Pesquisa com 800 brasileiras mostra falta de informação sobre o Papanicolau e baixa adesão à vacinação contra o HPV
Seis em cada dez mulheres brasileiras não realizam o exame Papanicolau, um dos principais métodos de prevenção e rastreamento do câncer do colo do útero. O dado faz parte de uma pesquisa inédita realizada neste ano pelo Grupo Brasileiro de Tumores Ginecológicos (EVA), em parceria com o Instituto Locomotiva, divulgado na última terça-feira (25/8).
Segundo o levantamento, 61% das mulheres ouvidas não fizeram o exame. O estudo também mostra que 34% das entrevistadas não se consideram parte do grupo de risco para cânceres ginecológicos, revelando dificuldades que vão além do acesso aos serviços de saúde e envolvem também informação e percepção sobre os riscos da doença.
O objetivo foi acompanhar a evolução do conhecimento das brasileiras sobre os tumores ginecológicos e a adesão às medidas de prevenção, especialmente a vacinação contra o HPV e os exames de rastreamento.
Falta de informação ainda é uma barreira
Apesar de o conhecimento sobre prevenção ter aumentado em alguns aspectos em relação ao ano passado, a pesquisa mostra que ainda existe dificuldade para entender a finalidade dos exames. Cerca de 26% das mulheres em idade fértil afirmaram não saber por que o Papanicolau é realizado. Em 2025, o percentual era de 29%. O resultado indica uma melhora, mas mostra que ainda há uma parcela significativa de mulheres que não compreende a importância do exame.
A adesão também é afetada pela experiência das pacientes nos serviços de saúde. Entre as entrevistadas, 47% afirmaram já ter deixado de retornar a uma consulta com ginecologista após receberem um atendimento considerado ruim.
Para a especialista envolvida na pesquisa, Carolina Tonussi, gerente de pesquisa quantitativa do Instituo Locomotiva, a combinação entre desinformação, experiências negativas no atendimento e circulação de informações falsas pode dificultar a prevenção e atrasar a identificação de doenças.
Ela destacou que a pesquisa também avaliou o conhecimento das participantes sobre o câncer do colo do útero e o HPV por meio de uma dinâmica de “mitos e verdades”.
Segundo ela, apenas 26% das entrevistadas acertaram entre oito e dez das perguntas, enquanto somente 3% responderam corretamente a todas. Para Carolina, o resultado evidencia uma lacuna de informação que ainda dificulta a prevenção. “A gente vê realmente essa grande lacuna de informação. Por isso, fazer essa informação chegar de forma mais clara e didática para essas mulheres é ainda mais importante”, afirmou.
O levantamento também apresentou às participantes um texto com informações sobre o câncer do colo do útero e o HPV. Depois, as mulheres avaliaram individualmente diferentes frases para indicar quais mais chamavam a atenção e teriam maior potencial de sensibilizar o público.
A afirmação que mais despertou interesse foi a de que cerca de 20 mulheres morrem todos os dias no Brasil em decorrência do câncer do colo do útero. A frase já havia sido a que mais chamou a atenção das entrevistadas no ano passado e voltou a se destacar na edição deste ano.
Vacinação contra HPV também enfrenta obstáculos
A vacinação contra o HPV aparece como outro ponto de atenção. Segundo o levantamento, 39% das mulheres entre 18 e 45 anos não tomaram a vacina ou não se lembram de ter sido imunizadas.
Entre aquelas que não receberam a vacina, o principal motivo apontado foi a percepção de que a imunização não seria indicada para a faixa etária em que estão. O resultado, segundo os responsáveis pela pesquisa, reforça a necessidade de ampliar a informação sobre a vacinação também entre mulheres adultas.
Ao mesmo tempo, houve aumento no conhecimento declarado sobre a importância da imunização. 44% das entrevistadas disseram saber da importância da vacina contra o HPV, ante 38% no levantamento anterior. A pesquisa também aponta que nem todas as mulheres associam o HPV ao desenvolvimento de câncer, o que pode contribuir para a baixa percepção de risco e dificultar a adesão às medidas preventivas.
A pesquisa foi apresentada em um evento realizado em São Paulo e reúne dados que antecedem o Setembro em Flor, campanha de conscientização sobre os cânceres ginecológicos.
Câncer ginecológico é problema de saúde pública
Presidente do Grupo EVA e líder de oncologia clínica do A.C. Camargo Cancer Center, a médica Andrea Gadelha afirma que o câncer ginecológico continua sendo um problema de saúde pública mundial.
Segundo dados apresentados durante o evento, 19.310 novos casos de câncer do colo do útero são registrados, enquanto 7.493 mulheres em idade ativa morreram em decorrência da doença, de acordo com números do Instituto Nacional de Câncer (INCA) citados na apresentação.
Para Andrea, ampliar o acesso à informação é fundamental para aumentar a adesão aos métodos de prevenção e rastreamento. “Acreditamos no poder da informação para que a gente realmente tenha melhor adesão aos métodos de rastreio. A gente precisa de muitas pessoas para isso”, afirmou.
O evento também contou com a participação da bióloga e influenciadora Mari Krüger, que mediou um bate-papo sobre HPV e o papel dos criadores de conteúdo na disseminação de informações sobre saúde.
Conhecida por explicar ciência de forma divertida nas redes sociais, muitas vezes com fantasias diferentes para chamar a atenção do público, Mari destacou como a comunicação pode aproximar temas considerados complexos do cotidiano das pessoas. “Essa conversa que começa na rede social pode fazer a pessoa se questionar e procurar um médico. Ela pode conversar com pessoas próximas e procurar saber mais sobre vacinação e exames de rotina. A comunicação deixa de ser conteúdo e passa a ser uma ferramenta de prevenção”, disse.
Para a influenciadora, falar sobre saúde nas redes sociais também exige responsabilidade, especialmente diante da disseminação de informações falsas. Segundo ela, o conteúdo produzido por criadores deve ser baseado em fontes confiáveis e na orientação de especialistas. “Existe uma responsabilidade gigante nisso. Quando a gente fala de saúde, não pode ser achismo. Precisa de informações confiáveis, fontes seguras e especialistas. A gente vai se informar por meio dessas fontes e especialistas e apenas traduzir para o público. Essa é a função da influência digital”, afirma.
O Grupo EVA foi fundado em 2010 com atuação voltada para ensino, pesquisa, prevenção e tratamento dos tumores ginecológicos e reúne cerca de 1,3 mil integrantes em todo o país. A campanha Setembro em Flor tem como tema neste ano “O futuro é agora”. O símbolo da iniciativa possui cinco pétalas, que representam os tumores de ovário, colo do útero, endométrio, vagina e vulva.
A proposta da campanha é reforçar que a prevenção e o diagnóstico precoce não devem ser adiados. Como resume o lema da iniciativa: o câncer ginecológico não pode esperar.
A segunda edição da pesquisa Percepção das Brasileiras sobre Tumores Ginecológicos e Práticas de Prevenção ouviu 800 mulheres entre 18 e 45 anos, das classes A, B, C e D, de todas as regiões do país. O levantamento foi realizado de forma on-line e tem margem de erro de 3,5 pontos percentuais.




