenta barreiras invisíveis

Do outro lado do campo estará um país que apresenta indicadores diferentes. Segundo o Unaids, cerca de 52 mil pessoas vivem com HIV no Equador. A prevalência estimada é de 0,3% entre adultos de 15 a 49 anos.
Em 2024, aproximadamente 1.900 novas infecções foram registradas, mantendo estabilidade em relação aos anos anteriores. O país também apresenta avanços consistentes em direção às metas globais.
Cerca de 92% das pessoas vivendo com HIV conhecem seu diagnóstico. Entre elas, 89% realizam tratamento antirretroviral. E 92% alcançaram supressão viral.
Os números demonstram uma rede de assistência relativamente consolidada, baseada no acesso universal ao tratamento e na ampliação das estratégias preventivas.
O preconceito continua sendo um adversário
Mas nem todos os obstáculos aparecem nas estatísticas. Após mais de três décadas de enfrentamento da epidemia, o Equador ainda convive com um problema que acompanha a história do HIV desde os primeiros anos: o estigma.
Organizações da sociedade civil apontam que o preconceito continua sendo uma das principais barreiras para o diagnóstico precoce e para a busca por atendimento.
Muitas pessoas ainda escondem sua condição sorológica por medo de rejeição familiar, discriminação social ou impactos na vida profissional. Essa realidade afeta especialmente populações historicamente vulnerabilizadas.
Homens que fazem sexo com homens apresentam prevalência estimada em 16%. Entre mulheres trans, o índice alcança 31%. São grupos que continuam enfrentando desafios relacionados ao acesso à saúde, proteção de direitos e combate à discriminação.
Uma política construída ao longo de décadas
Os avanços observados hoje começaram a ganhar força a partir de 2007. Naquele período, o governo equatoriano ampliou programas nacionais de prevenção, assistência e combate à transmissão vertical.
O Brasil foi um dos parceiros internacionais que colaboraram com o fortalecimento dessas políticas. Em 2009, a adoção de uma licença compulsória para um medicamento antirretroviral permitiu ao país reduzir custos e ampliar o acesso ao tratamento.
Mais recentemente, a PrEP tornou-se uma das principais apostas na prevenção. Inicialmente voltada para populações-chave, a estratégia foi incorporada oficialmente às políticas nacionais em 2020. Atualmente, dezenas de unidades públicas oferecem acesso gratuito ao medicamento em cidades como Quito e Guayaquil.
Duas realidades, uma mesma meta
Quando Costa do Marfim e Equador entrarem em campo, o confronto colocará frente a frente duas respostas distintas ao HIV. Na África Ocidental, o desafio é reduzir uma epidemia generalizada e proteger mães e crianças da transmissão vertical.
Na América do Sul, a missão passa por ampliar o acesso à prevenção e combater o preconceito que ainda afasta muitas pessoas do cuidado. Os contextos são diferentes. Os números também. Mas o objetivo é o mesmo. Garantir que mais pessoas conheçam seu diagnóstico, tenham acesso ao tratamento e possam viver com qualidade de vida.
Porque, assim como no futebol, a luta contra o HIV também é feita de etapas. E cada avanço conquistado aproxima o mundo de uma vitória que interessa a todos.
Redação da Agência de Notícias da Aids



