Primeiras evidências globais mostram impacto das interrupções no maior programa de combate ao HIV do mundo; pesquisas apontam fechamento de unidades de saúde, interrupção de serviços e redução histórica do tratamento pediátrico
A resposta global ao HIV começa a medir os efeitos da maior crise recente de financiamento da resposta à epidemia. Pela primeira vez, estudos internacionais apresentam evidências concretas de que as interrupções no Plano de Emergência do Presidente dos Estados Unidos para o Alívio da Aids (PEPFAR) — considerado o maior programa global de enfrentamento ao HIV já criado — provocaram o fechamento de 1.714 unidades de atendimento, comprometeram serviços essenciais de prevenção e tratamento e deixaram 77.163 crianças vivendo com HIV sem tratamento apoiado pelo programa em apenas um ano.
Os resultados serão apresentados durante a 26ª Conferência Internacional de Aids (Aids 2026), promovida pela International Aids Society (IAS), que acontece entre 26 e 31 de julho, no Riocentro, no Rio de Janeiro, reunindo pesquisadores, pessoas vivendo com HIV, gestores, profissionais de saúde, financiadores, representantes da sociedade civil e jornalistas de todo o mundo.
Divulgados na coletiva oficial de destaques científicos da conferência, os estudos estão entre os milhares de trabalhos selecionados para a programação científica e oferecem um retrato inédito dos impactos provocados pelas mudanças no principal programa internacional de combate ao HIV. A apresentação ocorre em um momento considerado decisivo para a resposta global à epidemia, marcado por cortes em programas de prevenção, diagnóstico e tratamento e por uma crise de financiamento sem precedentes.
Não por acaso, a edição de 2026 da conferência adotou como tema “Rethink. Rebuild. Rise.” (Repensar. Reconstruir. Superar.), propondo uma reflexão sobre os caminhos para reconstruir a resposta global ao HIV.
Para a presidente da IAS, copresidente da Aids 2026 e diretora da Unidade de Pesquisa Clínica em HIV/Aids do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (Fiocruz), Beatriz Grinsztejn, o momento exige que os avanços científicos sejam acompanhados por investimentos consistentes e compromisso político.
“A ciência está avançando rapidamente, oferecendo ferramentas cada vez mais poderosas para prevenção e tratamento do HIV. Mas esses avanços não salvarão vidas se nunca chegarem às pessoas que deles precisam. Isso exige financiamento robusto e estável, além de compromisso político permanente.”
O primeiro retrato global das interrupções no PEPFAR
Criado em 2003, o PEPFAR transformou a resposta mundial ao HIV ao financiar programas de prevenção, diagnóstico e tratamento em dezenas de países, sobretudo na África. Em pouco mais de duas décadas, a iniciativa contribuiu para salvar mais de 26 milhões de vidas e foi decisiva para impulsionar o avanço rumo às metas globais 95-95-95, estabelecidas pelo Unaids para ampliar o diagnóstico, o tratamento e a supressão viral.
Durante o primeiro governo de Donald Trump, o programa manteve sua expansão. Desde o início do segundo mandato presidencial, porém, passou por mudanças administrativas e financeiras que começaram a comprometer sua operação em diversos países.
As primeiras evidências desse impacto serão apresentadas na Aids 2026 por meio do PEPFAR Pulse Study, o primeiro levantamento internacional em larga escala realizado com organizações responsáveis pela implementação do programa.
A pesquisa ouviu 166 parceiros executores em 46 países e documentou, pela primeira vez, a dimensão das interrupções provocadas pelas mudanças nas políticas e no financiamento norte-americanos.
Mais da metade (52%) das organizações participantes informou ter perdido pelo menos um contrato de financiamento do PEPFAR. Além disso, 77% relataram ter sido obrigadas a restringir suas atividades para atender às novas exigências estabelecidas pelo governo dos Estados Unidos.
O impacto foi imediato. Pelo menos 1.714 unidades de atendimento deixaram de funcionar, entre elas 1.010 serviços públicos de saúde, 325 pontos de acesso aos serviços e 126 centros de acolhimento (drop-in centres) destinados principalmente às populações em situação de maior vulnerabilidade. Segundo os pesquisadores, as organizações locais foram as mais afetadas pelas interrupções.
Populações-chave perderam acesso aos serviços
Os dados mostram que os cortes atingiram justamente os grupos mais vulneráveis ao HIV. Entre as organizações responsáveis pela oferta de tratamento, 21% interromperam definitivamente pelo menos uma atividade clínica voltada ao cuidado de pessoas vivendo com HIV. Também foram registradas dificuldades para manter insumos considerados essenciais ao enfrentamento da epidemia.
Quase um quarto das organizações relatou falta de preservativos (23%) e de insumos laboratoriais (23%). Outros 22% informaram dificuldades para obter medicamentos destinados à Profilaxia Pré-Exposição (PrEP), enquanto 20% registraram problemas no acesso aos medicamentos antirretrovirais.
Mesmo entre instituições que não tiveram contratos cancelados, os impactos foram expressivos.
Para preservar o financiamento, 61% afirmaram ter alterado ou censurado a linguagem utilizada em documentos, relatórios ou atividades; 61% interromperam algum serviço; e 44% deixaram de atender determinadas populações para continuar elegíveis aos recursos do programa.
Segundo Elise Lankiewicz, da amfAR, responsável pela apresentação do estudo, os resultados deixam claro que as mudanças na política e no financiamento dos Estados Unidos provocaram interrupções em todo o sistema do PEPFAR, afetando de forma desproporcional as organizações locais e as populações mais vulneráveis ao HIV.
Crianças foram as mais afetadas
Se o primeiro estudo revela o impacto das interrupções sobre a estrutura dos serviços de saúde, a segunda pesquisa mostra onde essa crise se torna ainda mais dramática: na assistência às crianças vivendo com HIV.
Baseado em uma análise dos dados oficiais do PEPFAR referentes ao ano fiscal de 2025, o estudo avaliou exclusivamente os serviços diretamente apoiados pelo programa, incluindo atendimento nas unidades de saúde e assistência técnica.
Os resultados mostram que 77.163 crianças vivendo com HIV deixaram de receber tratamento apoiado pelo PEPFAR em 2025, em comparação com o ano anterior — uma redução global de 14,2%.
Os pesquisadores também analisaram dados de 21 países que concentram grande número de crianças em tratamento financiado pelo programa. Em todos, com exceção de um país, houve queda no número de crianças atendidas.
Mais do que isso, as reduções registradas entre crianças foram proporcionalmente superiores às observadas entre adultos.
A situação mais grave foi identificada na África do Sul, onde 30.880 crianças deixaram de receber apoio para tratamento, representando uma redução de 45%.
A equipe também identificou indícios de ruptura na tendência histórica em Uganda, Haiti, Zâmbia, África do Sul e Quênia, sugerindo que a redução observada nesses países não acompanha o comportamento registrado nos anos anteriores.
Segundo Ramona Godbole, do Heidelberg Institute of Global Health, do Hospital Universitário de Heidelberg, na Alemanha, e da Clinton Health Access Initiative (CHAI), os resultados reforçam a necessidade de investigações urgentes em nível nacional e da retomada da divulgação pública de dados rotineiros do PEPFAR desagregados por faixa etária.
Consequências que ultrapassam os números
Para Kenneth Ngure, presidente eleito da IAS e professor associado de Saúde Global da Jomo Kenyatta University of Agriculture and Technology, no Quênia, as pesquisas oferecem as evidências mais robustas produzidas até agora sobre os efeitos das interrupções do programa.
“Esses estudos fornecem novas evidências convincentes de que as interrupções no PEPFAR tiveram consequências negativas e de grande alcance, particularmente para as populações mais vulneráveis.”
Os estudos mostram que os impactos dos cortes no financiamento internacional já extrapolam os indicadores administrativos e alcançam diretamente a assistência prestada às pessoas vivendo com HIV. O fechamento de unidades de saúde, a interrupção de serviços para populações-chave, a escassez de insumos e a redução do tratamento pediátrico revelam que decisões políticas tomadas longe dos territórios mais afetados já produzem consequências concretas na resposta global à epidemia.
Mais do que registrar os efeitos imediatos das mudanças no PEPFAR, as pesquisas reforçam um alerta que deve marcar os debates da conferência: manter programas internacionais de financiamento pode ser tão decisivo para controlar a epidemia quanto desenvolver novas tecnologias de prevenção e tratamento. É justamente esse equilíbrio entre inovação científica, investimento contínuo e compromisso político que poderá definir os próximos capítulos da resposta mundial ao HIV.
* A Agência de Notícias da Aids vai cobri a 26ª Conferência Internacional de Aids com o apoio do Senac São Paulo e da Coordenadoria de IST/Aids da Cidade de São Paulo.
Redação da Agência de Notícias da Aids



