Adversários na Copa do Mundo, os dois países vivem realidades opostas no enfrentamento ao HIV. Enquanto a Austrália já alcança indicadores próximos das metas globais da ONU, o Egito ainda enfrenta crescimento das infecções, baixa cobertura diagnóstica e dificuldades para ampliar a prevenção.
Austrália e Egito entram em campo nesta sexta-feira (3), em Dallas, pelas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026. Quem vencer seguirá sonhando com o título e enfrentará nas quartas de final o vencedor do duelo entre Argentina e Cabo Verde.
Mas, longe dos gramados, as duas seleções representam histórias completamente diferentes em outra disputa que mobiliza governos, cientistas e profissionais de saúde há mais de quatro décadas: o enfrentamento ao HIV.
Enquanto a Austrália está entre os países mais próximos de eliminar a transmissão do vírus como problema de saúde pública, o Egito vive um movimento inverso, com crescimento do número de pessoas vivendo com HIV e desafios importantes para ampliar o diagnóstico e o acesso à prevenção.
O contraste mostra que controlar uma epidemia depende de planejamento de longo prazo, investimento contínuo e políticas públicas capazes de alcançar toda a população.
Austrália está entre os países mais próximos das metas globais
Poucos países conseguiram transformar tão profundamente a resposta ao HIV quanto a Austrália. Segundo dados do Unaids e do governo australiano, cerca de 31 mil pessoas vivem com HIV no país.
Em 2023 foram registrados 722 novos diagnósticos, uma redução próxima de 33% em relação a 2014, quando mais de mil novos casos eram contabilizados anualmente.
A prevalência estimada é de apenas 0,14%, uma das menores entre todas as seleções presentes na Copa do Mundo de 2026.
Mais do que números baixos, a Austrália conseguiu construir uma resposta considerada referência internacional.
Muito perto da meta 95-95-95
O país está entre os mais próximos de alcançar a meta 95-95-95 do Unaids. Hoje:
* 91% das pessoas vivendo com HIV conhecem seu diagnóstico;
* 97% delas recebem tratamento antirretroviral;
* 98% das pessoas em tratamento atingiram carga viral indetectável.
Na prática, isso significa menos adoecimento, melhor qualidade de vida e interrupção da transmissão sexual do vírus por pessoas em tratamento. Com esses resultados, o governo australiano trabalha com uma meta ainda mais ousada: eliminar as transmissões do HIV até 2030.
Uma estratégia construída ao longo de quatro décadas
O sucesso australiano não aconteceu por acaso. Logo após o primeiro caso registrado, em 1982, o país adotou políticas consideradas inovadoras para a época. Em 1986 implantou programas de troca de seringas para usuários de drogas injetáveis.
Poucos anos depois criou uma estratégia nacional baseada em evidências científicas, envolvendo pesquisadores, governos, profissionais de saúde e organizações comunitárias.
Essa parceria permanente tornou-se uma das marcas da resposta australiana. Hoje, cerca de 80% dos homens que fazem sexo com homens HIV negativos utilizam alguma estratégia preventiva.
Desde 2018, a PrEP faz parte do sistema público australiano e se consolidou como uma das principais ferramentas de prevenção. Até o fim de 2024, mais de 85 mil pessoas já haviam utilizado a profilaxia.
O desafio que ainda preocupa especialistas
Mesmo entre os países considerados modelos internacionais, ainda existem desafios. Na Austrália, pesquisadores do Kirby Institute alertam para o diagnóstico tardio entre mulheres. Quase metade das mulheres diagnosticadas descobre a infecção em estágio avançado. Entre mulheres heterossexuais, esse percentual chega a 46%.
O dado evidencia que ampliar a testagem continua sendo fundamental, inclusive para grupos historicamente menos lembrados pelas campanhas de prevenção.
Egito registra crescimento da epidemia
O cenário egípcio é bastante diferente. Nos últimos anos, o país passou a registrar aumento consistente do número de pessoas vivendo com HIV. Entre 2022 e 2024, as estimativas passaram de 46 mil para 56 mil pessoas vivendo com o vírus.
No mesmo período, os novos diagnósticos cresceram de 5.300 para 6.300 casos anuais. O avanço preocupa especialistas porque ocorre acompanhado por baixa cobertura diagnóstica.
Quase metade das pessoas ainda não sabe que vive com HIV
O principal gargalo do Egito está no diagnóstico. Atualmente, apenas 59% das pessoas vivendo com HIV conhecem sua condição.
Isso significa que milhares permanecem fora do sistema de saúde, iniciando tratamento apenas quando a doença já está mais avançada.
Entre aqueles que conhecem o diagnóstico: 75% recebem terapia antirretroviral; 78% alcançaram supressão viral.
Embora o tratamento seja gratuito, ainda existem dificuldades para ampliar a testagem e garantir acesso mais rápido aos serviços de saúde.
PrEP ainda tem acesso limitado
Outro desafio importante está na prevenção. Ao contrário de diversos países participantes da Copa de 2026, o Egito ainda não dispõe de um programa nacional de distribuição da PrEP. O acesso permanece restrito e alcança apenas parte da população.
Organismos internacionais também apontam escassez de informações sobre populações-chave, como homens que fazem sexo com homens, profissionais do sexo e usuários de drogas injetáveis.
Especialistas avaliam que o estigma, barreiras culturais e limitações no acesso aos serviços contribuem para o crescimento observado nos últimos anos.
Na Copa do Mundo, apenas uma seleção seguirá adiante. No enfrentamento ao HIV, porém, a experiência desses dois países reforça que os resultados mais duradouros não dependem de um único jogo, mas de políticas públicas sustentadas, acesso equitativo à saúde e compromisso contínuo com a prevenção.
Redação da Agência de Notícias da Aids




