Com baixas prevalências de HIV, asiáticos e europeus entram em campo nesta quinta-feira (11) carregando preocupações comuns: o aumento de diagnósticos entre populações migrantes e a necessidade de ampliar estratégias de prevenção
A Copa do Mundo de 2026 é a mais global da história. Pela primeira vez, 48 seleções disputam o torneio. Milhões de pessoas cruzam fronteiras para acompanhar os jogos. Culturas se encontram. Idiomas se misturam. Aeroportos ficam lotados. E o futebol transforma o planeta em uma enorme arquibancada.
Mas a circulação de pessoas, que faz da Copa um dos maiores eventos do mundo, também ajuda a revelar uma realidade que vai muito além dos gramados: os desafios contemporâneos da saúde global.
É nesse contexto que Coreia do Sul e República Tcheca entram em campo nesta quinta-feira (11), no Estádio de Guadalajara, no México, pela primeira rodada do Grupo A.
À primeira vista, as duas seleções têm pouco em comum. Uma representa uma das maiores potências tecnológicas da Ásia. A outra é um país de pouco mais de 10 milhões de habitantes localizado no coração da Europa.
Mas quando o assunto é HIV, sul-coreanos e tchecos enfrentam um desafio semelhante: preservar os avanços conquistados ao longo das últimas décadas diante de novas dinâmicas populacionais e sociais que vêm alterando o perfil da epidemia.
Um jogo marcado por baixas prevalências
Diferentemente de outras seleções presentes na Copa, Coreia do Sul e República Tcheca não convivem com epidemias de grande magnitude. Ambos os países apresentam algumas das menores prevalências de HIV em seus respectivos continentes.
Ainda assim, as autoridades sanitárias observam com atenção mudanças recentes que podem influenciar a trajetória da epidemia nos próximos anos. Se no futebol um empate pode ser considerado um bom resultado, na saúde pública a estagnação raramente é suficiente.
Por isso, os dois países seguem investindo em prevenção, testagem e diagnóstico precoce para evitar que os números avancem.
Coreia do Sul aposta na prevenção para frear o crescimento das infecções

Conhecida mundialmente por sua capacidade de inovação tecnológica, a Coreia do Sul também construiu uma das respostas mais estruturadas ao HIV na Ásia.
Segundo a Agência de Controle e Prevenção de Doenças da Coreia, cerca de 17 mil pessoas vivem atualmente com HIV no país. Em 2024, foram registrados 975 novos diagnósticos.
Embora o número permaneça relativamente baixo para uma população de aproximadamente 52 milhões de habitantes, as autoridades observam uma tendência que tem chamado atenção. O crescimento dos diagnósticos entre estrangeiros residentes.
Os números mostram uma trajetória constante. Em 2021, pessoas nascidas fora da Coreia do Sul representavam 20,9% dos novos casos. Em 2022, o percentual subiu para 22,6%. Em 2023, alcançou 25,5%. Já em 2024, chegou a 26,8%.
O fenômeno acompanha a crescente internacionalização da economia sul-coreana, que atrai trabalhadores, estudantes e profissionais de diferentes partes do mundo.
Para as autoridades sanitárias, o desafio não está na origem das pessoas diagnosticadas, mas na necessidade de garantir acesso universal à prevenção, à informação e aos serviços de saúde para uma população cada vez mais diversa.
Jovens adultos concentram a maior parte dos diagnósticos
Outro aspecto que preocupa as autoridades é a concentração das novas infecções entre pessoas jovens. Cerca de 67% dos casos registrados em 2024 ocorreram entre adultos na faixa dos 20 aos 30 anos.
A epidemia também permanece fortemente concentrada entre homens. Dos 975 diagnósticos realizados no último ano, quase 89% ocorreram neste grupo. A transmissão sexual responde praticamente à totalidade dos casos registrados no país. Dados oficiais apontam que 99,8% das infecções ocorreram por via sexual.
Diante desse cenário, a ampliação do acesso à PrEP tornou-se uma das principais estratégias nacionais de prevenção.
Além da PrEP oral, a Coreia do Sul também incorporou o cabotegravir injetável às suas estratégias preventivas.
Em 2024, o governo lançou o Segundo Plano Nacional de Prevenção e Controle da Aids, com metas ambiciosas para os próximos anos, incluindo a redução de 50% das novas infecções.
A imagem internacional da Coreia do Sul costuma estar associada ao K-pop, à tecnologia e aos dramas televisivos que conquistaram audiência em todo o mundo.
Mas o país também enfrenta desafios importantes relacionados à saúde pública, especialmente em uma sociedade que envelhece rapidamente e passa por transformações demográficas profundas. O HIV faz parte dessa agenda.
E a resposta sul-coreana tem apostado em uma combinação de vigilância epidemiológica, inovação tecnológica e ampliação das estratégias de prevenção.
República Tcheca monitora efeitos da guerra sobre a epidemia

Do outro lado do campo estará uma seleção que chega à Copa carregando uma preocupação diferente. A República Tcheca possui uma das menores prevalências de HIV da Europa.
Atualmente, cerca de quatro mil pessoas vivem com o vírus no país. Além disso, aproximadamente 83% conhecem seu diagnóstico, índice considerado elevado pelos padrões internacionais.
Mas a guerra entre Rússia e Ucrânia alterou significativamente alguns indicadores epidemiológicos. Desde o início do conflito, a República Tcheca tornou-se um dos principais destinos de refugiados ucranianos na Europa.
O impacto humanitário da guerra acabou produzindo reflexos também nos serviços de saúde e nos sistemas de vigilância epidemiológica.
Uma epidemia influenciada pela mobilidade humana
Em 2025, a República Tcheca registrou 293 novos diagnósticos de HIV. Foi o segundo maior número observado no país desde 2017. Os dados mostram um cenário que ajuda a explicar a atenção das autoridades.
Pouco mais da metade dos novos casos ocorreu entre cidadãos tchecos. Já 47,8% foram registrados entre estrangeiros residentes. Entre estes, os ucranianos representaram o maior grupo.
Mais da metade dos diagnósticos entre estrangeiros ocorreu justamente entre pessoas oriundas da Ucrânia. Entre as mulheres, o impacto foi ainda mais evidente. Dos 59 casos femininos registrados no ano, 37 ocorreram entre cidadãs ucranianas.
Esses números não indicam necessariamente uma piora da epidemia, mas refletem os efeitos de grandes deslocamentos populacionais provocados por conflitos armados.
A resposta tcheca ao HIV é considerada uma das mais eficazes da Europa Central. O sistema público oferece acesso gratuito à testagem, ao tratamento e às estratégias de prevenção.
Nos últimos anos, a PrEP ganhou espaço entre as principais ferramentas de prevenção, especialmente entre populações mais vulneráveis à infecção. Os resultados aparecem nos indicadores de cuidado.
Atualmente, cerca de 97,5% das pessoas em tratamento alcançam supressão viral. Trata-se de um dos índices mais elevados da Europa.
O dado demonstra que, mesmo diante das mudanças provocadas pelos fluxos migratórios, o país mantém uma rede de assistência robusta e capaz de responder às novas demandas.
Um duelo que fala sobre o mundo de hoje
Quando Coreia do Sul e República Tcheca entrarem em campo, o confronto ajudará a contar uma história que vai além do futebol.
Uma história sobre fronteiras cada vez mais permeáveis, sobre migrações, sobre deslocamentos humanos, sobre sociedades que se tornam mais conectadas e, ao mesmo tempo, mais desafiadoras para as políticas públicas de saúde.
Os dois países apresentam algumas das menores prevalências de HIV entre as seleções presentes na Copa. Mas ambos demonstram que o controle da epidemia exige vigilância constante. Porque, assim como no futebol, nenhuma vantagem é definitiva. E na luta contra o HIV, continuar avançando é tão importante quanto evitar retrocessos.
Redação da Agência de Notícias da Aids




