Cortes no financiamento colocam em risco a maior oportunidade da história para controlar a epidemia de HIV, alerta presidente da IAS, dra. Beatriz Grinsztejn

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Enquanto novas tecnologias podem transformar a prevenção do HIV, cortes no financiamento ameaçam tratamento, pesquisa, comunidades e a meta de acabar com a epidemia até 2030

A resposta global ao HIV vive seu momento mais paradoxal em mais de quatro décadas de epidemia. Nunca a ciência ofereceu tantas ferramentas capazes de impedir novas infecções e transformar o tratamento. Nunca, porém, essas conquistas estiveram tão ameaçadas por uma crise de financiamento que compromete programas de prevenção, pesquisa e assistência em diferentes partes do mundo. O alerta foi feito pela presidente da Sociedade Internacional de Aids (IAS), a dra. Beatriz Grinsztejn, durante coletiva de imprensa que abriu oficialmente a 26ª Conferência Internacional de Aids (AIDS 2026), neste domingo (26), no Rio de Janeiro. Diante de jornalistas de vários países, a infectologista brasileira resumiu o desafio que marca esta edição da conferência: a ciência avançou mais rápido do que a capacidade do mundo de garantir que seus benefícios cheguem às pessoas que mais precisam.

“É muito triste porque temos tecnologias extraordinárias de prevenção. Temos medicamentos de longa duração que representam um enorme avanço. Por outro lado, enfrentamos cortes profundos de financiamento que estão afetando não apenas a implementação dessas novas tecnologias, mas também o tratamento, os serviços de prevenção e o cuidado das pessoas vivendo com HIV”, afirmou.

Segundo ela, diversas pesquisas apresentadas durante a conferência mostrarão, pela primeira vez, a dimensão concreta dos impactos provocados pelos cortes internacionais no financiamento da resposta ao HIV.

Ciência avança, acesso continua restrito

Ao longo da coletiva, dra. Beatriz destacou que a chegada dos medicamentos injetáveis de longa duração representa uma das maiores conquistas da história da prevenção do HIV. Entretanto, alertou que a adoção dessas tecnologias ainda ocorre em ritmo muito inferior ao necessário.

“Mesmo países que conseguiram negociar preços reduzidos ainda apresentam uma implementação muito pequena. Precisamos ampliar rapidamente esse acesso”, disse.

Ela também comentou as dificuldades enfrentadas pela América Latina para incorporar essas inovações, lembrando que muitos países da região ainda dependem de negociações internacionais para garantir acesso sustentável aos novos medicamentos.

Meta de acabar com a aids até 2030 está ameaçada

Questionada sobre a possibilidade de o mundo cumprir o compromisso de eliminar a aids como problema de saúde pública até 2030, dra. Beatriz foi direta.

“Estou muito preocupada. Honestamente, não vejo que estejamos fazendo o suficiente para alcançar essas metas. Os dados que estamos observando são extremamente preocupantes”, afirmou.

A avaliação reforça o momento crítico vivido pela resposta global ao HIV, justamente quando cortes em programas internacionais começam a produzir impactos mensuráveis sobre serviços de saúde e prevenção.

Pesquisa científica também está sob risco

Outro ponto de forte preocupação apresentado durante a coletiva foi o futuro da pesquisa internacional, especialmente diante das incertezas envolvendo financiamentos dos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos (NIH).

A presidente do IAS explicou que grande parte da infraestrutura científica construída nas últimas décadas em países de baixa e média renda depende desses investimentos.

“Seria um desastre anunciado perder essa infraestrutura. Ela foi fundamental não apenas para a resposta ao HIV, mas também durante a pandemia de Covid-19, quando essas redes permitiram desenvolver estudos sobre vacinas, prevenção e tratamento em todo o mundo”, afirmou.

Ela ressaltou que, sem pesquisa, será impossível desenvolver as próximas gerações de tecnologias capazes de controlar a epidemia. “Preservar o tratamento é fundamental, mas sem pesquisa não haverá futuro para a resposta ao HIV.”

Prevenção precisa voltar ao centro da resposta

Ao responder perguntas sobre o equilíbrio entre tratamento e prevenção, a especialista afirmou que muitos governos continuam concentrando esforços apenas em manter pessoas vivendo com HIV em tratamento, enquanto investem pouco em estratégias preventivas.

“Colocar pessoas em tratamento não basta. Precisamos convencer governos e financiadores de que investir em prevenção é essencial para reduzir a incidência do HIV”, destacou.

Ela defendeu maior investimento em educação, testagem, profilaxias e ações comunitárias como parte de uma resposta mais sustentável.

Comunidades não podem ficar sem recursos

Um dos momentos mais enfáticos da coletiva ocorreu quando a médica falou sobre o impacto dos cortes financeiros nas organizações comunitárias.

Segundo ela, em muitos países esses grupos não recebem recursos governamentais e dependem quase exclusivamente de financiamento internacional.

“É extremamente doloroso ver o financiamento destinado às comunidades desaparecer. Os governos precisam assumir esse compromisso. Sem organizações comunitárias, será impossível manter os serviços de prevenção funcionando”, afirmou.

Brasil ganha destaque internacional

Apesar do cenário preocupante, a dra. Beatriz destacou a importância simbólica de realizar a AIDS 2026 no Brasil, país reconhecido internacionalmente por sua resposta ao HIV.

Ela lembrou que a América Latina enfrenta elevados níveis de estigma, discriminação, homofobia e transfobia, fatores que continuam dificultando o acesso das populações mais vulneráveis aos serviços de saúde.

“Realizar esta conferência aqui é extremamente importante. Estamos em uma região onde o estigma continua sendo uma barreira crítica para o acesso à prevenção e ao cuidado”, afirmou.

A presidente da IAS também comemorou a participação de cerca de sete mil pessoas na conferência, apesar do momento econômico adverso, e afirmou que o encontro representa uma oportunidade única para fortalecer alianças internacionais.

“Não podemos desperdiçar este momento”

Ao longo de toda a coletiva, uma mensagem permaneceu constante: o mundo possui, hoje, instrumentos científicos capazes de transformar a resposta ao HIV, mas corre o risco de perder essa oportunidade caso os investimentos continuem diminuindo.

“Temos tecnologias que sempre sonhamos em ter. Infelizmente, não temos o financiamento necessário para levá-las às pessoas que mais precisam. Mais do que nunca, precisamos manter viva a esperança de alcançar os objetivos para 2030, embora, diante do cenário atual, essa tarefa seja extremamente difícil”, concluiu.

Redação da Agência de Notícias da Aids

* A equipe da Agência de Notícias da Aids cobre a AIDS 2026 com o apoio do Senac São Paulo e da Coordenadoria de IST/Aids da cidade de São Paulo.

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