
O combate ao HIV e à tuberculose na África do Sul enfrenta uma nova e dura realidade. De acordo com o mais recente relatório de Avaliação de Impacto Consolidado do Departamento de Saúde, os cortes de financiamento dos Estados Unidos já provocam consequências preocupantes em diversas frentes da resposta à epidemia. As províncias de Cabo Ocidental, Noroeste e Gauteng estão entre as mais afetadas, especialmente em relação aos serviços de prevenção.
Entre os principais impactos está o fechamento de clínicas voltadas para populações-chave, como homens que fazem sexo com homens, trabalhadoras do sexo e pessoas trans, o que comprometeu o acesso regular à profilaxia pré-exposição (PrEP) e a outros serviços essenciais. Com isso, pacientes foram redirecionados para unidades de saúde pública já sobrecarregadas.
Programas voltados para adolescentes e jovens, como o DREAMS, também sofreram interrupções. A suspensão de unidades móveis de atendimento em áreas de alta transmissão gerou um vácuo de acesso, deixando muitas comunidades sem cobertura.
A Coalizão Internacional de Preparação para o Tratamento (ITPC) alertou que o cenário pode piorar em distritos que não estão diretamente vinculados à Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional (USAID). Nesses locais, há fragilidades no monitoramento de estoques de medicamentos e insumos. Embora o país conte com sistemas como o aplicativo móvel SVS e o portal SVS Web, usados desde 2015 para rastrear a disponibilidade de medicamentos em mais de 3.000 clínicas e 300 hospitais, a visibilidade limitada desses dados por parte dos gestores locais compromete a tomada de decisões.
Comunidades em risco
A crise financeira também ameaça diretamente as organizações comunitárias que atuam na linha de frente da resposta ao HIV. Muitas dessas instituições foram obrigadas a suspender parte de suas atividades — algumas fecharam completamente as portas. Isso afetou, por exemplo, programas que oferecem alimentação para crianças em situação de vulnerabilidade, além de iniciativas voltadas à proteção de sobreviventes de violência sexual e de gênero, com apoio psicossocial, medicamentos preventivos e espaços seguros.
A perda desses serviços representa um retrocesso alarmante, sobretudo em comunidades historicamente desassistidas e que dependem dessas iniciativas para garantir acesso à prevenção, tratamento e apoio integral.
Governo anuncia medidas emergenciais
Diante do cenário, o Ministro da Saúde da África do Sul, Dr. Aaron Motsoaledi, anunciou uma nova alocação orçamentária para tentar reverter parte dos danos. Serão investidos ZAR 1,4 bilhão (cerca de R$ 400 milhões) na aquisição de equipamentos médicos essenciais, como camas hospitalares e materiais de consumo, que há muito faltam em hospitais públicos.
Além disso, o governo promete reforçar o quadro de profissionais de saúde, com um investimento adicional de ZAR 1,78 bilhão. A expectativa é mitigar os efeitos da sobrecarga nas unidades públicas e garantir a continuidade dos cuidados a quem vive com HIV e outras condições crônicas.
“Feche a Lacuna”: foco na saúde dos homens
Em meio aos desafios, uma experiência positiva surge como exemplo de inovação. Lançada em KwaZulu-Natal, a clínica masculina do projeto-piloto da campanha “Close the Gap” vem sendo bem recebida pela comunidade. Voltada ao atendimento de mais de 600 mil homens, a iniciativa oferece cuidados primários de saúde, rastreio de câncer de próstata e atendimento voltado à saúde sexual e reprodutiva.
Com enfermeiros treinados especialmente para lidar com o público masculino e espaços reservados, o modelo trouxe uma resposta mais acolhedora e eficaz. O sucesso levou à expansão do projeto para outras cinco clínicas municipais.
Ainda que representem um alento, essas iniciativas pontuais não substituem o impacto sistêmico dos cortes internacionais. Organizações da sociedade civil têm cobrado maior comprometimento global e nacional com o financiamento sustentável da resposta ao HIV. O temor é que o avanço de décadas seja comprometido por falta de recursos — e de vontade política.
Redação da Agência Aids com informações



