A redução do financiamento internacional destinado ao enfrentamento do HIV tem levado governos, pesquisadores e organizações comunitárias a repensarem como garantir a continuidade dos serviços de prevenção, tratamento e cuidado construídos ao longo das últimas décadas. Para especialistas reunidos nesta terça-feira (29), durante a 26ª Conferência Internacional de Aids (AIDS 2026), realizada no Rio de Janeiro, preservar os avanços conquistados dependerá não apenas da ampliação do financiamento doméstico, mas também da reorganização dos sistemas de saúde, do fortalecimento do protagonismo das comunidades e do investimento em estratégias capazes de manter a confiança das pessoas nos serviços.
Esses foram alguns dos principais temas debatidos na sessão Repensar. Reconstruir. Avançar. A atividade foi aberta por Chris Beyrer, da Universidade Duke (Estados Unidos), e reuniu Michel Nussenzweig, da Universidade Rockefeller (Estados Unidos), que apresentou o panorama atual das pesquisas com anticorpos amplamente neutralizantes (bNAbs); Lloyd Mulenga, do Hospital Universitário da Universidade da Zâmbia, que discutiu os desafios para a prestação de serviços de HIV em um período de transição do financiamento internacional; e Wame Jallow Mosime, da MTV Staying Alive Foundation (Botsuana), que abordou como cultura, mídia e comportamento influenciam a resposta à epidemia. O encerramento da sessão também foi conduzido por Beyrer.
Ao abrir sua apresentação, Lloyd Mulenga convidou o público a refletir sobre o momento vivido pela resposta global ao HIV.
“Gostaria que refletíssemos sobre o que é necessário para sustentar os serviços de HIV durante este período de transição do financiamento de doadores para o financiamento nacional e também por meio do empoderamento das comunidades em um contexto de transformação.”
Segundo o especialista, o modelo que sustentou a expansão da resposta ao HIV nas últimas décadas passa por uma mudança profunda. O financiamento internacional permanece estagnado há anos e enfrenta novas pressões fiscais e geopolíticas. Diante desse cenário, afirmou, os países precisarão fortalecer sistemas de saúde liderados pelos próprios governos e sustentados por recursos nacionais, reduzindo a dependência de estruturas paralelas criadas por programas financiados por doadores internacionais.
“Precisamos reconstruir um sistema onde o modelo criado por um doador não deixe de existir quando esse financiamento terminar.”
Apesar dos avanços registrados nas últimas décadas, Mulenga lembrou que a epidemia permanece longe de ser controlada em diversas regiões do mundo. Enquanto alguns países conseguiram reduzir significativamente as novas infecções e as mortes relacionadas à AIDS, outros registram crescimento da epidemia, como as Filipinas e países da Europa Oriental e da Ásia Central.
Na avaliação do pesquisador, uma transição mal conduzida pode comprometer décadas de investimentos. “Corremos o risco de retroceder se não gerirmos bem essa transição.”
Mulenga citou projeções da Unaids que apontam que interrupções no financiamento e na oferta de serviços podem provocar aumento das mortes relacionadas à AIDS, crescimento das novas infecções e enfraquecimento dos sistemas de saúde, especialmente em regiões altamente dependentes da cooperação internacional.
Repensar a forma de cuidar
Para Mulenga, enfrentar esse cenário exige muito mais do que substituir recursos internacionais por financiamento doméstico. Será necessário transformar a maneira como os serviços são organizados e oferecidos.
Entre as prioridades apontadas pelo especialista estão a ampliação dos modelos diferenciados de atendimento, a incorporação da terapia antirretroviral e da PrEP de longa duração, o fortalecimento da telemedicina e o uso de tecnologias digitais para ampliar o acesso à prevenção e ao acompanhamento das pessoas que vivem com HIV.
Ele também defendeu a reorganização dos serviços para concentrar o atendimento especializado nos casos mais complexos, ampliar estratégias de autocuidado e utilizar ferramentas digitais, como chatbots, para oferecer orientação sobre prevenção e adesão ao tratamento. “A continuidade do tratamento antirretroviral é inegociável.”
Segundo Mulenga, essas transformações dependerão de vontade política, fortalecimento do financiamento nacional e modelos de cuidado capazes de responder às necessidades das populações mais vulneráveis.

A confiança também sustenta a resposta ao HIV
Se Lloyd Mulenga destacou a necessidade de reinventar os sistemas de saúde, Wame Jallow Mosime chamou atenção para outro elemento indispensável à sustentabilidade da resposta ao HIV: a construção da confiança entre os serviços de saúde e as comunidades.
Ao apresentar experiências desenvolvidas pela MTV Staying Alive Foundation, ela mostrou como produções audiovisuais e estratégias de comunicação vêm sendo utilizadas para aproximar os jovens dos serviços de prevenção sem recorrer ao formato tradicional das campanhas de saúde pública.
Em vez de colocar o HIV no centro da narrativa, iniciativas como a série **Shuga** abordam temas como relacionamentos, família, preconceito e sexualidade por meio de personagens e histórias com as quais o público se identifica.
“O público não encontrou o Shuga como uma campanha de saúde pública, mas como jovens vivendo o primeiro amor, enfrentando o estigma familiar e experiências que pareciam suas próprias vidas.”
Segundo Wame, essa estratégia nasceu da escuta das demandas apresentadas pelos próprios jovens e permitiu transformar conversas reais em histórias capazes de combater mitos, reduzir o estigma e construir vínculos de confiança.
“As mensagens de saúde pública mais eficazes encontram as pessoas onde elas estão, dentro de suas culturas, comunidades e relações.”
Ela também destacou que o humor pode ser um recurso importante para iniciar conversas sobre temas considerados difíceis. “Às vezes, a melhor maneira de começar uma conversa é fazendo as pessoas rirem. O humor baixa nossa defesa. Isso cria espaço para a curiosidade onde, de outra forma, a vergonha poderia tomar conta.”
Para a especialista, essa construção de confiança torna-se ainda mais importante em um cenário de redução do financiamento internacional.
“O financiamento está diminuindo. As organizações comunitárias estão sendo solicitadas a fazer muito mais com muito menos. Tudo isso está acontecendo exatamente no momento em que a confiança nunca foi tão importante.”
Ao encerrar sua apresentação, Wame lembrou que o estigma continua influenciando diretamente as escolhas relacionadas à prevenção, ao diagnóstico e ao tratamento.
“Enquanto esse estigma existir, as pessoas continuarão evitando fazer o teste, adiando o tratamento e recebendo o diagnóstico tarde demais.”
Embora tenham abordado dimensões distintas da resposta ao HIV, as apresentações convergiram em uma mesma preocupação: preservar os avanços conquistados nas últimas décadas exigirá mais do que novos recursos financeiros. Em um cenário marcado pela redução da cooperação internacional e por profundas transformações na saúde global, os especialistas defenderam que a sustentabilidade da resposta dependerá da capacidade de fortalecer os sistemas públicos de saúde, ampliar o protagonismo das comunidades, incorporar inovação e desenvolver estratégias capazes de manter as pessoas conectadas aos serviços de prevenção, diagnóstico e tratamento.
Bárbara Clara, especial para a Agência de Notícias da Aids
* A equipe da Agência de Notícias da Aids cobre a AIDS 2026 com o apoio do Senac São Paulo e da Coordenadoria de IST/Aids da cidade de São Paulo.



