Copa do Mundo expõe contrastes da epidemia de HIV: Grupo A reúne países com desafios que vão de 4 mil a 8 milhões de casos

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Enquanto México e Coreia do Sul disputam a liderança do Grupo A da Copa do Mundo nesta quinta-feira (18), e República Tcheca e África do Sul lutam pela sobrevivência no torneio, uma outra competição acontece longe dos gramados. As quatro seleções que integram a chave representam realidades radicalmente distintas no enfrentamento ao HIV — desde a maior epidemia do planeta, na África do Sul, até um dos menores índices de prevalência da Europa, na República Tcheca.

Se dentro de campo as diferenças técnicas parecem pequenas, fora dele os números revelam um cenário impressionante: os países do grupo somam mais de 8,4 milhões de pessoas vivendo com HIV. Desse total, cerca de 95% estão na África do Sul.

A segunda rodada da chave, portanto, oferece uma oportunidade rara para observar como diferentes sociedades têm respondido a uma mesma epidemia ao longo das últimas décadas. Em comum, todas apostam fortemente em estratégias de prevenção biomédica, especialmente na ampliação do acesso à PrEP. As semelhanças, porém, terminam aí.

África do Sul: o epicentro mundial da epidemia

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Nenhum país do grupo convive com um desafio tão grande quanto a África do Sul. O país possui aproximadamente 8 milhões de pessoas vivendo com HIV, o maior número absoluto do mundo, concentrando sozinho cerca de um terço de todos os casos da África. A epidemia afeta cerca de 12% da população nacional e continua produzindo aproximadamente 170 mil novas infecções por ano. Mas os números escondem uma desigualdade ainda mais profunda.

As mulheres jovens sul-africanas são hoje uma das populações mais vulneráveis ao HIV em todo o planeta. Cerca de duas em cada três novas infecções ocorrem entre meninas e mulheres jovens, e uma em cada cinco mulheres entre 15 e 49 anos vive com o vírus. A cada semana, aproximadamente mil adolescentes e jovens mulheres adquirem HIV no país.

Paradoxalmente, a África do Sul também se transformou em um dos maiores laboratórios globais de inovação em prevenção. O país participou dos estudos que comprovaram a eficácia da PrEP injetável com cabotegravir e foi escolhido para liderar a implementação do lenacapavir, medicamento apontado por especialistas como uma das tecnologias mais promissoras da história recente da prevenção do HIV.

Enquanto os Bafana Bafana tentam superar pela primeira vez a fase de grupos de uma Copa, o país busca alcançar um feito ainda mais ambicioso: transformar uma das maiores epidemias da história em um caso de sucesso global em prevenção.

México: avanços convivem com crescimento dos diagnósticos

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Se a África do Sul enfrenta uma epidemia generalizada, o México vive uma epidemia concentrada. São mais de 400 mil pessoas vivendo com HIV, a segunda maior população soropositiva da América Latina. Apesar da ampla oferta de tratamento gratuito, cerca de 20% das pessoas que vivem com o vírus ainda desconhecem sua condição sorológica.

O país registrou aproximadamente 22 mil novos casos em 2024, mantendo uma tendência de crescimento observada nos últimos anos. A epidemia mexicana tem um perfil bastante definido: 78% das novas infecções ocorrem entre homens que fazem sexo com homens (HSH), enquanto os homens representam 85% dos diagnósticos registrados.

O México foi um dos pioneiros latino-americanos na universalização do tratamento antirretroviral, adotada em 2003, e atualmente disponibiliza PrEP por meio do sistema público de saúde. Ainda assim, desafios estruturais relacionados à desigualdade social, ao acesso aos serviços e ao estigma continuam influenciando a dinâmica da epidemia.

Curiosamente, o país que abriu a Copa do Mundo de 2026 também tenta abrir uma nova etapa de sua resposta ao HIV: a de reduzir o número de pessoas que ainda vivem sem diagnóstico.

Coreia do Sul: baixa prevalência, novos desafios

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Entre os quatro integrantes do grupo, a Coreia do Sul apresenta uma das situações epidemiológicas mais controladas. Apenas cerca de 17 mil pessoas vivem com HIV no país, um dos menores números da Ásia. Ainda assim, as autoridades sanitárias observam sinais de alerta.

Em 2024 foram registrados 975 novos diagnósticos, e dois terços ocorreram entre adultos jovens de 20 a 39 anos. Além disso, cresce a participação de estrangeiros entre os novos casos registrados. Em apenas quatro anos, essa proporção saltou de pouco mais de 20% para quase 27% dos diagnósticos anuais.

A transmissão ocorre quase exclusivamente por via sexual e permanece concentrada entre homens. Para conter o avanço da epidemia, o governo sul-coreano ampliou a oferta de PrEP e lançou um novo plano nacional que pretende reduzir pela metade o número de novas infecções nos próximos anos.

A situação sul-coreana mostra como mesmo países com baixa prevalência precisam adaptar constantemente suas estratégias diante das mudanças demográficas, dos fluxos migratórios e dos comportamentos sociais.

República Tcheca: quando guerras também impactam epidemias

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A realidade tcheca talvez seja a mais singular do grupo. Com cerca de 4 mil pessoas vivendo com HIV, a República Tcheca possui uma das menores prevalências da Europa. No entanto, a guerra na Ucrânia alterou significativamente o cenário epidemiológico local.

Em 2025, o país registrou 293 novos casos, o segundo maior número desde 2017. Quase metade dos diagnósticos ocorreu entre estrangeiros residentes, e mais da metade desse grupo era composta por refugiados ucranianos. Entre as mulheres, o impacto foi ainda mais evidente: das 59 novas infecções femininas registradas, 37 ocorreram entre cidadãs ucranianas.

O caso tcheco evidencia um fenômeno frequentemente ignorado nos debates sobre HIV: crises humanitárias, deslocamentos populacionais e conflitos armados também moldam o comportamento das epidemias.

Apesar disso, o país apresenta indicadores robustos de cuidado. O acesso à testagem e ao tratamento é universal, e 97,5% das pessoas em terapia antirretroviral alcançam supressão viral, um dos melhores índices do continente.

Muito além da tabela

Quando a bola rolar para a segunda rodada do Grupo A, os torcedores estarão atentos aos pontos, aos gols e à classificação. Mas os números do HIV contam uma história paralela.

Eles revelam que a epidemia não é uma realidade única. Ela assume formas diferentes em cada país, afeta populações distintas e exige respostas específicas. Na África do Sul, o desafio é proteger milhões de mulheres jovens. No México, ampliar o diagnóstico e alcançar populações-chave. Na Coreia do Sul, conter novas tendências de transmissão. Na República Tcheca, responder aos impactos sanitários de uma crise geopolítica.

Redação da Agência de Notícias da Aids

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