Adversários na segunda fase do Mundial, Colômbia e Gana acumulam avanços importantes no enfrentamento ao HIV, mas ainda convivem com desafios distintos. Enquanto os colombianos ampliam o acesso ao tratamento e reforçam políticas de direitos humanos, a legislação ganesa protege pessoas vivendo com HIV, mas mantém barreiras à prevenção ao criminalizar relações entre pessoas do mesmo sexo.
Colômbia e Gana se enfrentam nesta sexta-feira (3), em Kansas City, nos Estados Unidos, por uma vaga nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026. Os colombianos chegam embalados por uma campanha consistente, enquanto Gana tenta reviver o protagonismo que marcou sua histórica participação no Mundial de 2010.
Fora dos gramados, porém, os dois países protagonizam outra disputa: a construção de respostas capazes de conter o HIV sem abrir mão dos direitos humanos.
Embora tenham seguido caminhos diferentes, Colômbia e Gana compartilham um entendimento que hoje orienta as principais recomendações internacionais: combater o estigma é parte essencial da resposta à epidemia.
Ao mesmo tempo, ambos ainda convivem com desafios importantes para ampliar o diagnóstico precoce, fortalecer a prevenção e garantir que populações mais vulneráveis tenham acesso aos serviços de saúde.
Colômbia descriminalizou a transmissão do HIV
Um dos marcos mais importantes da resposta colombiana ocorreu em 2019.
Naquele ano, o Tribunal Constitucional declarou inconstitucional a legislação que criminalizava a transmissão do HIV.
Os magistrados entenderam que a norma violava princípios de igualdade, dignidade e não discriminação.
A decisão foi comemorada por especialistas em saúde pública e organizações de direitos humanos, que há anos sustentavam que criminalizar pessoas vivendo com HIV não reduz novas infecções e apenas fortalece o preconceito.
Com isso, a Colômbia passou a integrar o grupo de países latino-americanos que alinham suas políticas às recomendações internacionais baseadas em direitos humanos.
Uma das maiores epidemias da América do Sul
Apesar do avanço jurídico, a Colômbia continua convivendo com uma epidemia de grande magnitude.
Estima-se que 230 mil pessoas vivam com HIV no país.
A prevalência entre adultos é de aproximadamente 0,6%, uma das mais elevadas da América do Sul.
Em 2023, foram registrados cerca de 12 mil novos diagnósticos.
Bogotá, Medellín e Cali concentram boa parte dos casos, acompanhando a maior densidade populacional dessas regiões.
Os homens representam quase 80% dos novos diagnósticos, enquanto homens que fazem sexo com homens permanecem como o grupo mais afetado.
Ainda assim, a resposta assistencial apresenta resultados positivos.
Mais de 80% das pessoas diagnosticadas recebem tratamento antirretroviral, e a grande maioria alcança carga viral suprimida.
Licença compulsória ampliou acesso ao dolutegravir
Nos últimos anos, a Colômbia também ampliou sua estratégia de prevenção.
A PrEP foi incorporada oficialmente ao sistema de saúde em 2021.
Em 2024, o país voltou a chamar atenção internacional ao emitir sua primeira licença compulsória para o dolutegravir, um dos principais medicamentos utilizados no tratamento do HIV.
A medida permitiu ampliar o acesso a versões genéricas do medicamento e reduzir os custos para o sistema público, sendo considerada um marco na política de acesso a medicamentos essenciais.
Gana reduziu novas infecções e fortaleceu a proteção legal
Do outro lado do confronto, Gana também registra avanços importantes.
Atualmente, cerca de 330 mil pessoas vivem com HIV no país.
Em 2024, foram contabilizadas aproximadamente 15 mil novas infecções, número inferior às cerca de 17 mil registradas dois anos antes.
Desde 2010, o país reduziu em aproximadamente 38% o número de novas infecções, segundo a Organização Mundial da Saúde.
Mesmo assim, a prevalência permanece em 1,5% entre adultos de 15 a 49 anos, uma das mais altas da África Ocidental.
A transmissão sexual continua sendo responsável pela maioria dos casos.
Lei protege pessoas vivendo com HIV
Um dos maiores avanços ocorreu em 2016 com a aprovação da Ghana AIDS Commission Act.
A legislação estabeleceu proteção explícita contra a discriminação de pessoas vivendo com HIV.
A lei proíbe, entre outras práticas:
* exigência de testes para contratação;
* demissão em razão do diagnóstico;
* recusa de atendimento em serviços de saúde;
* negativa de acesso à educação;
* divulgação do estado sorológico sem consentimento.
Quem descumprir essas regras pode ser condenado a até três anos de prisão.
A legislação tornou Gana uma referência regional na proteção dos direitos das pessoas vivendo com HIV.
A contradição que desafia a resposta à epidemia
Ao mesmo tempo em que protege pessoas vivendo com HIV, Gana mantém uma legislação que criminaliza relações entre pessoas do mesmo sexo.
Atualmente, atos homossexuais podem resultar em até três anos de prisão.
Em 2024, o Parlamento aprovou uma proposta que ampliava essas penas para até dez anos.
A medida não entrou em vigor porque o então presidente Nana Akufo-Addo recusou-se a sancionar o texto.
Com a mudança de governo, a proposta foi arquivada, mas voltou a ser apresentada por parlamentares conservadores em 2025.
Para organismos internacionais e especialistas, esse ambiente de criminalização afasta populações-chave dos serviços de prevenção, dificulta a testagem e reforça o estigma — fatores que comprometem o controle da epidemia.
Enquanto os colombianos ampliaram direitos ao descriminalizar a transmissão do HIV e facilitar o acesso a medicamentos, Gana demonstra que proteger pessoas vivendo com o vírus é um passo importante, mas insuficiente quando parte da população continua enfrentando barreiras legais e sociais para acessar prevenção e tratamento.



