Corpos, direitos e resistência: mulheres vivendo com HIV denunciam invisibilidade, violência e desigualdades de gênero

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A luta por dignidade, autonomia e reconhecimento marcou os debates da mesa “Corpos, Direitos e Resistência: a luta feminista das mulheres vivendo com HIV por dignidade e autonomia”, realizada durante o XI Encontro Nacional do Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas (MNCP). O espaço reuniu reflexões sobre os impactos das desigualdades de gênero, da violência, da discriminação e da exclusão social na vida de mulheres que convivem com o HIV, reafirmando o feminismo como instrumento fundamental de transformação social e garantia de direitos.

A mesa contou com a participação de Fabhyana Carvalho de Oliveira, do MNCP do Espírito Santo; Luadna Barbosa da Silva, do MNCP de Minas Gerais; e Rosaura de Oliveira Rodrigues, integrante da Rede Feminista de Saúde (RFS) e da Comissão Intersetorial de Saúde das Mulheres (CISMU).

Ao abrir o debate, as participantes destacaram que a epidemia do HIV continua sendo atravessada por profundas desigualdades sociais, de gênero e de orientação sexual. Embora os avanços científicos tenham transformado o HIV em uma condição crônica tratável, o estigma e a discriminação ainda fazem parte da realidade de muitas mulheres, afetando sua saúde, seus relacionamentos e o acesso a direitos básicos.

Invisibilidade e preconceito contra mulheres bissexuais

Fabhyana Carvalho trouxe à discussão as experiências das mulheres bissexuais vivendo com HIV, grupo que frequentemente enfrenta uma dupla invisibilização. Além do estigma relacionado ao diagnóstico, essas mulheres convivem com preconceitos associados à própria bissexualidade, muitas vezes desacreditada ou negada socialmente.

Segundo ela, essa invisibilidade contribui para dificuldades de acesso a serviços de saúde preparados para acolher suas demandas específicas, além de favorecer situações de discriminação nos ambientes familiares, afetivos e institucionais.

O debate ressaltou que o reconhecimento da bissexualidade como uma identidade legítima é um passo essencial para garantir o direito dessas mulheres à existência plena, ao exercício da autonomia sobre seus corpos e à vivência da sexualidade livre de culpa, medo ou discriminação.

Travestilidades, acesso à saúde e resistência

Na sequência, Luadna Barbosa da Silva abordou os desafios enfrentados por travestis e mulheres trans vivendo com HIV. A palestrante destacou que a transfobia institucional ainda representa uma das principais barreiras para o acesso aos serviços de saúde, manifestando-se por meio do desrespeito ao nome social, da discriminação e da violação de direitos.

A discussão evidenciou que as desigualdades sociais, a exclusão do mercado de trabalho, a violência e a vulnerabilidade econômica ampliam os impactos do HIV sobre essa população e dificultam a continuidade do cuidado em saúde.

Ao mesmo tempo, Luadna ressaltou a força das travestilidades como expressão de resistência política e social. Movimentos organizados têm desempenhado papel fundamental na denúncia de violações de direitos e na construção de estratégias de prevenção, educação e cuidado baseadas no respeito à diversidade e à dignidade humana.

As participantes defenderam que garantir acesso à saúde significa assegurar ambientes acolhedores, livres de discriminação e capazes de reconhecer plenamente as identidades de gênero das pessoas atendidas.

Violência como determinante social da saúde

Encerrando a mesa, Rosaura de Oliveira Rodrigues trouxe uma reflexão sobre a violência como um dos principais determinantes sociais que afetam a vida das mulheres vivendo com HIV.

Segundo a especialista, a violência pode assumir diferentes formas — física, psicológica, sexual, patrimonial, institucional e simbólica — e está presente na trajetória de muitas mulheres antes e após o diagnóstico. Entre as situações relatadas estão violência doméstica, abandono afetivo, exposição indevida da sorologia e discriminação nos serviços de saúde.

As consequências são profundas. Além dos impactos sobre a saúde mental e a qualidade de vida, a violência pode comprometer a adesão ao tratamento e limitar o exercício da autonomia das mulheres sobre suas próprias vidas.

Durante o debate, foi destacado que o enfrentamento dessa realidade exige políticas públicas integradas que articulem saúde, assistência social, educação, justiça e direitos humanos, promovendo respostas capazes de combater as múltiplas formas de desigualdade que atravessam a vida das mulheres vivendo com HIV.

Feminismo, autonomia e fortalecimento das redes de apoio

Ao longo da mesa, as participantes reforçaram que a luta feminista tem sido decisiva para ampliar o acesso à saúde integral, fortalecer os direitos sexuais e reprodutivos e garantir maior participação das mulheres na formulação de políticas públicas.

Também foi ressaltada a importância das redes comunitárias, dos grupos de apoio e das organizações da sociedade civil que atuam na defesa dos direitos das pessoas vivendo com HIV. Esses espaços seguem sendo fundamentais para acolher, informar, fortalecer vínculos e combater o isolamento provocado pelo estigma.

Mais do que denunciar violações, a mesa reafirmou a potência das mulheres vivendo com HIV como protagonistas de suas próprias histórias e da construção de uma sociedade mais justa, inclusiva e comprometida com os direitos humanos.

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