Copa do Mundo 2026: Espanha e Áustria exibem respostas sólidas ao HIV, mas desigualdades persistem entre migrantes

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Europeus entram em campo nesta quinta-feira (2), em Los Angeles, representando dois países que controlaram a epidemia do HIV com diagnóstico precoce, tratamento universal e prevenção. Mas ambos ainda enfrentam um adversário comum: as desigualdades que afastam migrantes dos serviços de saúde e alimentam o estigma.

Enquanto a bola rola no SoFi Stadium, em Los Angeles, nesta quinta-feira (2), às 16h (horário de Brasília), Espanha e Áustria disputam uma vaga nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026. De um lado, a Fúria, apontada entre as favoritas ao título. Do outro, uma seleção austríaca que chega embalada por uma campanha consistente. Mas o confronto também aproxima dois países que, fora das quatro linhas, protagonizam histórias de sucesso no enfrentamento ao HIV — ainda que ambos convivam com desafios importantes relacionados às desigualdades sociais, às migrações e ao estigma.

A Espanha terminou a primeira fase na liderança de um grupo que contou com o decepcionante Uruguai. Empatou sem gols com Cabo Verde, goleou a Arábia Saudita por 4 a 0 e venceu os uruguaios por 1 a 0. Apesar dos resultados, a equipe de Luis de la Fuente ainda não convenceu pelo desempenho.

O treinador, porém, minimizou as críticas e reafirmou confiança no modelo de jogo espanhol, lembrando que a equipe chegou ao Mundial cercada de expectativas justamente pela consistência apresentada nos últimos anos.

A Áustria, por sua vez, garantiu a classificação em segundo lugar no grupo liderado pela Argentina. Depois de perder para os sul-americanos por 2 a 0, venceu a Jordânia por 3 a 1 e protagonizou um dos jogos mais emocionantes da fase de grupos ao empatar em 3 a 3 com a Argélia.

Se dentro de campo o equilíbrio promete marcar o duelo, na saúde pública Espanha e Áustria compartilham outra característica: ambas conseguiram transformar o HIV em uma condição amplamente controlada graças ao investimento contínuo em prevenção, testagem e acesso universal ao tratamento.

Espanha mantém epidemia sob controle, mas enfrenta barreiras para alcançar migrantes

A Espanha construiu uma das respostas ao HIV mais sólidas da Europa.

Segundo o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids), aproximadamente 160 mil pessoas vivem com HIV no país. Destas, 92,5% conhecem seu diagnóstico, índice considerado elevado pelos padrões internacionais.

Em 2024, foram registrados cerca de 3.200 novos diagnósticos, enquanto a prevalência estimada entre adultos de 15 a 49 anos permanece em 0,3%.

Os homens que fazem sexo com homens (HSH) continuam sendo o grupo mais afetado, concentrando aproximadamente 56% das novas infecções. As transmissões por relações heterossexuais representam cerca de um quarto dos novos casos.

Os indicadores mostram uma epidemia relativamente controlada, sustentada por políticas públicas consolidadas ao longo de décadas.

O desafio está no acesso, não na falta de tratamento

Hoje, o principal obstáculo espanhol não é a disponibilidade de medicamentos nem de estratégias preventivas.

Durante o 22º Congresso Nacional sobre Aids e ISTs, realizado em Valladolid, a diretora do Plano Nacional sobre HIV/Aids da Espanha, Julia del Amo, chamou atenção para um dado preocupante: cerca de metade dos novos diagnósticos ocorre entre migrantes em situação administrativa irregular.

Grande parte dessas pessoas vem da América Latina e da África Subsaariana. Aproximadamente 60% são homens que fazem sexo com homens, com idade média de 35 anos.

Especialistas apontam que exigências burocráticas, como comprovação de residência, acabam dificultando o acesso aos serviços de saúde, atrasando a realização de testes, consultas e o início do tratamento.

Justiça reconhece discriminação contra pessoa vivendo com HIV

Mesmo com avanços expressivos nas políticas públicas, o estigma permanece presente.

Em 2025, a Justiça espanhola reconheceu, pela primeira vez, como discriminatória uma medida adotada exclusivamente em razão do estado sorológico de uma pessoa vivendo com HIV.

O caso envolveu a Direção Geral de Trânsito (DGT), que reduziu pela metade o período de validade da carteira de motorista de um cidadão apenas por ele viver com HIV.

A decisão foi considerada histórica por organizações da sociedade civil e reforçou que o combate ao preconceito continua sendo uma etapa indispensável da resposta à epidemia.

Da crise dos anos 1980 à ampliação da PrEP

A trajetória espanhola no enfrentamento ao HIV começou em um cenário dramático.

Nas décadas de 1980 e 1990, o país esteve entre os mais atingidos da Europa, especialmente entre usuários de drogas injetáveis.

Como resposta, o governo implementou programas de redução de danos, distribuição gratuita de preservativos, troca de seringas e expansão do acesso aos antirretrovirais.

Em 1987, incorporou o AZT ao sistema público de saúde. Em 1996, passou a oferecer a terapia antirretroviral combinada, marco que mudou a história da epidemia.

Nos últimos anos, a prevenção voltou a avançar com a ampliação da Profilaxia Pré-Exposição (PrEP). Desde 2019, o sistema público oferece gratuitamente a versão oral e, mais recentemente, passou a incorporar também a PrEP injetável para públicos elegíveis.

Áustria registra uma das menores taxas de novos casos da Europa

A Áustria também chega à Copa ostentando resultados expressivos no enfrentamento ao HIV.

Dados do Ministério da Saúde austríaco apontam que 7.936 pessoas vivem atualmente com o vírus. Destas, 94% conhecem seu diagnóstico e 98% recebem tratamento antirretroviral.

Em 2024, foram registrados apenas 114 novos diagnósticos em todo o país.

Os números refletem uma estratégia construída ao longo de mais de quatro décadas.

Uma resposta construída desde o início da epidemia

Quando o HIV começou a se espalhar pela Europa, a Áustria respondeu rapidamente.

Os casos saltaram de apenas seis registros em 1983 para 381 em 1985, levando o país a estruturar uma política nacional de enfrentamento.

Em 1987, incorporou o AZT e, menos de dez anos depois, passou a oferecer a terapia antirretroviral combinada.

Desde então, mais de 11 mil pessoas receberam diagnóstico de HIV no país. Aproximadamente 3.500 desenvolveram aids e 2.859 morreram em decorrência da doença.

Hoje, graças aos avanços científicos, pessoas diagnosticadas precocemente e em tratamento podem ter expectativa de vida semelhante à da população em geral.

Diagnóstico tardio ainda preocupa entre refugiados e imigrantes

Assim como ocorre na Espanha, os maiores desafios austríacos estão relacionados às populações migrantes.

Cerca de 40% dos novos diagnósticos envolvem pessoas nascidas fora da Áustria, principalmente oriundas da Europa Oriental, África Subsaariana e Oriente Médio.

Barreiras linguísticas, dificuldades burocráticas e o medo da discriminação continuam retardando o acesso aos serviços de saúde.

Como consequência, aproximadamente um terço das pessoas recebe o diagnóstico quando a infecção já está em estágio avançado, reduzindo os benefícios do tratamento precoce.

PrEP ampliou a prevenção, mas acesso ainda depende da região

A Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) passou a estar disponível na Áustria em 2016 e ganhou maior alcance após a chegada dos medicamentos genéricos.

Entretanto, diferentemente do que ocorre em países como Brasil, França e Reino Unido, a estratégia ainda não é totalmente gratuita em todo o território austríaco.

O reembolso depende do plano de saúde e da região onde o paciente reside, criando desigualdades de acesso que especialistas consideram um dos principais desafios para ampliar a prevenção.

Controlar a epidemia não significa eliminá-la. Enquanto migrantes, refugiados e populações vulneráveis continuarem encontrando barreiras para acessar prevenção, diagnóstico e tratamento, o HIV seguirá explorando justamente os espaços onde as desigualdades persistem.

Assim como no futebol, vencer exige estratégia, investimento contínuo e trabalho coletivo. Na saúde pública, essa partida ainda está em andamento.

Redação da Agência de Notícias da Aids 

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